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Nos bastidores do Prémio Pessoa

FOTO ANA BAIÃO

Ao longo de 27 anos de Prémio Pessoa, nunca o segredo foi revelado antes de tempo. Mas as surpresas fazem também parte da historiografia. Desde logo, com os premiados que, invariavelmente, estranham o telefonema de Pinto Balsemão a anunciar-lhes a vitória. A chamada telefónica surge, normalmente, a uma quinta-feira à noite. Às vezes fora de horas.

Todos os premiados ficaram surpreendidos. Mas só por duas vezes o júri teve essa sensação de surpresa. A primeira foi logo na primeira edição do prémio, em 1987. O júri decidiu dar a distinção ao historiador José Mattoso, pela publicação de "Fragmentos de uma Composição Medieval". Como de costume, o presidente do júri tentou contactar o premiado para lhe dar a boa notícia. Mas... nada. O historiador tinha decidido retirar-se do mundo e refugiar-se numa pequena aldeia de Arganil. Ex-monge beneditino, Mattoso decidira regressar ao recolhimento, para passar em revista a sua vida e pensar o futuro. Admitia, na altura, voltar ao Convento.

Na aldeia recôndita onde estava recolhido, José Mattoso não tinha telefone, nem meio de contacto. Demorou dois dias até a mulher conseguir transmitir-lhe a mensagem de que precisava de ligar para casa "por causa de uma distinção qualquer recebida em Lisboa". Aparentemente, como relata o jornalista Francisco Belard, que fez a reportagem na altura, "a novidade não parece ter-lhe causado grande perturbação. Regressou à casa de xisto e retomou a rotina a que se obrigara".

Passaram-se dias até que aceitasse a distinção. E com ela também decidiu abandonar a ideia de um novo retiro monástico.

A segunda vez que o júri foi surpreendido foi em 1994, quando escolheu o poeta Herberto Helder como o laureado desse ano. Defendeu que a sua obra "ilumina a língua portuguesa", mas o poeta não é dado a distinções e recusou. "Não digam a ninguém e deem o prémio a outro", acabou por dizer, quando o júri lhe bateu à porta.

Literalmente, foi o júri a bater-lhe à porta de casa. Porque "ninguém tinha o telefone do Herberto Helder e eu só sabia o nome da rua" onde morava, escreveu Alçada Batista, na altura um dos jurados e mensageiros, com Clara Ferreira Alves, da boa notícia ao poeta. Não quis e não aceitou. "Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante que não devíamos insistir", prossegue Alçada Batista. Não insistiram. O prémio ficou na história mas, nesse ano, não chegou a ser entregue.  

Segredo total  Desde 1987 que assim é. Francisco Pinto Balsemão preside ao júri do Prémio Pessoa que, reunido em Seteais, decide quem é a personalidade portuguesa que se distinguiu na Arte, Literatura ou Ciência. Não é um prémio de carreira, nem de revelação. É o prémio dado a uma obra, a uma descoberta ou a um trabalho realizado no ano em causa. Como sempre, também não há prognósticos, nem candidatos favoritos.

Numa sala do palácio de Seteais, estão reunidos esta quinta-feira os jurados do Prémio Pessoa 2014, o maior galardão atribuído em Portugal, no valor de 60 mil euros e uma iniciativa conjunta do Expresso e da Caixa Geral de Depósitos. Este ano, o júri integra Álvaro Nascimento, da CGD, o sociólogo António Barreto, a jornalista Clara Ferreira Alves, o académico Diogo Lucena e o neurocirurgião João Lobo Antunes. O crítico e historiador de Arte José Luis Porfírio, a cientista Maria de Sousa, o musicólogo Rui Vieira Nery e o filósofo Viriato Soromenho Marques integram o júri com o empresário Rui Baião. Maria Manuel Mota, vencedora do Prémio Pessoa no ano passado, e o CEO da Impresa, Pedro Norton, são duas novas entradas para o júri.

O vencedor só é conhecida ao meio dia. O comunicado é lido por Francisco Pinto Balsemão em conferência de imprensa. Até lá, o segredo é total. Os jurados fazem um voto de silêncio e um compromisso de nunca revelar quais os candidatos que ficam pelo caminho. Mesmo depois de muitos anos passados, ninguém quebrou o compromisso. Faz parte dos troféus do prémio nunca ter havido uma fuga de informação.

O método de escolha dos vencedores contribui para que os prognósticos sejam difíceis de traçar. Os jurados apreciam todas as candidaturas, individuais ou coletivas, que sejam entregues no Expresso. Mas têm a prerrogativa de indicar um ou mais nomes de personalidades, que colocam à discussão de todos os membros do júri. O debate e a capacidade de argumentação fazem, em grande parte, os vencedores. Os jurados mais convincentes têm vantagem à partida. Em sucessivas rondas de votação, vão sendo eliminados candidatos. No final, é numa pequena shortlist que se resume a discussão e, claro, se decide o vencedor.

[texto publicado no site do Expresso a 11/12/2014, antes do anúncio do vencedor deste ano, Henrique Leitão]