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Morreu o homem que trouxe a Marinha para o 25 de Abril

Vítor Crespo (último à direita) com Jamila Madeira, Mário Tomé e Vasco Lourenço, no desfile popular de comemoração do 29.º aniversário do 25 de Abril, em Lisboa

Rui Ochôa

Vítor Crespo era um democrata e um homem de cultura. Apoiou Humberto Delgado, conspirou para pôr em marcha a Revolução dos Cravos e subscreveu o Documento dos Nove em agosto de 1975. Assegurou a transição para a independência de Moçambique como Alto Comissário e foi Conselheiro da Revolução. Morreu esta quarta-feira aos 82 anos.

"Perdi um amigo e o país perdeu um democrata", diz ao Expresso o general Pezarat Correia: "Éramos da mesma idade e sentámo-nos sempre ao lado um do outro nas reuniões do Conselho da Revolução. Eu até costumava dizer que tinha um marinheiro a bombordo e outro a estibordo, porque ficava no meio do Vítor Crespo e do Almeida e Costa".

Vítor Manuel Trigueiros Crespo, falecido esta quarta-feira aos 82 anos de idade, nasceu em Porto de Mós, a 21 de março de 1932. Despertou cedo para a vida política, na década de 1950, e foi um dos tenentes que "apoiou a candidatura do general Humberto Delgado", recorda o seu amigo Pedro Pezarat Correia, que com ele partilhou esta etapa: "Somos da geração anterior à dos jovens capitães de Abril. O Vítor teve sempre muita sensibilidade política e foi ele que trouxe a Marinha para a conspiração" do 25 de Abril. Como era professor na Escola Naval, "tinha influência junto da geração mais jovem", acrescenta Pezarat.

Gostava de matemática e de resolver problemas complexos, conta ao Expresso o almirante Melo Gomes, 68 anos, ex-chefe de Estado-Maior da Armada, que foi seu aluno na Escola Naval em 1967. "Trabalhava horas infindas a resolver problemas matemáticos de grande complexidade; tive sempre muito bom contacto com ele desde o tempo em que foi meu professor e dava grandes explicações aos cadetes sobre trajetórias de artilharia".

 

Na Pontinha a 25 de Abril, em Lusaka a 7 de setembro

No dia 25 de Abril de 1974, Pezarat Correia estava em Angola. E Vítor Crespo no quartel da Pontinha, com Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega das operações que levaram à queda do regime. Crespo integrou a Comissão Coordenadora do MFA [Movimento das Forças Armadas], partindo depois para Moçambique para assegurar o processo de descolonização, num período em que os acontecimentos se precipitaram depois da assinatura do Acordo de Lusaka, a 7 de setembro de 1974.

O acordo que reconheceu o direito do povo de Moçambique à independência deve o seu nome a ter sido assinado na capital da Zâmbia. Pelo Estado português assinaram Melo Antunes (ministro sem pasta), Mário Soares (ministro dos Negócios Estrangeiros), Almeida Santos (ministro da Coordenação Interterritorial) e Vítor Crespo (conselheiro de Estado), entre outros, e pela Frelimo o futuro Presidente de Moçambique, Samora Machel. 

Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, lembra em comunicado que  Vítor Crespo foi membro do "primeiro Conselho de Estado, após o 25 de Abril" e que assumiu o cargo de Alto-Comissário de Moçambique até à independência deste território". Pezarat Correia lembra também que Crespo "teve uma ação equilibrada em Moçambique, tendo conseguido manter uma boa relação com a Frelimo" nesses tempos que não foram fáceis. 

Recorde-se que no mesmo dia em que foi assinado o Acordo de Lusaka, em Lourenço Marques [atual Maputo], ao fim da tarde, o Rádio Clube de Moçambique foi ocupado em sinal de protesto contra a independência. Seguiram-se três dias de tumultos que provocaram milhares de mortos.

 

Conselheiro da Revolução e subscritor do Documento dos Nove

A 25 de junho de 1975 foi declarada a independência de Moçambique e Vítor Crespo regressou a Lisboa, integrando o Conselho da Revolução surgido na sequência do 11 de Março desse mesmo ano.

"Os antigos membros da Comissão Coordenadora do MFA passaram a fazer parte do Conselho da Revolução", recorda Pezarat Correia. Com o passar dos meses e o desenrolar dos acontecimentos do 'Verão Quente de 1975', Pezarat e Crespo integram o grupo dos primeiros subscritores do  Documento dos Nove, juntamente com Melo Antunes, Vasco Lourenço, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Sousa e Castro e Vítor Alves [na realidade, este documento foi assinado por mais militares].

"Fizemo-lo sem perdermos as nossas convicções de homens de esquerda", diz Pezarat Correia, 39 anos depois, ao Expresso. Vasco Lourenço recorda que Crespo foi o "único dos membros da Armada a integrar os primeiros subscritores" desse documento.

No ano seguinte, Vítor Crespo foi nomeado ministro da Cooperação no VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo. Depois da "extinção do Conselho da Revolução, volta à Armada" onde assume o cargo de diretor do Serviço de Justiça até à sua passagem à situação de reserva", lê-se no comunicado da Associação de 25 de Abril de que foi o "sócio fundador n.º 2".

O convívio com o velho amigo Pezarat Correia teve um novo bom momento no trabalho que ambos desenvolveram junto das escolas como divulgadores do processo de descolonização na Associação 25 de Abril. "Eu fui o primeiro presidente da Assembleia Geral da Associação e ele substituiu-me", crecorda Pezarat,  que esta quinta-feira vai estar na Basílica da Estrela a homenagear o companheiro de luta pela democracia.

Vítor Crespo era casado com a catedrática de Geografia Teresa Barata Salgueiro, e tinha três filhas do primeiro casamento. Morreu de cancro no pulmão.

O velório realiza-se na Basílica da Estrela, a partir das 17h desta quinta-feira. Na sexta-feira haverá uma cerimónia de homenagem às 12h, que antecede o funeral, no cemitério do Alto de S. João.