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Militares. Inquérito revela grande insatisfação entre os oficiais

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Quase metade dos militares no ativo (44,4%), se pudessem, iam-se já embora

Ana Baião

A falta de condições de trabalho e de segurança aliadas aos cortes nos vencimentos e à baixa perspetiva de evolução na carreira estão a deixar os militares muito insatisfeitos, revela um inquérito realizado pela Associação dos Oficiais das Forças Armadas.

Carlos Abreu

Jornalista

Nos últimos dez anos as Forças Armadas tornaram-se menos operacionais registando-se ainda a degradação das condições de trabalho e de segurança dos militares. A tal ponto que há quem garanta que, se pudesse sair, batia já com a porta. Estas são algumas das principais conclusões de um inquérito realizado pela Associação dos Oficiais das Forças Armadas (AOFA), apresentado este sábado no encontro realizado no ISCTE, em Lisboa.

Ao extenso questionário de 42 perguntas, online entre 1 e 15 de março, responderam, segundo a AOFA, 1227 oficiais nas situações de ativo, reserva e reforma, isto é, 13,6% dos cerca de nove mil oficiais que a associação estima existir em Portugal. A percentagem de respostas obtidas leva a associação a considerar os resultados como "fiáveis e representativos". Mas vamos aos números.

Sobre as condições de operacionalidade nas Força Armadas, mais de 80% dos inquiridos considera que "pioraram" ou "pioraram muito" desde 2005. Já 67% têm idêntica opinião no que toca às condições de trabalho nas unidades militares e 60% sobre as condições de segurança, face aos requisitos e exigências das missões.

A degradação das condições de trabalho e de segurança não foi, no entender dos inquiridos, devidamente compensada. Antes pelo contrário. Mais de metade dos militares que responderam ao questionário, declararam que os cortes nos vencimentos, o aumento dos descontos obrigatórios e nos impostos criaram-lhes bastantes problemas financeiros. Há mesmo 11% que revela estar "numa situação complicada".

No estudo de opinião realizado pela AOFA é ainda público e notório o descontentamento com o atual modelo da Assistência na Doença aos Militares (ADM) que para 87% dos inquiridos, constituídos sobretudo oficiais superiores do sexo masculino no ativo, não deverá ser financiado pelos próprios. Quase 80% considera "absolutamente inaceitável" que os cônjuges venham a descontar (3,5% sobre 79% do vencimento do titular) para terem acesso à ADM. Em seu entender, tal desconto deveria ser facultativo. Se pudessem optar, um terço dos inquiridos escolheria um seguro de saúde como forma de proteção na doença.

A AOFA, tal como as duas associações socioprofissionais que representam sargentos e praças defendem o regresso da legislação que até 2005 isentava os familiares, cônjuges incluídos, de descontar para a ADM. O projeto de diploma que obrigará os cônjuges dos militares a pagar para ter direito à ADM foi aprovado o mês passado em Conselho de Ministros. Segundo a secretária de Estado da Defesa, Berta Cabral, "qualquer sistema gratuito não seria sustentável".

As respostas ao inquérito revelam ainda uma forte oposição à novo projeto de diploma de alterações ao Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFAR), que no entender de quase 70% dos oficiais tem como principal objetivo "reduzir custos com pessoal" promovendo, "um violento bloqueamento das carreiras". Mais de metade dos inquiridos considera ainda que o EMFAR "além de ser um passo na funcionalização agrava a degradação das condições". Para quase 77,6% a proposta "não acautela e até agrava os direitos e os interesses dos militares".

Os inquiridos, na sua maioria residentes em Lisboa e com idade igual ou superior a 56 anos, declararam-se insatisfeitos (38,6%) ou mesmo muito insatisfeitos (29,5%) com as perspetivas de evolução das suas carreiras. Quase metade dos militares no ativo (44,4%), se pudessem, iam-se já embora. Ainda assim, sabendo o que sabem hoje, 44,6% voltariam a servir nas Forças Armadas.