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Henrique Neto. 21 minutos para uma plateia de anónimos

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FOTO JOSÉ VENTURA

O senhor Henrique José de Sousa Neto apresentou-se como o primeiro candidato oficial a Presidente da República. Durante 21minutos, prometeu construir uma nova República porque está "revoltado e triste" com a situação do País. Uma plateia de uma centena de anónimos, na maioria já bem avançados na idade, assistiu atenta. Nenhum dirigente socialista - ou mesmo de qualquer outra organização - esteve presente na sala. Neto não se assusta. "Espero uma boa ajuda de todos", disse à despedida.

Pontual. Pontualíssimo. Como bom empresário, Henrique Neto começou o seu discurso precisamente à hora marcada. Quatro da tarde, no Padrão dos Descobrimentos, como dizia o convite, numa sala feita à justa para os apoiantes da primeira hora. A plateia não tem caras conhecidas. Nenhuma mesmo. E feita sobretudo de homens, todos bem instalados na terceira idade. Ninguém que faça desviar as objetivas fotográficas e as câmaras de televisão da figura do "primeiro candidato oficial à Presidência da República", como, orgulhosamente, é apresentado o "senhor" Henrique Neto. 

"Um copinho de água não faz mal" foram, na verdade, as primeiras palavras do candidato. Não constavam no discurso, escrito, que leu pausadamente perante a plateia atenta. Mas mal chegou ao palanque para abrir a corrida eleitoral, Neto não se conteve e bebeu o copo de água que ali estava mesmo à mão. Mais vale prevenir do que remediar. Com a garganta seca, não há oratória que aguente. O candidato tem experiência suficiente e os 78 anos de vida ensinaram-lhe a preparar-se antes da mais pequena batalha.

E Neto tinha muito para dizer. O quanto está "triste" pelo estado do país. O quanto desconfia dos partidos, com o seu "funcionamento pouco democrático" e "os grupos de interesses instalados no seu seio". O quanto lamenta "o desperdício" de anos e de esforço por sucessivos "erros políticos que podiam e deviam ter sido evitados".

Na plateia, silenciosa e atenta, ninguém ousou interromper o fio de pensamento e de discurso do homem que foram ouvir. Gostam de um outsider, um "out of the box" que entra na corrida com os grandes a falar numa nova República, que quer construir a partir do Palácio de Belém "uma República de igualdade de direitos, da verdade, da honradez e dos valores".

O discurso é, de facto, diferente do habitual. Não por ser frontal e desabrido, como Neto sempre nos habituou, mas pela originalidade de algumas expressões. Nunca terá um candidato presidencial usado alguma vez "metalomecânica pesada" ou "bens transacionáveis" no seu discurso inaugural. Mas Neto fala para os seus: os mais velhos, "do terreno" e "com experiência e honradez". 

Terá votos? Ninguém sabe. Por enquanto, há só mesmo um embrião. Faltam as assinaturas, faltam os mandatários, faltam ainda os fundos. Falta, na verdade, quase tudo. Menos uma enorme vontade de entrar na corrida. Ou, por outras palavras, de dar o corpo às balas.