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Eanes: "Vítor Crespo era um homem de convicções e de caráter"

No dia 20 de setembro de 1974, o então Alto Comissário Vítor Crespo discursa em Lourenço Marques ao lado do chefe do Governo de transição, Joaquim Chissano

Arquivo A Capital

O ex-Presidente da República António Ramalho Eanes Culto disse ao Expresso que teve uma "grande interação com o Almirante Vítor Crespo no Conselho da Revolução". Define-o como um homem "culto, inteligente, que defendia o que considerava estar certo para o país e para a Armada". O funeral de Crespo sai amanhã ao meio da Basílica da Estrela

"Tive uma longa interação com Vítor Crespo no Conselho da Revolução, onde sempre o vi formular as suas opiniões com muita honestidade. Foi um homem que fez muito pela Democracia em Portugal", disse ao Expresso o ex-Presidente da República António Ramalho Eanes, acrescentando que nos anos mais recentes se cruzou várias vezes com o Almirante Crespo nas "sessões evocativas do 25 de Abril".

Mais próximo do Almirante em termos de afetos e amizades, o general Pezarat Correia diz que perdeu "um amigo. Éramos da mesma idade e sentámo-nos sempre ao lado um do outro nas reuniões do Conselho da Revolução. Eu até costumava dizer que tinha um marinheiro a bombordo e outro a estibordo, porque ficava no meio do Vítor Crespo e do Almeida e Costa. Somos da geração anterior à dos jovens capitães de Abril. O Vítor teve sempre muita sensibilidade política e foi ele que trouxe a Marinha para a conspiração.  Como era professor na Escola Naval, tinha influência junto da geração mais jovem", acrescenta Pezarat, lembrando que os dois fizeram parte do grupo de tenentes que apoiou a candidatura à presidência do general Humberto Delgado em 1958.

Os ex-conselheiros da revolução Vítor Crespo, Vasco Lourenço e Vítor Alves na manifestação do 25 de Abril de 1986, em Lisboa

Os ex-conselheiros da revolução Vítor Crespo, Vasco Lourenço e Vítor Alves na manifestação do 25 de Abril de 1986, em Lisboa

Arquivo A Capital

A mãe de Vítor Manuel Trigueiros Crespo, Maria Leocádia, era neta de um irmão do Barão de Porto de Mós, terra onde o futuro almirante nasceu a 21 de março de 1932. Bom aluno, porte de aristocrata, gostava de matemática e de resolver problemas complexos,  como recorda o almirante Melo Gomes, 68 anos, ex-chefe de Estado-Maior da Armada, que foi seu aluno na Escola Naval em 1967. "Trabalhava horas infindas a resolver problemas matemáticos de grande complexidade; tive sempre muito bom contacto com ele desde o tempo em que foi meu professor e dava grandes explicações aos cadetes sobre trajetórias de artilharia".

No dia 25 de Abril de 1974, Crespo estava "no quartel da Pontinha", [com Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega das operações que levaram à queda do regime], conta Pezarat Correia. Integrou a Comissão Coordenadora do MFA [Movimento das Forças Armadas], partindo depois para Moçambique, como Alto Comissário, para assegurar o processo de descolonização, num período em que os acontecimentos se precipitaram depois da assinatura do Acordo de Lusaka, a 7 de setembro de 1974. Este  acordo que reconheceu o direito do povo de Moçambique à independência deve o seu nome a ter sido assinado na capital da Zâmbia. Pelo Estado português assinaram Melo Antunes (ministro sem pasta), Mário Soares (ministro dos Negócios Estrangeiros), Almeida Santos (ministro da Coordenação Interterritorial) e Vítor Crespo (conselheiro de Estado), entre outros, e pela Frelimo o futuro Presidente de Moçambique, Samora Machel. 

No dia 20 de setembro de 1974, o então Alto Comissário Vítor Crespo discursa em Lourenço Marques ao lado do chefe do Governo de transição, Joaquim Chissano

No dia 20 de setembro de 1974, o então Alto Comissário Vítor Crespo discursa em Lourenço Marques ao lado do chefe do Governo de transição, Joaquim Chissano

Arquivo A Capital

Crespo convida o historiador Luís Salgado de Matos para desempenhar o cargo de secretário de Estado da Economia no Governo encarregue de assegurar a transição até à independencência de Moçambique. "Já o conhecia, de forma quase social porque as nossas famílias conheciam-se, mas foi na altura do pós 25 de Abril que privei com ele. Eu estava a fazer tropa na Marinha quando ele me propôs ir para Moçambique, alguns dias antes do 28 de Setembro de 1974. Convidou-me para ficar no palácio da Ponta do Ouro [em Lourenço Marques, atual Maputo], onde ele estava instalado, o que foi bastante bom porque a alternativa seria passar aqueles meses todos num hotel", conta o historiador. "O trabalho do Almirante Crespo como Alto Comissário em Moçambique foi admirável. Soube aplicar o acordo de Lusaka e navegar entre interesses conflituantes", diz Salgado Matos "Houve tumultos em Moçambique que a imprensa portuguesa não chegou a relatar porque o Almirante Crespo soube matar no ovo as más notícias", diz Salgado Matos, lembrando a atuação do almirante no processo de descolonização em Moçambique: "O trabalho dele foi admirável, soube estar à altura da situação. Se transpuséssemos o papel do alto comissário para a nossa organização essa função estava próxima da de chefe de Estado". A chefia do Governo de transição foi assegurada por Joaquim Chissano, futuro Presidente daquele país. Pezarat Correia também considera que Crespo "teve uma ação equilibrada em Moçambique, tendo conseguido manter uma boa relação com a Frelimo" em tempos que não eram fáceis. A 25 de junho de 1975 foi declarada a independência de Moçambique e Vítor Crespo regressou a Lisboa, integrando o Conselho da Revolução surgido na sequência do 11 de Março desse mesmo ano. "Os antigos membros da Comissão Coordenadora do MFA passaram a fazer parte do Conselho da Revolução", recorda Pezarat Correia. Com o passar dos meses e o desenrolar dos acontecimentos do 'Verão Quente de 1975', Pezarat e Crespo integram o grupo dos primeiros subscritores do  Documento dos Nove, juntamente com Melo Antunes, Vasco Lourenço, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Sousa e Castro e Vítor Alves [na realidade, este documento foi assinado por mais militares]. "Fizemo-lo sem perdermos as nossas convicções de homens de esquerda", diz Pezarat Correia, 39 anos depois, ao Expresso. Vasco Lourenço recorda, em comunicado, que Crespo foi o "único dos membros da Armada a integrar os primeiros subscritores" desse documento.

Vítor Crespo a entrar para o Palácio de Belém

Vítor Crespo a entrar para o Palácio de Belém

Arquivo A Capital

Pouco depois, o sobrinho bisneto do Barão de Porto de Mós foi nomeado ministro da Cooperação no VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo. Depois da "extinção do Conselho da Revolução, volta à Armada" onde assumiu o cargo de diretor do Serviço de Justiça até à sua passagem à situação de reserva, lê-se no comunicado da Associação de 25 de Abril de que foi o "sócio fundador n.º 2". O convívio com o velho amigo Pezarat Correia teve um novo bom momento no trabalho que ambos desenvolveram junto das escolas como divulgadores do processo de descolonização na Associação 25 de Abril. "Eu fui o primeiro presidente da Assembleia Geral da Associação e ele substituiu-me", recorda Pezarat,  que esta quinta-feira vai estar na Basílica da Estrela a homenagear o companheiro de luta pela democracia.

O almirante que gostava de matemática era casado com a catedrática de Geografia Teresa Barata Salgueiro, e tinha três filhas do primeiro casamento. Morreu de cancro no pulmão. O velório realiza-se na Basílica da Estrela, a partir das 17h desta quinta-feira. Na sexta-feira haverá uma cerimónia de homenagem às 12h, que antecede o funeral, no cemitério do Alto de S. João.