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Eanes num texto exclusivo para o Expresso. "Eu, que bem conhecia Silva Lopes, que epitáfio lhe poderia dedicar, agora que ele partiu?"

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Rui Ochôa / Expresso

O ex-Presidente da República António Ramalho Eanes traça um perfil do seu amigo José Silva Lopes. Um exclusivo do Expresso onde Eanes diz que Silva Lopes é "uma fonte de inspiração, modelo de referência no saber e na acção, mesmo na patriótica ação".

Eu, que bem o conheci, através da sua múltipla, diversificada e excelente ação, sempre ética, desenvolvida num empenho pelo saber, pela ciência económica, na docência, no trabalho político e no cívico (neste sobretudo), no governo eficaz e rigoroso de grandes organizações (a nível nacional, no Banco de Portugal e no Montepio; na área internacional, nas negociações, para a obtenção de empréstimos ao País, com o Fundo Monetário Internacional, por exemplo, e, mais tarde, como quadro superior desta instituição), como pai e avô extremoso.

Eu, que bem o conheci como amigo, como amigo sempre leal, disponível e desinteressado, como homem que nunca arriava as velas da amizade, mesmo quando a isso o aconselhavam os ventos as tempestades, políticas e outras.

Sim, eu que obrigação tenho de guardar memória de bem o ter conhecido, de repetidamente ter constatado quão excecionais eram os seus talentos de espírito e as suas qualidade de temperamento, quão grande era a medida da sua "vontade boa", do seu carácter, quão impressionante era o seu humanismo e, neste, a sua manifesta e tocante humildade (tão grande, manifesta e tocante que parecia até não considerar como pessoalmente meritórias as suas virtudes. E de tal maneira era assim que não raras vezes o critiquei e lhe disse, pessoalmente, que não lhe ficava bem como que pedir desculpa por ser tão bom).

Silva Lopes, creio bem que no seu pensamento, mas seguramente na sua ação, procurava "kantianamente", sempre, que para "aquilo que deve ser moralmente bom não basta que seja sempre conforme a lei moral, mas também cumprir por amor [por dever] a essa mesma lei" e ao seu grande propósito último: os outros e a Pátria.

Silva Lopes fez sempre da vida um dever, um dever exercido com exigência de pessoal e acrescido saber e dedicação, de patriótica resposta a todos os apelos públicos, por mais exigentes e difíceis que fossem, com uma humildade não poucas vezes tão exemplar quão rara e mesmo desconcertante.

Isto, tudo isto e o mais que não soube dizer, fez, faz com que Silva Lopes tenha sido, seja - para mim, seguramente, e creio que para muitos outros portugueses - uma fonte de inspiração, modelo de referência no saber e na ação, mesmo na patriótica ação. 

Não ousaria, assim, tentar um epitáfio. Por tudo isto, o que referi e o que não soube expressar, diria apenas, para finalizar, que a vida não termina para todos os que, como Silva Lopes, a souberam e quiseram viver: para almas assim, a morte apenas sublinha a vida que viveram, para si e, sobretudo, para os outros; a morte assim é "apenas mais um degrau" para a sua memória e para a memória dos outros, familiares em primeiro lugar, naturalmente, para a definição da sua Pátria.