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Eanes em 52 textos. Um livro preparado em segredo pela mulher e pelos filhos para os 80 anos do ex-Presidente da República

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O livro "Olhar o Futuro", que Manuela Eanes apresenta esta manhã, começou por ser uma prenda para os 80 anos do ex-Presidente. A editora Zita Seabra achou que era muito trabalho para produzir um único exemplar e, três meses depois do general ter feito anos, o livro chega às livrarias.

Há um Eanes militar, um Eanes Presidente da República e um Eanes pós-Presidência da República. É este Eanes cidadão que o livro "Olhar o Futuro" revela a quem quiser ler os 52 textos que o constituem, todos escritos depois de 1986, ano em que Mário Soares sucedeu a Ramalho Eanes como chefe de Estado.

O livro começou por ser uma brincadeira e um gesto de carinho da mulher e dos filhos para o 80.º aniversário do general Ramalho Eanes [celebrado a 25 de janeiro deste ano].

Manuela Eanes pediu a Eugénia Leitão, que colabora no gabinete do ex-Presidente da República, para fazer uma seleção dos textos e intervenções do marido, e combinou com a editora Zita Seabra a produção e impressão de um único exemplar através da Várzea da Rainha, uma empresa que se dedica à feitura de livros feitos por medida e encomenda.

Só que depois do exemplar único ficar pronto, e de ter sido oferecido ao aniversariante, Zita Seabra concluiu que seria um desperdício do trabalho de todos se o livro não chegasse ao público: "A vida política de uma pessoa só existe se existir um livro", disse a editora da Alêtheia ao Expresso. E deve ter dito o mesmo a Manuela Eanes para a persuadir a convencer o marido - homem avesso à exposição pública - a autorizar a edição deste livro que tem 538 páginas e está dividido em oito capítulos: História Nacional, Política Internacional, Temas Militares, Cultura, Portugal, Ação e Reflexão Nacional , Ética e Moral e, por último, Gestão e Estratégia.

Sobre Salazar e o 25 de Abril de 1974

O primeiro texto deste volume é dedicado ao 25 de Abril de 1974. O segundo, ao 25 de Novembro de 1975. Aqui ficam alguns trechos:

"Ao alcance de Salazar estiveram não só a possibilidade de devolver a democracia à Nação, a cidadania aos portugueses, mas, também ainda, encontrar solução oportuna para o problema colonial. Não o fez Salazar. Nem sequer esta última e já candente questão - o problema colonial - conseguiu vencer o autismo salazarista, abri-lo a uma representação real do futuro, levá-lo a perceber e a assumir a exigência, se não mesmo inevitabilidade, de mudar de políticas. E terá acontecido assim, apesar de Salazar não poder deixar de estar ciente das mudanças operadas no mundo do pós-guerra, de perceber a emergência de uma nova correlação de forças e de novos propósitos geopolíticos que, de todo, vulnerabilizavam a solução imperial portuguesa. O seu 'despotismo' - que Salazar tomava por esclarecido - acabou por 'tornar-se o seu próprio fim e, dessa maneira, o seu 'poder tornou-se cego e absoluto'. "

"Não é, pois, inteiramente correcto, histórica e politicamente, atribuir, aos militares que personalizaram a ruptura, a autoria exclusiva da mudança configurada em Abril, destinada a proporcionar a Portugal a descolonização, a democratização, e a assegurar as condições necessárias à continuação da modernização e do desenvolvimento da Sociedade Portuguesa. Não se pode deixar de reconhecer, também, que a revolução democrática ocorreu num momento de especial dificuldade, num infausto momento internacional".

"Insofismável é que o MFA estabeleceu como grande propósito político imediato devolver o poder político à sociedade, não esboçando, sequer, qualquer pretensão de estabelecer um qualquer regime - de duração definida - que fosse voluntarista e mobilizador, capaz de imprimir à sociedade 'uma marcha forçada' para o desenvolvimento endógeno e para a democracia".

Sobre o 25 de Novembro de 1975

"Olhando para trás, mesmo à distância de 30 anos, é impossível não ter bem presente, ainda, o intenso dramatismo que marcou os meses que se seguiram ao 25 de Abril e precederam o 25 de Novembro. A superação de ódios e paixões, a superação de contradições extremadas, a clarificação entre revolucionários e defensores do regime constitucional-pluralista não se fez sem dor nem violência, deixando em muitos portugueses marcas que até hoje perduram.

Em Outubro/Novembro de 1975, a clarificação estava feita. Delimitados se encontravam, já, os campos das opções políticas em confronto. Relativamente claros eram, também, os propósitos estratégicos de cada um deles. Reconhecidas estavam as tácticas que utilizavam e previsíveis eram as que iriam utilizar".

"A guerra civil esteve por um fio. Circunstâncias diversas a terão evitado. Importante é considerar, neste ponto, a inteira disponibilidade operacional das três Regiões Militares (Norte, Centro e Sul) e das principais unidades da Região Militar de Lisboa (é justo mencionar, entre estas, a dos Comandos, a EPI, a EPC e o CIAAC - Centro de Instrução de Artilharia Anti-aérea de Cascais). Importante é, também, sublinhar o patriotismo e a capacidade de comando de Jaime Neves, que soube travar, em circunstâncias dificílimas, o ímpeto combativo dos seus homens, de modo a minimizar as perdas humanas nos confrontos na Calçada da Ajuda".