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Direita dramatiza programa económico do PS: "Entraremos em incumprimento e é o regresso da troika"

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Passos Coelho comenta esta quarta-feira as medidas macroeconómicas de António Costa ontem reveladas, que a maioria já tratou de desacreditar. O PSD diz que é "a mesma folha de cálculo de Sócrates em 2009". O CDS fez as contas - estão em causa 3000 milhões de euros. Há uma medida que o partido de Portas lamenta ter deixado para Costa: a baixa do IVA da restauração 

Ângela Silva e Filipe bSantos Costa

Pedro Passos Coelho só deve comentar o pacote económico de António Costa numa das saídas que tem em agenda para esta quarta-feira, mas o tom da reação do Governo foi antecipado pelos partidos da maioria e tem uma lógica: desacreditar a fiabilidade das promessas socialistas à luz dos compromissos europeus do país e dramatizar o efeito que a sua aplicação teria na vida dos portugueses. O CDS não fez a coisa por menos: "Seria o regresso da troika".

Fazer contas e tirar a limpo quanto custam as boas notícias socialistas - que vão de repor salários e sobretaxa do IRS em dois anos até baixar o IVA da restauração, passando por reduzir a TSU para os trabalhadores - é um processo em curso no Governo. Mas, numa primeira análise às propostas do PS, o CDS chegou a dois números. Custo total das medidas só em 2016: 3000 milhões de euros. Impacto no défice orçamental: 1,8% do PIB. "Se estas medidas avançassem isto significa que dentro de pouco tempo teríamos novamente a troika em Portugal", disse aos jornalistas a dirigente do CDS, Cecília Meireles.

O PSD não fez a coisa por menos. Embora sem números, José Matos Correia, vice-presidente de Passos Coelho na direção do partido, puxou Sócrates para a conversa e desfiou o cardápio de frases que a direita irá usar, seguramente, na campanha: "Parece a mesma folha de cálculo de Sócrates em 2009", "a atitude é idêntica, gastar o que não temos e no futuro os portugueses pagarão a conta", "apostam uma vez mais na irresponsabilidade", "este é o mesmo PS", "iludem as pessoas", "não se trata de defeito, é feitio".

Apesar de reconhecer a vantagem socialista nestas propostas concretas, a maioria acredita que as mesmas, por irem tão longe, caem por falta de credibilidade. Nesse sentido, a conferência de imprensa de António Costa não aumentou as angústias da coligação. Já toda a gente sabia que a campanha será dura, já todos esperavam um confronto entre duas visões políticas e económicas alternativas e muito distintas, mas o cenário apresentado por Costa ao início da tarde desta terça-feira até agradou à direita. "O PS exagerou na dose. Agora cabe-nos mostrar que aquilo não é credível e tem custos", afirmam.

Há quem compare as próximas eleições com as de 2009. Em ambos os casos, o confronto era entre uma visão mais otimista, do PS, com promessas de medidas cujo impacto nas contas públicas era desvalorizado, mas cujo efeito na economia era exaltado; e uma perspetiva mais cautelosa, do PSD, com um discurso dito "de verdade", a acusar de eleitoralismo as propostas socialistas. O desfecho de 2009 é conhecido: ganhou o PS de José Sócrates e perdeu o PSD de Manuela Ferreira Leite. A diferença, dizem os centristas, é que "o PS não mudou, mas o país mudou e já não acredita em quem promete tudo".

Há, no entanto, duas questões em que o CDS admite que o PS marcou pontos: a descida do IVA da restauração, que os centristas já defendem há algum tempo, e o ritmo mais rápido de reposição dos salários da função pública e redução da sobretaxa do IRS - uma questão que, conforme o Expresso noticiou, foi discutida no último Conselho de Ministros.

As contas do CDS 

Em conferência de imprensa ao início da tarde, a vice-presidente do CDS detalhou as contas feitas pelo seu partido. Reposição dos salários da função pública, €300 milhões; descida do IVA da restauração, €300 milhões; despesa acrescida com prestações sociais, €178 milhões (€130 milhões no Rendimento Social de Inserção, €8 milhões no complemento solidário para idosos, €40 milhões para o abono de família); complemento para os salários mais baixos, €350 milhões; redução da sobretaxa de IRS, €380 milhões; cortes na TSU, tanto do lado dos patrões como dos trabalhadores, e nestes incluindo os que descontam para a Caixa Geral de Aposentações, €915 milhões. No total, são menos 2420 milhões de euros nas contas do Estado.

A este valor, o CDS acrescentou os €600 milhões que, segundo a maioria, qualquer próximo Governo terá de cortar nas pensões, por uma questão de sustentabilidade do sistema. E assim se chega ao número final de 3020 milhões de euros que, segundo os centristas, ficam em causa nas contas do PS. O que equivaleria a 1,8% do PIB.