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Costa explica-se: "Humanismo não é esquerdismo"

Assis para Costa: "Sou mesmo a favor de um entendimento com o PSD. Era bom para o país"

Tiago Miranda

Costa recusa a esquerdização do PS. Assis não vê como escapar a um acordo com o PSD.

Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo

Quando lhe perguntam sobre a "esquerdização" do PS, António Costa ri-se (quase à gargalhada). "É isso, pode citar-me. Eu rio-me desse debate", confessa ao Expresso o líder socialista. Costa diz até que "é preciso ser muito radical para achar que um discurso humanista é um discurso esquerdista".

Um esclarecimento que surge depois do ataque cerrado  da direita (e não só) à guinada socialista à esquerda. Costa parece acusar o toque e modera o discurso. Agora o "esquerdista" dá lugar ao "humanista". 

Ainda antes da "retificação" de Costa, Francisco Assis, o único socialista que assumiu discordar profundamente do caminho por onde viu o seu partido seguir no congresso do último fim de semana - tanto que abandonou os trabalhos a meio e recusou-se a ficar nos órgãos dirigentes -, explicou ao Expresso as razões da divergência. No mesmo dia, no seu artigo semanal no "Público", escrevia sobre "os Savonarolas da extrema-esquerda", numa referência ao frade dominicano, precursor da Reforma do século XVI, que conquistou o povo de Florença com inflamadas proclamações moralistas nomeadamente contra os Médici. A quem se refere? "Há vários", afirma, sem nomear.

Não esquece (sem compreender o porquê) que não conseguiu falar no congresso antes da hora do jantar, como tinha pedido. Ao Expresso, António Costa garante que foi tudo "um puro equívoco; ninguém sabia que ele queria falar". E pergunta: "Quem tinha interesse que ele não falasse?" Mas Assis atribui significado político ao incidente: "Hoje no PS estigmatiza-se como 'traição e cedência' o discurso que tenho vindo a fazer". Afirma sem rodeios: "Eu sou mesmo a favor de um entendimento com o PSD. Acho que era bom para o país. E isso vai contra a corrente". Justifica: "Hoje há a ideia que o Bloco Central é um fator de perturbação do sistema democrático e é um Bloco Central de interesses e negócios. Não tem de ser nada disso. Introduzir essa questão moral é um absurdo". Não tem dúvidas de que nos próximos 10 anos vamos continuar a viver numa situação de emergência nacional e que será necessário "um Governo com um perfil reformador, que  enfrente corporações, modernize a administração pública, descentralize o Estado, reforce a nossa capacidade negocial na Europa. E isso só é possível com o PSD".

Claro que o problema não se põe se o PS obtiver maioria absoluta nas próximas legislativas. Daí que sublinhe que, antes da política de coligações, a questão é de programa político: "Seria absolutamente trágico que partíssemos para esta eleições com um conjunto de promessas políticas insuscetíveis de concretização e que nos acontecesse o mesmo que tem acontecido a vários partidos de esquerda na Europa e, nomeadamente, ao PSF: em determinado momento, com a sua vontade ganhar eleições, François Hollande foi levado a produzir um discurso que não foi suscetível de ser concretizado na ação governativa e provocou uma imensa desilusão".

O que ouviu no congresso deixou-o preocupado: "Temo que o PS seja colonizado por um discurso que se afasta do consenso que se está a procurar construir na Europa. Não digo que seja o discurso oficial, mas é um discurso com expressão em sectores importantes do país: o de que temos de reestruturar a dívida, combater o Tratado Orçamental, acabar com a austeridade em absoluto. Isso não é possível. Temo que esse discurso, mesmo tendo sucesso do ponto de vista eleitoral, acabe por criar uma grande desilusão".

Assis: "Costa deixou-se entusiasmar"

De António Costa diz o melhor: "É um homem de excecionais qualidades políticas, grande capacidade de liderança e com uma inteligência prática notável". E é por isso que tem a certeza de que "as coisas não vão ser como alguns pensam". Está a dizer que ele fez bluff quando fechou completamente a porta a entendimentos com a direita? Hesita um segundo antes de responder: "Fiquei surpreendido. Deixou-se entusiasmar pelo ambiente do congresso". Acha que ele vai ter de engolir as palavras? "Não o desejo, mas não excluo. Foi a parte menos inteligente do discurso dele, a mais radical, sem qualquer sentido. Percebo que ele se empenhe em criar condições para a  maioria absoluta, mas se não a tiver como vamos fazer?"

Até porque, adianta, "este PSD, no dia em que perder as eleições, vai mudar. E há outro PSD. Não estou a advogar a eleição de Rui Rio, até porque há coisas que aprecio nele e outras não, mas Rio tem tido o discurso de que grande parte das reformas só se pode fazer com um entendimento político, não de clientelas, mas ao mais alto nível, entre os dois partidos. E António Costa era a pessoa mais indicada para liderar esse Governo. É uma pessoas de quem a direita gosta". Mas ele também refere a necessidade desses entendimentos alargados, lembra-lhe o Expresso: "Este congresso enfatizou demasiado um sinal contrário", constata. Ilustra o que diz: "Foi longe demais quando disse que há uma rutura civilizacional entre nós e a direita. Não há".