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Confiar ou não confiar na CNE, eis a questão

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A opinião de Martim Silva, editor executivo do Expresso, a propósito da reviravolta nos resultados das eleições na Madeira.

A nossa sociedade funciona com base no princípio da confiança. Mas a verdade é que não é incomum desconfiarmos quando algo aparentemente estranho se passa.

É inevitável que isso suceda depois dos acontecimentos das últimas horas na Madeira.

No arquipélago há um partido dominante e hegemónico há quatro décadas. Ganha todas as eleições. Desta vez voltou a ganhar, mas com uma maioria absoluta conseguida à tangente. Quem perdeu, e de forma inteiramente legítima, decide protestar. Numa tentativa, inteiramente legítima repita-se, de obter um mandato extra que lhes escapara por entre os dedos de uma mão: cinco votos apenas, considerados nulos.

Quem fiscaliza dá razão a quem protesta. Afinal, o partido que manda e sempre mandou na região vai ter que governar sem maioria absoluta.

O volte-face é histórico. O pequeno "derrota" o grande. Verga-o. Ganha importância e relevo. Desmonta o sistema mesmo a jogar fora de casa.

Só que, nova reviravolta. Quem fiscaliza admite que fiscalizou mal e que além do erro que dava razão ao pequeno, eis que surge um novo. Que afinal dá razão ao grande.

Posto isto,

O PSD mantém a maioria absoluta. A Madeira continua a ser um "jardim" laranja. Algo mudou para tudo ficar afinal na mesma.  Obviamente, o pequeno - falamos da CDU - protesta com mais energia ainda.

Aqui chegados, não deve faltar quem torça o nariz desconfiado... "hummmmmmm"... aqui há gato!

Este é o meu ponto e aqui é que queria chegar.

A Comissão Nacional de Eleições já assumiu o erro (o segundo, o do esquecimento da contagem dos votos de Porto Santo na assembleia geral de apuramento). "Temos que nos penitenciar porque isto aconteceu utilizando uma aplicação que a CNE anda a desenvolver há nove anos e que era para facilitar os trabalhos, mas de facto é um erro crasso e indesculpável", afirmou o porta-voz da CNE.

O processo ainda não terminou e diz a mais elementar prudência que não o devemos dar por fechado.

Mas pode desde já afirmar-se e perguntar-se o seguinte:

Os erros são graves. Erros sucessivos são ainda mais graves. Convém que tudo seja esclarecido até ao mais ínfimo pormenor, até à despistagem de cada voto, de cada traço fora do boletim. Para que não sobre dúvida. E que sejam apuradas as responsabilidades e tiradas consequências,

Mas, ainda assim,

Será que a CNE nos deu razões para desconfiarmos da sua atuação? Os processos eleitorais em Portugal não são livres, democráticos, transparentes e escrutináveis? No fundo, confiamos ou não no sistema?

Acredito que temos razões para confiar. Ainda temos razões para confiar. Mesmo quando eles erram. Sobretudo porque eles erram.