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Cartas da prisão

FOTO ANTÓNIO BERNARDO

Sócrates e Soares trocaram cartas este mês. O primeiro parabenizou o segundo pelo 90º aniversário, a 7 de dezembro. Na véspera de Natal, Soares respondeu com palavras de encorajamento para o companheiro detido.

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

A burocracia prisional e os atrasos dos correios não terão permitido que as cartas chegassem no dia certo ao respetivo destinatário. O conteúdo foi divulgado esta segunda-feira pelo "Jornal de Notícias".

Depois do abraço no Estabelecimento Prisional de Évora, José Sócrates enviou ao "querido amigo" Mário Soares uma carta a dar-lhe os parabéns pelos seus 90 anos. "Ao longo da sua vida, o Mário Soares teve a felicidade rara de 'ser eu próprio', no que isso significa de liberdade, de autonomia individual, de escolhas sempre de acordo com a sua consciência vida cheia, plena, realizada", escreve o ex-primeiro-ministro.

Os elogios e os sentimentos de amizade dominam a carta, mas Sócrates não deixa de lembrar a noite em que "abracadabrante em Paris soube da violência e terror que causaram aos meus filhos, à minha família, aos meus amigos" e pensou "em todo o mal" que lhe "podiam fazer, todas as infâmias, humilhações". Diz que "de coração limpo" avançou "para lhes fazer frente" e irrita-se com "o desplante de falarem em 'perigo de fuga'", questionando: "Perigo de fuga?! Mas que gente é esta, Mário Soares?".

Pondo "de lado o azedume", lembra a "comoção" que sentiu no momento em que vislumbrou Mário Soares "ao longe na sala de visitas (...), sozinho, à minha espera para me abraçar, pequeno ponto que concentra toda a grandeza de que o ser humano é capaz".

Começando por justificar a tardia resposta, 16 dias depois, porque a carta lhe "chegou tardiamente", o antigo Presidente da República responde a Sócrates em vésperas de Natal: "Cada vez o admiro mais", sublinha. E não perde tempo em criticar aqueles que, "sem qualquer julgamento prévio, o querem destruir política e eticamente", por "sem qualquer julgamento prévio" terem prendido "alguém que veio voluntariamente para o seu país, sabendo que ia ser preso".

Apesar de não se alongar muito na carta, Soares ataca o magistrado Carlos Alexandre, "o juiz que o tem obrigado a ser tratado vergonhosamente - é o que toda a gente pensa". Mas, ao mesmo tempo, aplaude o ex-primeiro-ministro preso preventivamente há mais de um mês: "Sei que é uma pessoa extremamente corajosa e que nunca se afligiu com a pouca vergonha que lhe têm feito".

O Expresso reproduz aqui as cartas divulgadas esta segunda-feira pelo "Jornal de Notícias".

 

A CARTA DE SÓCRATES

Évora, 7 de Dezembro de 2014



Mário Soares, querido Amigo,



Noventa anos! Parabéns, camarada. Acabei de o ver na televisão, no seu almoço de aniversário entre tantos amigos que cultivou ao longo da vida. E que vida! "Poder ser eu próprio", foi assim que Kierkegaard - esse filósofo atormentado com a dúvida que trouxe para o interior da fé religiosa - respondeu à velha pergunta da filosofia moral: "O que é uma vida boa?".



Ao longo da sua vida, o Mário Soares teve a felicidade rara de "ser eu próprio", no que isso significa de liberdade, de autonomia individual, de escolhas sempre de acordo com a sua consciência Vida cheia, plena, realizada. Uma vicia boa. Parabéns, Mário Soares.



Lá vi os seus amigos de sempre. Os amigos de todos os quadrantes políticos que celebravam uma vida pública. Uma vida, sim - mas duas lutas. A luta contra o fascismo do Estado Novo, e a outra contra o que bem se percebia ser uma ditadura de sinal contrário. A maioria estava lá para celebrar as duas, embora alguns só para festejar a segunda. Bom, mas estiveram Ainda bem.

No entanto, se bem ajuízo, ali celebrava-se sobretudo o carisma de um personagem essa aura enigmática e mágica, esse "não sei quê" excepcional que distingue os grandes homens políticos. A sua vida é certamente marcada pela coragem do combate e da ruptura, mas é também, e hoje principalmente, pela coragem do compromisso.



Para usar a bela fórmula de René Char (tenho pensado tanto nele nestes dias...) o seu maior feito foi "transformar velhos inimigos em leais adversários". Como em todos os momentos decisivos de ruptura revolucionária - como foi o 25 de Abril - o compromisso da vida em comunidade e aceitação da pluralidade

humana que é a essência da democracia, impunha a emergência de alguém que, tendo passado pelo pior da ditadura - a prisão, o exílio, a perseguição -, fosse capaz de se elevar acima do crime, do traumatismo do ressentimento. E dai, recusando a violência e a vingança, permitir um novo recomeço. Um novo começo com a grandeza de a todos incluir - os que serviram os que apoiaram e os que estavam "integrados no regime". Novo começo que, verdadeiramente, só terminou (ou começou) na noite inesquecível da sua primeira eleição como Presidente da República: "Esta é a vitória da tolerância!".



Uma palavra ainda sobre o carisma ou, mais propriamente, sobre o seu carisma: O inimigo jurado do carisma é o tempo - "Ah, o tempo, o cancro enorme". É que o carisma não vive sem mistério, ou mito, ou enigma. Os homens da política sabem bem como mudam as expectativas e as aspirações da "comunidade carismática", ou a rotina do tempo apaga ou faz desaparecer a magia do que se supunha "extraordinário". Mas não é o seu caso, Mário Soares. No seu caso, o carisma envelheceu bem, com "patine". Do inicial "carisma de combate" evoluiu para "carisma de fundação" democrática.



A razão pela qual isso pôde acontecer é que esse carisma não foi construído artificialmente, nem resultou de nenhuma fiabilidade de "story telling". Não há nada mais trivial (e talvez mais desprezível) no mundo de hoje, que essas técnicas de desenvolvimento pessoal oferecidas em kit esses "récit de soi même" preparados e elaborados por especialistas. Acontece que tudo isso dura pouco porque a encenação é demasiado visível e para lá dela nada existe. O carisma, o seu carisma, resultou da sua capacidade e do seu instinto de, num determinado momento (e, sim, há sempre um momento),



Confrontado com o risco, com a contingência com a incerteza histórica, nesse momento ter decidido agir, liderar, para contrariar o que já parecia decidido. Sim, Mário Soares, não há carisma sem coragem.



Devia, talvez, e como me pediu falar-lhe agora de mim e do que aconteceu. Mas temos tempo para isso. Quero apenas falar-lhe do aspeto mais odioso e que, provavelmente, mais me magoou.



Naquela noite abracadabrante em Paris, quando soube da violência e terror que causaram aos meus filhos, à minha família, aos meus amigos (foi ai que René Char me veio ao espírito), pensei em todo o mal que me podiam fazer, todas as infâmias, humilhações, que pudessem estar - como estavam - preparadas contra mim. Depois, de coração limpo, avancei para lhes fazer frente. Para lhes fazer frente!



Ainda têm o desplante de falar em "perigo de fuga". "Perigo de fuga'?! Mas que gente é esta, Mário Soares?



Mas deixemos de lado o azedume, afinal você faz anos.



Regressemos aos amigos. Recebo aqui imensas cartas de pessoas que, com palavras de apoio e solidariedade tão gentis, me perguntam onde estão agora os meus amigos. Gomo estão equivocadas! Nunca, nem nos momentos mais difíceis (e já foram muitos, regressaremos a este tema), me faltaram os amigos e os camaradas.



Pelo contrário, agora são tantos que não sei como hei de escrever e agradecer a todos.



Mas, sobretudo, tenho agora comigo os que sempre quis ter. Esses, estão onde sempre estiveram.



No momento em que o vislumbrei ao longe na sala de visitas e o vi, a si Mário Soares, sozinho, à minha espera para me abraçar, pequeno ponto que concentra toda a grandeza de que o ser humano é capaz, comovi-me interiormente com o meu próprio pensamento: A amizade é o mais belo e o mais politico dos sentimentos humanos. Abraça-o fortemente O seu, muito seu amigo,



José Sócrates

 

A CARTA DE SOARES

Lisboa, 23 de dezembro de 2014

Quero agradecer-lhe, em primeiro lugar, a carta tão amiga que me enviou por altura dos meus noventa anos. Chegou-me tardiamente e só por isso agora lhe respondo.



Sabe como o admiro pela sua honradez, valentia e amizade dos seus amigos. Que são imensos, felizmente e, como têm demonstrado, com as visitas que lhe têm feito, apesar dos jornalistas ao serviço dos que, infelizmente, sem qualquer julgamento prévio, o querem destruir politica e eticamente. Prender-se, sem qualquer julgamento prévio, alguém que veio voluntariamente para o seu pais, sabendo que ia ser preso, significa um gesto que, se houvesse justiça, não podia ter qualquer razão de ser. A intervenção da Procuradora-Geral da República se tivesse qualquer sentido democrático, também o que se passou consigo nunca podia acontecer. Mas aconteceu. Querido Amigo, está há um mês preso, sem ter sido julgado nem haver qualquer razão jurídica para o ser. Sei que ó uma pessoa extremamente corajosa e que nunca se afligiu com a pouca vergonha que lhe têm feito. Sem excluir o juiz que o tem obrigado a ser tratado vergonhosamente. É o que toda a gente pensa. Tem plena consciência que não tem nada que o possa atingir gravemente. Por isso está tão firme e confiante quanto ao futuro.

Os meus parabéns nesta época natalícia. Cada vez o admiro mais.

A sua coragem e firmeza ética levam-me - e aos nossos imensos camaradas - a considerá-lo como uma grande figura do socialismo democrático, que sempre foi e é. Por isso também o estimam tanto.



Viva a República a Democracia e o Socialismo

Democrático!

Viva Portugal!



Aceite um abraço do seu velho amigo e admirador, que tanto o estima



Mário Soares