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António Costa. "Conto votos, não sondagens"

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António Costa: "É preciso ganhar a confiança das pessoas"

Estela Silva/Lusa

O secretário geral do PS vai bater-se por uma maioria absoluta e não receia as sondagens.

Se for dado a premonições e presságios, o secretário geral do PS, António Costa, poderá encarar a sua presença, segunda-feira à noite, no Clube dos Pensadores, em  Gaia como um sinal favorável à sua eleição como primeiro ministro. Ele há coincidências. Há precisamente quatro anos, a poucos meses das eleições,  Pedro Passos Coelho fora o convidado especial  para assinalar o 5.º aniversário do clube. Ontem, Costa foi o 90.º orador da série. Adotou uma narrativa cautelosa, em que as palavras confiança e credibilidade foram as mais repetidas. Credibilidade no programa do governo para ganhar confiança dos portugueses.

E sabe qual a diferença entre um autarca e um político? Costa, que veste os dois fatos, decifra o enigma. "O autarca é testado diariamente na sua credibilidade e por isso em geral é reeleito, ao contrário do político".

Diálogo e compromissos

Depois de um domingo aziago (derrota da esquerda em França e do PS na Madeira) Costa insiste que a sua meta é a maioria absoluta. "A meta é clara. O PS vai bater-se pela maioria absoluta", afirmou.  E se pede a maioria absoluta "é por uma boa razão".

O país precisa de estabilidade e o pior que podia acontecer era ficar refém  "de diálogos e compromissos no Parlamento".  Costa elogia o diálogo, refere que as propostas na Câmara de Lisboa são em geral consensuais e que a democracia "é por excelência a política do consenso".

Mas, há diálogos "em que uns querem resolver os problemas e outros apostam em criar problemas".

E a quem o provoca, citando que nas sondagens o PS surge a pequena diferença do PSD,  responde curto e grosso. "Habituei-me a contar votos, não sondagens".

Divergir sem insultar

Entre a bateria de 10 perguntas que enfrentou, uma delas voltaria a recuperar as suas afirmações perante a plateia de empresários chineses. "Todos sabem que faço oposição ao governo, mas isso não me leva a dizer mal do país", respondeu.

E aproveitou o tema para defender que os agentes políticos podem "defender ideias divergentes sem fazer ataques pessoais". E classificou de "muito negativo" para a democracia o tom dos duelos quinzenais na Assembleia da República que não ajudam a credibilizar a imagem dos políticos.

Fatores de diferenciação

Na sua intervenção inicial, "para início de conversa", António Costa procedeu a um balanço dos 30 anos de adesão à União Europeia, salientando o sucesso dos primeiros 15 anos, e o descalabro do último ciclo, a partir de 2000.

Em vez de um "choque de empobrecimento" que fez o pais recuar 15 anos em riqueza, investimento emprego, o secretário-geral do PS defende medidas estruturais que tornem o país competitivo através de "fatores de diferenciação" em que o conhecimento, educação e inovação se aliem para "obter produtos de mais valor acrescentado". Com a economia a crescer, a austeridade cede lugar a mais emprego e mais salário. 

Aversão às reformas

Foi essa visão que levou o PS a defender uma Agenda para a Década e uma reforma profunda do Estado. Costa reconhece, todavia, que de tão escaldado que está o eleitorado "ficou com aversão às reformas". "É preciso ganhar a confiança das pessoas e vencer essa aversão", diz Costa.

Mas, o crescimento tem uma dimensão europeia. O programa nacional terá de ser articulado com uma agenda europeia, em que o pilar orçamental será decisivo para corrigir assimetrias entre países ricos e pobres.

"Não é por acaso que entre as dez regiões com maiores níveis de desemprego, sete são espanholas e três são gregas. Por este caminho, Portugal também ficará representado", advertiu.

António Costa defende a mutualização dos subsídios de desemprego e defendeu que cabe à Europa encontrar medidas que fomente o crescimento dos países mais débeis em vez da migração no espaço europeu. "Se a Alemanha precisa de 500 mil trabalhadores, esses postos de trabalho não devem sem ocupados por emigrantes mas transferidos para os países de economias mais débeis que fornecem essa mão-de-obra".

CCDR's com legitimidade democrática

Costa defende um  sistema eleitoral que combine (como na Alemanha, por exemplo)  a regra da proporcionalidade com círculos uninominais e na frente da regionalização tem uma solução rápida para  evitar "o bruxedo" que Marcelo Rebelo de Sousa deixou na Constituição.  A prioridade é conceder "legitimidade democrática" às cinco comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR).

Em vez de serem nomeados pelo governo, os presidentes destes órgãos "essenciais à racionalização da administração do Estado" seriam eleitos pelos autarcas da região.