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Política

Carlos César avisa a esquerda: sem “responsabilidade” voltam ao “isolamento”

Carlos César no congresso do PS, a 26 de abril de 2018, na Batalha

TIAGO MIRANDA

O líder parlamentar do PS elogiou a esquerda, jurou comprometimento com a atual solução, mas avisou: se bloquistas e comunistas não forem responsáveis, voltam ao “regime de isolamento” a que estavam votados

Um abraço de urso à esquerda. No arranque do segundo dia de jornadas parlamentares do PS, em Beja, Carlos César puxou bloquistas e comunistas para o centro da solução parlamentar, responsabilizando-os pelos resultados governativos alcançados, mas deixou um aviso à navegação: se quiserem voltar ao “regime de isolamento” a que estavam votados, é convosco, ensaiou o líder parlamentar socialista.

Numa altura em que o desgaste da “geringonça” vai sendo cada vez mais evidente, Carlos César dividiu a sua intervenção em três momentos: falou aos deputados socialistas, lembrando que o “sucesso” da atual governação foi conseguido graças à “contribuição e sensibilidade” de Bloco de Esquerda, PCP e PEV; falou à esquerda, dizendo que também eles devem ter “orgulho” nos resultados conseguidos; e reservou para o fim o ultimato a bloquistas e comunistas.

Um discurso que contrasta com as últimas intervenções e decisões de António Costa. No último congresso socialista, o líder do PS esqueceu o papel dos parceiros parlamentares e, em cima disso, assinou um acordo de concertação social à revelia do Bloco de Esquerda (e do próprio grupo parlamentar do partido). Sinais, a que somam outros, como na Educação ou na Saúde, que foram sendo notados e interpretados por vários deputados socialistas como uma guinada ao centro do Governo.

Ora, esta terça-feira, Carlos César tentou desconstruir essa tese, pegando, precisamente, nas alterações da lei laboral. “O combate à precariedade foi um ponto de referência da ação do PS, em conjunto com os seus parceiros parlamentares. Estas medidas foram construídas e aprovadas com o apoio da maioria parlamentar. Constituem um património da esquerda política e devem ter continuidade”, começou o líder parlamentar socialista, antes de sublinhar, mais uma vez, que o grupo parlamentar do PS vai propor alterações ao acordo com toda “a liberdade e a responsabilidade” que tem. Estava cumprida a defesa da honra da bancada e entregue o devido elogio à esquerda.

Mas Carlos César queria ir mais longe e fê-lo já perto do final da sua intervenção. Falando do Orçamento do Estado para 2019, o líder parlamentar do PS disse esperar que o processo de negociação fosse concluído o “mais depressa possível”, com a “convergência” e o “indispensável sentido de responsabilidade”. “Outra coisa não se espera dos partidos que certamente que se orgulham dos resultados destes três anos de atividade governativa”, reforçou César. Estava dado o primeiro aviso: Bloco, PCP e PEV têm de renovar o empenho, sem reservas, nesta solução.

O segundo recado foi ainda mais claro: “Nem o PS se desviou do seu percurso, nem os partidos que apoiaram o Governo querem voltar a um regime de isolamento e de falta de influência”, afirmou o socialista. A estratégia é simples: responsabilizar Bloco, PCP e PEV pelo eventual falhanço da atual solução parlamentar e pressionar os partidos à esquerda a moderarem as suas reivindicações, nomeadamente nas negociações do Orçamento. Ou isso, ou voltam à condição de partidos de protesto, sugeriu Carlos César.

Outra nota do discurso do líder parlamentar socialista: poucos dias depois de ter acusado o Bloco de Esquerda de estar empenhado na “caça ao voto” (a propósito da votação que ditou o fim do adicional ao Imposto sobre Combustíveis), Carlos César ensaiou uma versão mais contida. “Não estamos muitas vezes de acordo com eles [parceiros parlamentares]. Às vezes somos exuberantes nessa demonstração. É bom que assim seja. É bom que marquem as suas diferenças. Ajuda-nos todos a crescer, a maturar decisões, e a esclarecer com transparência os eleitores.” A caça ao voto abriu, de facto. Depois de três anos juntos e a quase um ano das legislativas, socialistas, bloquistas e comunistas vão agora marcar as suas diferenças e fixar eleitorado.