Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

“Ó Tiago, ó Costa”, a luta veio para ficar

EPA/ José Sena Goulão

Os sindicatos afetos à CGTP reuniram-se nas ruas de Lisboa para carregar o tom no mesmo dia em que Jerónimo de Sousa assumiu que o ambiente das negociações para o próximo Orçamento está “toldado”. Houve gritos contra o ministro da Educação e ficou combinada nova concentração, frente ao Parlamento e contra os “negócios” de Costa com os patrões. “Lá estaremos”, prometeram

À porta da pastelaria Coringa, por onde passa quem desce a Avenida Fontes Pereira de Melo quase a chegar ao Marquês de Pombal, o rebuliço é pouco habitual. Saem pastéis de massa tenra, croquetes e, sobretudo, cervejas - imperiais ou finos, porque o evento que traz tanta gente ali é nacional - a uma velocidade notável. Já passa das 17h40, a concentração da CGTP terminou e os manifestantes aproveitam para lanchar antes do regresso a casa.

Apesar da pressa, se estiverem atentos, verão, naquela altura, um Jerónimo de Sousa quase à paisana, a passar discretamente e em passo rápido à porta do estabelecimento. É parado por um "camarada" que se queixa de não se conseguir reformar com as condições que a atual lei prevê. Jerónimo, afável, não o deixa sem resposta. E explica-se: "Com a nossa proposta já estava reformado, o PS é que não se chega à frente..."

Pode ser sintomático: durante as duas horas e quarenta minutos que durou, esta tarde, a concentração da central sindical, não houve cartazes dirigidos a Costa ou gritos contra o Governo. Mas ouviram-se recados e críticas mais ou menos veladas. Afinal, há motivos para a tensão: a CGTP não assinou, mais uma vez, o recente acordo a que chegaram Governo, patrões e a UGT - ou, como diria Jerónimo, "os parceiros do costume" - na concertação social, criticando medidas como o alargamento do período experimental nos contratos sem termo. No último quinzenal, o secretário-geral comunista acusava mesmo o primeiro-ministro de estar com este acordo a "legalizar a precariedade".

Outro dos temas quentes que têm agitado as relações à esquerda nas últimas semanas é a recontagem do tempo de carreira dos professores: Costa diz que "não há dinheiro" para ter em conta, para efeitos de progressão nas carreiras, os anos de serviço que ficaram congelados; os sindicatos exigem a contagem integral do tempo. O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, deu sinais de que a corda estaria prestes a partir na semana passada, ameaçando os professores com a retirada da proposta que está em cima da mesa (a contagem de dois dos nove anos em causa). E Jerónimo veio dizer, em declarações ao Expresso deste sábado, que "o ambiente está toldado" para as negociações à esquerda do próximo Orçamento do Estado.

EPA/ José Sena Goulão

Mas voltemos às ruas lisboetas (do Campo Pequeno, passando pela Avenida da República, até ao Marquês de Pombal e ao café Coringa) e aos cartazes e cânticos dos manifestantes. Dir-se-ia que não há especiais motivos de tensão: durante a maior parte do tempo, as mensagens são as expectáveis (com as reivindicações das 35 horas semanais para todos os trabalhadores, o aumento do salário mínimo para 650 euros ou a redução da idade da reforma). Até que passa o primeiro grupo de professores. O primeiro-ministro descreveu-os, no último debate quinzenal, como "intransigentes", e eles aparecem na concentração com recados e alvos concretos. Primeiro: "Tiago, escuta, os professores estão em luta." Depois, com vozes mais fortes: "Ó Costa, escuta, os professores estão em luta." Finalmente, o remate: "Marcelo, escuta, os professores estão em luta!"

A FENPROF de Mário Nogueira segue na linha da frente e relembra exatamente a reivindicação de que os professores não abdicam: "Nove anos. Quatro meses. Dois dias!" É este o tempo que querem ver reposto e a contar nas suas carreiras. "O tempo é para contar, não é para apagar", repetem. São um dos grupos que mais se fazem ouvir.

Não é a única exigência. Há críticas ao acordo alcançado na concertação social: "Esta legislação laboral só interessa ao capital" ou "o acordo laboral é bom para o capital" são exemplos disso mesmo. De vez em quando, por entre grupos de trabalhadores da Autoeuropa, de enfermeiros ou de trabalhadores das cantinas, detetam-se mais recados: "É preciso eleger uma política diferente!"

EPA/José Sena Goulão

"Isto é pior ficar parada em pé do que ir andando", comenta uma senhora, começando a marcha para descer até ao Marquês. O desfile está visto, as bandeiras estavam todas lá, as carrinhas que trazem os 'speakers' avançam em marcha lenta. Dentro de uma delas, duas crianças gritam palavras de ordem enquanto um adulto de microfone na mão avisa: "Ponham os olhos e os ouvidos na nova geração!"

Boa parte da nova geração está, à chegada ao Marquês, de olhos no telemóvel ou sentada na beira do passeio, a descansar, quando Arménio Carlos, líder da CGTP, já discursa. E, aí sim, não são poucos nem vagos os recados ao Governo de Costa. Por entre bandeiras de Che Guevara, é possível vê-lo no palco. "É necessário que o Governo e o próximo Orçamento valorizem os trabalhadores", avisa. "É inadmissível que o Governo diga que não há dinheiro [foi a resposta de Costa no Parlamento, questionado sobre os professores] quando ele nunca faltou para acudir à banca privada", acusa. "O que falta é vontade política do Governo. Falta cumprir os compromissos assumidos e inscritos no OE" - de novo, uma farpa sobre a situação dos professores, cuja recontagem de tempo de serviço está inscrita no OE.

EPA/ José Sena Goulão

O discurso de Arménio vai em crescendo: depois de avisar que o Governo não pode ficar "amarrado" a Bruxelas e ao défice nem "capitular e pôr-se de joelhos", anuncia que é altura de lutar com mais força. "O país não está condenado nem ao que de fora nos impõem nem ao que cá dentro Governo e patronato acordam. Este é o momento certo para intensificar as ações de luta em todos os setores de atividade", anuncia. Até porque é já a 6 de julho que se votam as propostas sobre leis laborais no Parlamento, nova prova para a estabilidade da solução de Governo — e Arménio anuncia que nesse dia haverá uma concentração da CGTP diante da Assembleia.

A pressão está a aumentar. Num discurso cada vez mais inflamado, o líder sindical pede "aos trabalhadores não sindicalizados para se juntarem" e "repudiarem" a proposta do Governo. Vota-se — não é com papéis nem sequer braços no ar, mas com uma ovação — a "resolução" da CGTP para "intensificar o momento reivindicativo e lutar" contra "o negócio feito no Governo do PS com os patrões e a UGT". Ouve-se o hino, fica a promessa: "Camaradas, o compromisso é que dia 6 lá estaremos, em frente à Assembleia."