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Caso Siza Vieira ainda vai trazer dores de cabeça ao Governo, avisa eurodeputada Ana Gomes

Ana Gomes levanta a necessidade de o partido discutir a corrupção e apresentar propostas nos programas eleitorais. Quanto ao caso do ministro Siza Vieira, não tem dúvidas: "Há objetivamente um conflito de interesses"

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Entrevista

Redatora Principal

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Imagem e edição

Jornalista

Ana Gomes considera "inaceitável que uma pessoa que foi advogada de uma empresa continue a receber elementos dessa empresa, mesmo não tendo nada a ver com o processo da OPA", disse a eurodeputada ao Expresso numa entrevista realizada no Congresso do PS (que pode ver em vídeo). Ana Gomes assinalou que Siza Vieira também participou, antes de estar no Governo, num processo que facilitou esta e outras OPA: "Só isto é em si um conflito de interesses".

A eurodeputada não põe em causa a honorabilidade do ministro mas, afirmou, "para estar no Governo teria de estar num setor em que não tivesse nada a ver com os clientes da firma de advogados de que fazia parte, e implicaria que depois de sair não fosse imediatamente para um tipo de atividade que fizesse valer um tipo de poder como teve durante o governo".

"Isto põe dificuldades, mas as pessoas têm de saber quando vão para o Governo e, neste caso, está na lei, é claríssimo". E avisou: "este é um caso que ainda vai trazer dores de cabeça ao governo"

"Quando o primeiro-ministro convidou determinadas pessoas para o governo, com determinado tipo de envolvimento na vida privada, estava consciente dos problemas que se lhes colocavam e que se colocavam no seu próprio governo", declarou.

"Há responsáveis no Partido Socialista"

Ana Gomes referiu-se igualmente à alusão que António Costa fez no seu discurso à luta conta a corrupção de que o PS foi pioneiro ainda no final dos anos noventa, no pós cavaquismo.

"Mas ela não parou aí e em virtude da aplicação das políticas neoliberais generalizadas, houve um favorecimento da corrupção e esquemas de captura do Estado, os portugueses sabem disso e não gostam", reiterou, para afirmar que a questão "não pode ficar arrumada no passado, é de atualidade e de futuro e tem que ser equacionada como tal pelo PS".

Recusando que o Congresso discuta a chamada "questão Sócrates", Ana Gomes considerou que o partido deve refletir sobre os mecanismos que levaram um partido de poder como o PS e outros do chamado "arco da governação" a ser "instrumentalizados por corruptos e criminosos".

"Tem que ser debatido e ser objeto de propostas concretas que o PS apresente aos cidadãos nos próximos programas eleitorais", disse ainda, manifestando a esperança de que o assunto venha a ser discutido amanha e depois. "É uma reflexão que tem de se fazer para alem do congresso", afirmou.

"Há um pacote de medidas anti corrupção que se arrasta há dois anos no parlamento e não vejo que o PS lhe dê a prioridade que devia ter". Não é só perspectiva do passado, assinalou.

"Era este o pântano que se agravou e há responsáveis no Partido Socialista. Falo no plural e não pode ser metido debaixo do tapete", acusou diretamente, dizendo ainda que A justiça está a fazer o seu trabalho, os media também, falta o político. "É uma questão de confiança ", disse.

Para a eurodeputada, a política deve fazer julgamentos éticos e políticos, "desde já face ao que sabemos e têm de ser tomadas medidas para que não volte a acontecer. Há mecanismos do 'centrão' que tudo fazem para capturar os partidos de poder", disse, e o PS tem de ter mecanismos internos dentro do partido e para o governo . "É uma questão essencial até porque a justiça nos tem falhado", acrescentou.

Mensagem desassombrada

Sobre o discurso em si de António Costa, Ana Gomes apreciou de modo geral a intervenção, por ter feito um balanço da historia do partido que, segundo disse, foi uma maneira de falar de todos os secretários-gerais: "acho bem, não apagamos nunca ninguém da fotografia" .

Para a eurodeputada, António Costa salientou que o PS "sabe transformar os seus valores em ação, sumarizou os grandes avanços civilizacionais que o país deve ao PS, desde a liberdade a

todas as medidas que foram tomadas, bem como as que estão em vias de ser tomadas, como a despenalização da eutanásia", a favor da qual se assumiu pela primeira vez a favor.

Segundo Ana Gomes, também foi importante o sumario da moção que o secretário-geral apresenta ao congresso "e os desafios que o país tem de fazer frente" disse.

Entre as alterações climaticas, relacionadas com o território e o seu povoamento, a mensagem "mais desassombrada e corajosa", na qual "se revê absolutamente" foi, para Ana Gomes, "a franqueza de por os portugueses perante a nossa necessidade de colmatar o défice demográfico não apenas com famílias, mas também com imigração. Nesse sentido, a rejeição de xenofobias como hoje temos por essa Europa é muito importante, salientou. "Está no DNA do PS", sublinhou.