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“Guerras de boatos.” Conflito aberto no CDS Porto

Cecília Meireles concorre à distrital do Porto. Rival do norte dizem que é o diretório de Lisboa

Foto Marcos Borga

Assunção Cristas quer união na distrital do Porto, mas estruturas locais preferem candidatura própria a serem governadas pelo “diretório de Lisboa”. Contra acusações de parcialidade e intromissão, a vice Cecília Meireles responde: “Quem quer fazer política tem de dar a cara”

Primeiro foi a concelhia, agora é a distrital. O Porto não para de dar dores de cabeça à direção nacional do CDS e, pela segunda vez este ano, prepara-se para apresentar uma lista rival à que é vista como oficial. Assunção Cristas apela a uma candidatura única e Cecília Meireles, vice-presidente do partido, já assumiu que é candidata. Mas na estrutura local há quem se queixe de intromissões da direção, como se o partido funcionasse como um “diretório de Lisboa”.

Decorria a reunião dos conselheiros nacionais do CDS, em Évora, neste fim de semana, quando Cecília Meireles, deputada e vice-presidente do partido, se exaltou. "Eu sou pressionada por todos os lados", queixou-se, segundo relatos feitos ao Expresso. A irritação devia-se a críticas por a direção estar, alegadamente, a pressionar as estruturas do Porto para que houvesse uma lista única nas próximas eleições distritais. Com Cecília Meireles à cabeça.

Ao Expresso, a própria assume a revolta relativa à “discussão contra boatos” e a uma “tentativa de nacionalizar as questões que são locais só porque a candidata é da direção nacional, não interessando se é melhor ou pior”. A comparação fica por fazer, mas no CDS o nome que surge como seu opositor é o de Fernando Barbosa, da concelhia de Vila Nova de Gaia, e que estará ponderar apresentar uma candidatura na próxima semana, segundo informações recolhidas pelo Expresso.

Cecília Meireles critica a “lógica absurda” que impede dirigentes nacionais de se candidatarem a estruturas locais, sob pena de serem acusados de interferência, e tornando a distrital “refém de leituras nacionais”. Para a vice, o desejável é que termine esta “guerra de boatos” – e, idealmente, que haja uma “união” na candidatura ao Porto. Um desejo, aliás, partilhado pela própria presidente do partido. Ao Expresso, Assunção Cristas assume que essa “união” deve ser um “valor do partido”, aconteça antes ou depois das eleições. E, acusada de pressionar os potenciais membros de uma lista rival a não se candidatarem, explica que falou com com o grupo de concelhias nortenhas que apoiam uma candidatura de Barbosa porque lhe foi “pedido”. “Não tenho por regra interferir em nenhumas eleições, mas quando começam a solicitar e mostrar inquietude é meu dever referir a união do partido. Se não o fizesse, estaria a ser uma má líder”, garante.

José Carlos Carvalho

Segundo rombo do ano

A questão divide o partido e separa a direção das estruturas locais. O Porto é um caso que pode trazer complicações a Assunção Cristas: em março, a lista apoiada pela direção (incluindo por Cecília Meireles, com Catarina Araújo na liderança) perdeu para a candidatura de Isabel Menéres à concelhia, provocando um rombo e a perda de uma concelhia que estava nas mãos da cúpula do partido. Agora, uma hipótese alternativa, encabeçada por Fernando Barbosa e apoiada por um conjunto de concelhias nortenhas, quer repetir o feito na distrital do Porto. Isto apesar de nem Isabel Menéres nem Fernando Barbosa serem oposição a Cristas - a questão tem a ver, nos dois casos, mais com a ligação às estruturas e aos militantes, em resposta ao que se sentem como imposições da cúpula.

Parcialidade e intromissões

Na reunião do partido, foi a própria Assunção Cristas que interveio para acalmar os ânimos. A presidente do CDS falou para assegurar a sua isenção e imparcialidade mas referir que gostaria de ver uma lista única concorrer à distrital do Porto. E saudou Cecília Meireles pela sua disponibilidade para concorrer, depois de a deputada ter visto a “necessidade de assumir a candidatura” e responder às “abundantes discussões” que acontecem na estrutura local. Uma declaração que fez tocar os alarmes junto dos conselheiros que vêem com bons olhos a concorrência entre várias listas, e que interpretaram as palavras como uma indicação clara do apoio de Cristas à lista de Meireles. Antes, já Fernando Peres, ligado ao grupo do ex-deputado Filipe Lobo d'Ávila (crítico de Cristas), tinha feito uma intervenção para defender que não deve haver intervenção da direção do CDS em eleições locais, devendo estas ocorrer em liberdade e sem pressões.

Mais afastado deste processo está o secretário-geral adjunto do norte, Manuel Gonçalves, que chegou a concorrer na lista que perdeu a concelhia do Porto. Também este aspeto foi enfatizado no Conselho Nacional, com os críticos de Cristas a acusarem a direção de "parcialidade e intromissão" por ter altos cargos a concorrer em listas. Na reunião, a direção justificou a candidatura com o facto de, formalmente, ter acontecido no período de vazio entre o fim de um mandato e a tomada de posse para retomar o cargo. Confrontado com uma possível incoerência - também Pedro Magalhães, secretário-geral adjunto do centro, não só concorreu como venceu na concelhia de Vale de Cambra - o secretário-geral respondeu que neste caso a vontade veio de baixo para cima, isto é, que foram os militantes que quiseram, em esmagadora maioria, ver Magalhães à frente da estrutura, onde não havia outras alternativas.

Os secretários-gerais adjuntos (que coordenam as várias áreas geográficas do país, dividindo-se por norte, centro e sul) também causaram polémica na reunião por outra via: é que, com os críticos de Cristas a votar contra (caso do grupo encabeçado por Filipe Lobo d'Ávila) ou a abster-se (no caso da TEM, única tendência formalizada do CDS) sobre o relatório de contas do partido, com críticas de opacidade e por só ter sido apresentado na própria reunião, um dos problemas levantados foi precisamente o de não se conhecerem parcelas do relatório em detalhe, nomeadamente os salários auferidos pelos secretários-gerais adjuntos.