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Embaixador de Israel: “Para ser sincero, o apoio do PC e BE ao Governo português nem sempre ajuda a fazer alianças entre os dois países”

Lior Mizrahi / Getty

No dia da transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém, esta segunda-feira, o embaixador de Israel em Portugal afirmou, em entrevista ao Expresso, que “os interesses comuns e a amizade enraizada serão mais dominantes do que os obstáculos que as forças políticas menores tentarão colocar”

Em fevereiro foi publicado no jornal “Jerusalem Post” um texto assinado pela secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, que defendia que Portugal é um bom país para viver, visitar ou investir e que realçava o património cultural judaico. É notório um maior interesse dos israelitas por Portugal? Como avalia a relação entre Portugal e Israel?
Os israelitas estão apaixonados por Portugal. Há um fluxo crescente de turismo de Israel para Portugal e todos eles elogiam a beleza do país e a gentileza de seu povo. Penso que os portugueses podem facilmente sentir-se em casa em Israel, este é o feedback que recebo de turistas, académicos, empresários, estudantes e diplomatas de Portugal que visitam Israel ou moram lá por um período de tempo. Temos muito em comum, além de diferenças enriquecedoras. Podemos aprender muito uns com os outros. Penso que é hora de Israel fornecer o seu know-how e experiência em dessalinização da água do mar para Portugal e Israel pode beneficiar muito da investigação científica marítima de Portugal. No entanto, estes são apenas dois exemplos de tantos outros tópicos e ideias que tenho em mente onde devemos colaborar intensamente. Em termos políticos, para ser sincero, a situação atual do Governo português, que conta com o apoio parlamentar dos comunistas e do Bloco de Esquerda, nem sempre ajuda a desenvolver as potenciais alianças entre os dois países. Dito isto, estou confiante de que os interesses comuns e a amizade enraizada serão mais dominantes do que os obstáculos que as forças políticas menores tentarão colocar. As futuras visitas mútuas dos dois Presidentes aos dois países vão certamente sublinhar a importância que as duas nações e as sociedades atribuem ao desenvolvimento do nosso relacionamento e amizade.

Israel encontra-se no top 10 do Índice de Inovação da Bloomberg. Como é que o país se transformou num dos mais inovadores do mundo?
A constante luta pela sobrevivência durante gerações obrigou os judeus a serem criativos, a encontrar soluções fora da caixa. Acredito que estes são os pilares básicos do espírito de inovação do nosso país. Como um pequeno e independente país alicerçado em valores das democracias ocidentais e constantemente ameaçado pelo ambiente hostil com valores culturais muito diferentes, necessitamos de investir muito na nossa defesa e na nossa sobrevivência. Felizmente, a par de muitos dos desenvolvimentos em alta tecnologia para a área de segurança, são também encontradas outras versões para melhorar a qualidade de vida da nossa sociedade. E estamos sempre satisfeitos em partilhar estes conhecimentos com Portugal. Por exemplo, algo que acredito que poderia ser muito relevante para Portugal é uma das nossas empresas de alta tecnologia que tem usado tecnologia militar para combater os fogos florestais e proteger as vidas de civis que estão na proximidade das áreas de fogos.

Setenta anos após a independência, qual é a importância do Estado de Israel para o futuro do Judaísmo?
O Estado de Israel é definitivamente a expressão do movimento nacional do povo judeu e, portanto, a renovação da soberania judaica após milénios de perseguições, exílio, trágicas destruições e Holocausto é uma conquista única para o povo judeu e um dos sucessos mais revolucionários do ser humano. Mas o Estado de Israel é também a pátria de uma variedade humana, por outras palavras, não apenas da maioria judaica mas de outras importantes minorias, como os árabes muçulmanos, cristãos árabes de diferentes denominações, drusos, beduínos e outros. Todos são atores plenos dos milagres da criatividade israelita e da forte democracia de Israel.

A embaixada dos EUA em Israel foi transferida esta segunda-feira para Jerusalém, no mesmo dia em que se assinalou o 70.º aniversário da Declaração de Independência do Estado de Israel. Qual é o significado político desta medida?
Os americanos inauguraram a sua embaixada em Jerusalém, nas próximas semanas Guatemala e Paraguai vão acompanhar a decisão dos EUA e estou certo de que se seguirão outros países, alguns deles europeus. A importância desta decisão prende-se ao facto de refletir uma realidade de há muito tempo. As principais instituições democráticas no Estado de Israel estão em Jerusalém: a presidência, o Knesset (Parlamento israelita), o Supremo Tribunal, o gabinete do primeiro-ministro e dos ministérios governamentais. Eu, por exemplo, como funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, quando não tenho missões diplomáticas no estrangeiro, sendo um cidadão de Telavive (residente em Telavive) desloco-me diariamente ao meu gabinete no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Jerusalém. Ignorar esta realidade não ajudou a causa de paz. O Presidente Trump não foi o primeiro chefe de Estado americano a compreender isso, todos fizeram declarações sobre esse tema, mas ele é o primeiro a cumprir as suas declarações anteriores sobre Jerusalém, capital de Israel. É fundamental sublinhar que Jerusalém, com a sua importância para as três religiões monoteístas, apenas e sempre foi a capital do povo judeu desde que o rei David estabeleceu aí a capital do seu reino há mais de três mil anos.

Como um pequeno e independente país alicerçado em valores das democracias ocidentais e constantemente ameaçado pelo ambiente hostil com valores culturais muito diferentes, necessitamos de investir muito na nossa defesa e na nossa sobrevivência.

Acredita que Trump está comprometido com o plano de paz para terminar o conflito entre Israel e os palestinianos?
Acredito realmente que a administração Trump está comprometida a pôr fim ao conflito. A diferença é que Trump não acredita que se consegue o acordo desejável cedendo aos grupos radicais e sossegando os regimes perigosos − como o Irão, a Coreia do Norte e a Síria. Concordo inteiramente com esta visão.

Quais são as principais ameaças ao plano de paz?
Claramente existem ameaças a qualquer possível paz no Médio Oriente. Veja-se quantos muçulmanos estão a ser abatidos no confronto sangrento entre muçulmanos xiitas e sunitas e há um regime como o Irão e outras organizações próximas, o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza, que apelam abertamente à destruição do Estado de Israel. Os mais pragmáticos e ‘moderados’, como a Autoridade Palestiniana e o seu Presidente, pedem ao mundo que reconheça o direito de autodeterminação do povo palestiniano mas ao mesmo tempo prometem nunca reconhecer o direito de autodeterminação do povo judeu e o Estado de Israel como sua expressão.

Há dez dias, Israel anunciou a retirada de sua candidatura ao Conselho de Segurança da ONU. O que fará Israel com vista a ter plena participação nos processos de decisão das Nações Unidas?
Israel participa em organizações e agências de tomada de decisões da ONU, promovendo uma agenda positiva. Temos muita experiência em medicina, ciência, agricultura e desenvolvimento rural, combate ao analfabetismo, tecnologia e inovação, educação, etc. Estamos satisfeitos em poder partilhar essa experiência com os nossos amigos a nível bilateral e estamos a tentar trabalhar e partilhar esse conhecimento com as agências profissionais da ONU, onde o fórum é de facto profissional e não apenas um palco para difamar Israel e distorcer a sua imagem com a maioria hostil.