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Vital Moreira diz que "acordo da geringonça" teve custo político alto para o PS

João Abreu Miranda / Lusa

Antigo cabeça de lista das europeias do PS critica fortemente as posições do secretário de Estado e dirigente socialista Pedro Nuno Santos, considerando irrepetível o acordo "das vacas gordas económicas"

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O constitucionalista e antigo cabeça de lista das europeias considera que não há lugar para "o encómio da geringonça" que faz o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e que não existe "nenhuma solução de governo maioritária", como Pedro Nuno Santos defende. Pelo contrário, diz, o acordo "cobrou um significativo preço político ao PS".

Num artigo colocado este domingo no blogue "Causa Nossa", Vital Moreira inclui nesse 'preço' a "renúncia a parcelas importantes do seu programa eleitoral, como por exemplo, o imposto sucessório, a apoio fiscal ao rendimento dos trabalhadores com baixos salários, a reforma eleitoral, etc".

Na sexta-feira, Pedro Nuno Santos, conhecido por defender uma posição mais à esquerda dentro do PS, escreveu um artigo no Público intitulado " A social democracia para além da terceira via". Nele, afirma que a decisão tomada de criar uma solução de governo apoiada pela esquerda parlamentar "pode ter salvo o PS do destino de outros partidos europeus da mesma família política", que estão em franco retrocesso.

Negando esta afirmação, o constitucionalista, que sempre foi contra a atual solução governativa, diz que o PS "se salvou do desastre" porque "foi dispensado de gerir o penoso programa de assistência externa, tendo voltado ao Governo quando o "trabalho sujo" já tinha sido concluído pela direita e a retoma da economia e do emprego já estavam em marcha".

E acrescenta: "tivesse sido o PS a gerir o programa de austeridade, e teria sido punido nas urnas tão severamente como o foram outros partidos socialistas que não tiveram a mesma fortuna".

Sucesso da geringonça veio de trás

Alias, Vital Moreira vai mais além e nega mesmo que a retoma económica tenha sido um exclusivo da ação governativa, mas "já vinha de trás", pelo que "teria existido, mais décima menos décima, qualquer que fosse o Governo".

"Não foi o fim da austeridade que gerou o crescimento, mas sim o contrário: foi a retoma iniciada anteriormente na economia e no emprego que proporcionou as condições orçamentais para desativar os cortes nos rendimentos e nas prestações sociais", escreve Vital Moreira.

"A Geringonça revelou-se sobretudo uma solução conjuntural, limitada ao tempo das "vacas gordas económicas", enquanto o excedente orçamental permite pagar os elevados custos da política de rendimentos imposta pelos parceiros no acordo, sem impossibilitar a política de consolidação orçamental", escreve ainda o constitucionalista., Trata-se de um "acordo político de via reduzida" e por isso irrepetível.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Pedro Nuno versus Santos Silva

No citado artigo, Pedro Nuno Santos respondia a um outro artigo publicado por Augusto Santos Silva. Este defendia uma posição mais moderada e sem deixar de elogiar o caminho deste Governo afirmava que "o que faz sentido é que os eleitores possam escolher entre o PS e o PSD, pois é o que melhor preserva a alternância".

Já Pedro Nuno Santos escreveu que era preciso "corrigir os excessos liberalizadores dos últimos 20 anos cometidos pela social-democracia", que não era preciso o PS afastar-se da esquerda nas políticas para convencer muitos eleitores do centro e que "o sucesso deste Governo e desta maioria nada deve à terceira via" de Tony Blair.

O artigo do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares passou praticamente despercebido porque foi publicado no mesmo dia em que José Sócrates anunciou a sua saída do Partido Socialista. Curiosamente, este era considerado um "blairista".