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Marcelo ouviu deputados catalães a cantar ‘Grândola’. E lembrou que a democracia é um “desafio nunca esgotado”

Deputados e senadores da Esquerda Independentista da Catalunha e do PDeCAT, o partido de Puigdemont, começaram a cantar a Grândola vila morena como

TIAGO PETINGA/ Lusa

O Presidente da República esteve esta tarde nas Cortes espanholas para discursar à frente de deputados e senadores. Falou de velhos do Restelo, Dons Quixotes e, sobretudo, de democracia

Foi já no final de um longo momento de aplausos, da parte de todos os membros do Congresso dos deputados e do Senado, que as vozes em uníssono se fizeram ouvir. Os deputados independentistas da Catalunha acabavam de se levantar e, no final da sessão em que Marcelo Rebelo de Sousa falou sobre democracia e os caminhos cruzados de Portugal e Espanha, ouviram-se as primeiras palavras de Grândola Vila Morena.

Os deputados em questão já entraram na sessão com cravos amarelos na mão, símbolos da revolução e cor que homenageia os presos políticos. E foi a meio da ovação final a Marcelo que começaram a cantar a canção da revolução portuguesa. Não foi clara a reação do presidente para quem assistia nas galerias.

O momento aconteceu já depois de Marcelo ter frisado a importância de Portugal e Espanha valorizem as suas diferenças, tanto entre si como dentro dos próprios países. A questão catalã tem estado ausente na visita de Estado do Presidente a Madrid, que dura desde domingo. E foi logo nesse dia que Marcelo esclareceu que não comentaria assuntos internos de Espanha, quando questionado pelos jornalistas portugueses.

Dom Quixote e o velho do Restelo

A cena insólita aconteceu depois do discurso de Marcelo nas Cortes espanholas, que juntam os deputados com os membros do Senado espanhol. Ali, Marcelo recordou com "honra e emoção" os tempos que passou como deputado constituinte, entre 1975 e 1976, e os passos que Portugal e Espanha deram a caminho da democracia.

"Lutar pela democracia é um imperativo de todos os dias, tal como é um erro acreditar que basta a sua proclamação nas constituições e nas leis", frisou o Presidente. "Sabemos como são constantes e preocupantes os sinais que nos chegam de outras paragens, onde sistemas políticos entram em crise ou se fragilizam porque se desistiu de se fazer da democracia uma realidade todos os dias. [A democracia é] um desafio nunca esgotado".

Frisando a importância da integração europeia na transformação dos sistemas políticos ibéricos, Marcelo lembrou os princípios que devem reger as "pátrias irmãs": "a tolerância contra egoísmo xenófobo, a participação das pessoas contra o confidencialismo que provoca populismo, a fraternidade que se opõe ao ódio". E acrescentou, já em castelhano: "A democracia une-nos e nunca poderemos aceitar que nos divida".

O Presidente recordou ainda a História comum de Portugal e Espanha e o protagonismo de ambos na época dos Descobrimentos, em que "dirigiam o mundo" como as suas "casas". Mas "só na democracia" escolheram "ser fiéis ao melhor da História de cada um. Não ceder nem um milímetro dessa democracia é recreá-la sem cessar".

Para Marcelo, essa História é feita de momentos e personagens muito diferentes, "feitos dos Dons Quixotes mas também dos Sanchos Pança". E concluiu com uma referência que só a comitiva portuguesa ali presente terá percebido: "Somos feitos de quintos impérios, mas também de velhos do Restelo".