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“Mentira, mentira”, “apoio sem ambiguidade”, “compreendemos os nossos amigos”: o ataque na Síria visto pela política portuguesa

LOUAI BESHARA / Getty

À direita há apoio e prudência, à esquerda do PS há repúdio e condenação, no Governo defende-se a assertividade e determinação e a Presidência da República sublinha a razão e a oportunidade do ataque

Lusa com Expresso

Para Catarina Martins é simples: "Quando nos dizem que foi um ataque para proteger as populações, é mentira. É preciso dizê-lo com todas as letras: é mentira. Tudo o que (Donald) Trump, (Theresa) May e (Emanuele) Macron querem é a escalada da guerra. Qualquer legitimidade da comunidade internacional a este ataque é um enorme erro. É bom lembrarmo-nos da guerra sob falsos pretextos ao Iraque e suas consequências", considera a coordenadora do Bloco de Esquerda, que faz questão de recordar um facto: o ataque ocorreu na véspera da entrada na Síria de uma missão de investigação das Nações Unidas para averiguar a existência de armas químicas – o regime de Assad é suspeito de tê-las utilizado há uma semana contra a população.

João Almeida, do CDS, está no polo político oposto do BE e igualmente do lado contrário quanto à intervenção dos aliados na Síria: “Estamos preocupados com a escalada de violência e condenamos a utilização de armas químicas e, tal como já disse o Presidente da República, compreendemos a posição e a intervenção dos aliados e consideramos que é desejável que, no quadro das Nações Unidas, seja encontrada uma solução o mais rapidamente possível”.

De regresso à esquerda, a CGTP, que reagiu em comunicadom não tem dúvidas: trata-se de “um ato perpetrado em violação do Direito Internacional e da Carta da ONU, procurando introduzir novos elementos de desestabilização e contrariar os avanços alcançados pelo diálogo e os esforços de vários países para trazerem de volta a paz" à Síria. Mais: “Invocar o uso de armas químicas em Douma é um ato da mais profunda manipulação - vejam-se as mentiras mais recentes em relação ao Iraque e à Líbia, com as dramáticas consequências que se conhecem". E ainda: há "um claro intento de manietar a opinião pública e procurar justificar a agressão".

E agora novamente a direita: “O PSD apoia sem ambiguidade a iniciativa (...), que vai no sentido de deixar claro que o uso de armas químicas é uma linha vermelha que não pode ser ultrapassada sem uma resposta que dissuada o Estado infrator de repetir esse tipo de prática", lê-se num comunicado assinado por Tiago Moreira de Sá, presidente da Comissão de Relações Internacionais do PSD. O texto defende "a maior prudência", para evitar uma escalada de violência na região, e condena "veementemente os ataques químicos contra civis". "Esta solução política [de EUA, Reino Unido e França] só podia ser desencadeada por uma ação assertiva e determinada de Estados que, como Portugal, respeitam as normas, regras, leis e instituições da ordem internacional."

Do lado do Governo, que reagiu logo ao início da manhã de sábado, é referido que se "compreende as razões e a oportunidade" do ataque aéreo lançado contra alvos sírios pelos EUA, França e Reino Unido, "três países amigos e aliados de Portugal". Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) refere ter-se tratado de "uma operação militar circunscrita, cujo objetivo foi infligir danos à estrutura de produção e distribuição de armas que são estritamente proibidas pelo direito internacional". "Portugal compreende as razões e a oportunidade desta intervenção militar. O regime sírio deve assumir plenamente as suas responsabilidades. É inaceitável o recurso a meios e formas de guerra que a humanidade não pode tolerar", adianta o comunicado, sublinhando a "necessidade de evitar qualquer escalada no conflito sírio, que gere ainda mais insegurança, instabilidade e sofrimento na região".

O Presidente da República já subscreveu a posição do MNE, afirmando que só a vontade de construir a paz permitirá caminhos de futuro. "Memória, orgulho e coragem nos reúnem aqui hoje, num dia em que Portugal já manifestou pelo seu Governo a compreensão para com a razão e a oportunidade da intervenção de três amigos e aliados, limitada a estruturas de produção e distribuição de armas estritamente proibidas pelo direito internacional e cujo uso é intolerável e condenável", disse Marcelo Rebelo de Sousa, ao discursar nas cerimónias do Dia do Combatente, que decorreram no Mosteiro da Batalha.