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Silva Peneda na Altice: “Achei piada”

João Proença 
e Silva Peneda ontem na tomada 
de posse na sede da Altice 


fOTO Nuno Botelho

Trabalhadores “veem com muito maus olhos” novo Conselho Consultivo. João Proença e Silva Peneda falam em “desafio”

“Achei piada e não resisti ao desafio”. Silva Peneda, ex-presidente do Conselho Económico e Social e antigo ministro de Cavaco Silva, resume assim as razões que o levaram a aceitar o convite da Altice para presidir ao recém-criado Conselho Consultivo para as relações laborais. A empresa está exultante com o facto de ter conseguido chamar Peneda e João Proença — ”dois vultos assinaláveis” — como cartão de visita da promoção da paz social interna. Mas comissão de trabalhadores e sindicatos declaram guerra ao novo organismo. E, na UGT, o incómodo é indisfarçável.

É uma situação inédita, sem dúvida. O Conselho é um órgão nunca visto nas relações empresariais. E, mais ainda, nunca um ex-secretário-geral de uma central sindical e um ex-presidente da Concertação Social foram chamados como consultores das questões laborais de uma empresa privada, conhecida pelo estado de crispação com os sindicatos. A Altice não esconde o orgulho na iniciativa, que considera ser a prova de que está na “vanguarda das relações laborais empresariais” do país. Mas os trabalhadores parecem não estar de acordo. E, na próxima segunda-feira, vão responder, também eles, com um gesto inédito: as oito organizações representativas dos funcionários da Altice (sete sindicatos e comissão de trabalhadores) vão reunir-se para tomar uma posição conjunta. Negativa, adivinha-se desde já.

A CGTP é fortemente maioritária na representação dos trabalhadores da Altice e Vítor Narciso, dirigente de um dos sindicatos da Intersindical representados na empresa, não tem dúvidas de que é visto “com muito maus olhos” um conselho que servirá de “tampão nas relações com a administração. Os currículos de Proença e Peneda também não ajudam a abrir caminhos com o Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT). “Como a Altice tem andado nas bocas do mundo pelas piores razões, foram buscar dois senhores com experiência em lidar com órgãos representativos dos trabalhadores”, diz o dirigente sindical. “Mas nós temos uma visão negativa da ação que tiveram no passado”, conclui Vítor Narciso.

Francisco Gonçalves, da comissão de trabalhadores, assume que já fizeram “chegar à empresa o desconforto” com uma situação da qual tiveram conhecimento “através da comunicação social”. “Em janeiro, a administração comunicou-nos a intenção de criar este órgão com pessoas independentes, com credibilidade e currículo reconhecido”, afirma. “Os nomes não correspondem ao perfil traçado. Estes dois senhores independentes não são, de certeza”, diz Francisco Gonçalves.

UGT afasta-se

A entrada do ex-secretário-geral da UGT numa das empresas de maior conflitualidade laboral criou mal-estar na central sindical. Carlos Silva, indicado por João Proença como seu sucessor, é lacónico no comentário: “Tendo saído da UGT, faz da sua vida o que quiser”, disse ao Expresso. José Arsénio, dirigente do Sindetelco (o sindicato afeto àquela central sindical representado na Altice) repete que João Proença “faz o caminho que entender”, mas confessa não perceber “a necessidade de intermediários para negociar com os trabalhadores, porque não há nenhum obstáculo ao diálogo”. Além de mais, “é sempre mais fácil negociar com a empresa do que com terceiros.

João Proença põe água na fervura e garante que “quem manifesta preocupação é porque não conhece” a missão do novo conselho “ou porque não está interessado em acordos”. As indiretas vão para os sindicatos da CGTP, mas acabam por atingir todos. O ex-secretário-geral da UGT garante que foi convidado “há menos de um mês” e aceitou o “desafio de integrar um organismo extremamente inovador”. “Sei que o meu nome, em alguns sectores, não é bem-vindo”, assume, mas esclarece que não irá participar em reuniões negociais. Além de mais, “a empresa garantiu que não vai haver despedimentos. Esse foi um dos aspetos que me levaram a aceitar”, afirma.