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Política

Rui Moreira também sabe nadar

Rui Moreira está a ser acusado de fazer da escolha do representante do município no CA da Casa da Música um arranjo político

Rui Duarte Silva

O autarca do Porto disse recentemente não ser da política, mas andar cá há tempo suficiente para conhecer os segredos da política

O desencanto com as instituições chegou a um ponto tal, que as pessoas já não acreditam nos factos. A frase é de Noam Chomsky, 90 anos, o mais influente linguista do mundo e um dos grandes pensadores da atualidade. Foi proferida durante uma recente e importante entrevista dada ao suplemento cultural Babelia, do jornal El País e fixa, em poucas palavras, um retrato cruel de uma realidade preocupante.

Não é difícil encontrar, no dia-a-dia, exemplos capazes de ilustrar a pertinência daquele raciocínio. Nem é necessário atravessar o Atlântico à procura de mais uma pérola do inenarrável e inefável Donald Trump. Podemos ficar por cá e atender aos sinais oriundos dos locais, das instituições ou das pessoas tidas como mais improváveis.

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), eleito com o rótulo de independente, pode ter dado na última semana um não desprezível contributo para o acentuar desse descrédito que mina, fragiliza e arrefece a confiança nas instituições democráticas.

A composição da administração da Casa da Música está envolta em polémica

A composição da administração da Casa da Música está envolta em polémica

d.r.

Na passada sexta-feira foi eleito o novo Conselho de Administração da Casa da Música. A CMP e o Conselho Metropolitano do Porto designaram como seu represente um tal de Luís Osório, eleito do PSD na Assembleia Municipal do Porto. O uso da expressão “um tal de” não tem implícito um caráter ofensivo, muito menos uma qualquer desconsideração. Resulta antes de uma constatação de facto. Não faltou na CdM quem, naquele dia, tenha recorrido ao Google para digitar o nome e tentar saber algo, qualquer coisa, sobre um novo administrador de cujo currículo pessoal e profissional não se retira qualquer especial ligação ao mundo da cultura, ou da música em particular.

Foi uma escolha estranha. Não há como fugir a essa constatação. De tal ordem, que foram os companheiros de partido de Luís Osório a verbalizar os primeiros e mais corrosivos comentários à escolha de Rui Moreira. José Pedro Fonseca, militante do Núcleo Ocidental do Porto do PSD, presidido pelo novo administrador da CdM disse, citado pelo jornal Público, que Osório “não tem perfil para o cargo, nem experiência”, além de não lhe reconhecer “qualquer tipo de atividade cultural”. Outros militantes do PSD têm defendido que o partido lhe deve retirar a confiança política.

Este invulgar descontentamento do PSD pela nomeação de um seu militante para a administração da Casa da Música fundamenta-se numa suspeita, enunciada também por Manuel Pizarro, do PS. A de que possa tratar-se de uma compensação destinada a facilitar um “arranjismo partidário”. O objetivo seria garantir a maioria do Movimento de Rui Moreira na Assembleia Municipal, tornada mais difícil após a eleição de Rui Rio para secretário-geral do PSD, com consequente escolha de Alberto Machado, próximo de Rio, para líder de bancada na AM, em detrimento de Pedro Duarte, mais disponível para os entendimentos com Moreira.

Estamos no domínio da leitura política dos factos. Ou, se se preferir, no terreno da especulação. Rui Moreira ainda não se pronunciou e pode, ou não, estar a ser vítima de um processo de intenções. Terá a oportunidade de se explicar e justificar a escolha, se não for antes, na próxima reunião do executivo camarário.

Nada disso obsta a que se assinalem outras anormalidades. No mandato agora concluído, a representação da autarquia e do Conselho Metropolitano esteve a cargo de Rosário Gamboa, presidente do Instituto Politécnico do Porto e uma mulher com conhecidas ligações e afinidades com o mundo da cultura. Ao que parece, terá sabido da sua não continuidade no próprio dia da reunião do Conselho de Fundadores da Casa da Música. Não deixa de ser revelador que, nesse mesmo dia, tenha sido o próprio Luís Osório a comunicar a alguns jornalistas que passaria a ser administrador da CdM.

O PS tem explorado a decisão de Moreira, mas o Governo não fica melhor na fotografia

O PS tem explorado a decisão de Moreira, mas o Governo não fica melhor na fotografia

Rui Duarte Silva

O PS tem estado a explorar o episódio, apesar de também não sair bem na fotografia. O Estado tem dois representantes no CA da Casa da Música. O Ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes, indicou, para o novo mandato, o maestro José Luís Borges Coelho. É um regresso. Sempre fizera parte da administração e só deixara de estar presente depois de ter sido afastado pelo secretário de Estado Jorge Barreto Xavier. O segundo representante do Estado personifica uma recondução “sui generis”. Trata-se de Teresa Moura, ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus. No mandato anterior tinha assento no CA, mas em nome do acionista privado Fundação EDP, que deixa de ter representação naquele órgão. Contudo, Teresa Moura mantém-se. Agora nomeada pelo Governo, apesar de continuar funcionária da EDP, como chefe de gabinete do Conselho Geral e de Supervisão daquela empresa.

É impossível não perceber nestas opções um desprestígio e uma menorização da instituição Casa da Música. Pode e deve perguntar-se a Rui Moreira se entre os seus vastos contactos no seio da intelectualidade portuense, de que tanto se orgulha, não conhecia ninguém mais habilitado, reconhecido e consensual para representar a autarquia, até para ser consequente com a dignificação da cultura, enunciada como um dos principais desígnios da sua presidência.
Não menos importante será questionar o papel do Ministério da Cultura. Também Luís Filipe de Castro Mendes não conhecia ninguém no Porto em condições de, com a sua presença, saber e prestígio, constituir uma inequívoca mais-valia para a equipa dirigente da Casa da Música, ao ponto de ter de colocar como representante do Estado quem, até agora, ali estivera por nomeação de um acionista privado?

Os administradores da Casa da Música não são remunerados, mas ganham visibilidade

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Rui Duarte Silva

Há dias, ao apresentar propostas para o futuro do Coliseu, e face às muitas contrariedades existentes, Rui Moreira disse não ser da política, mas andar cá há tempo suficiente para conhecer os segredos da política. Talvez por isso, o bom velejador esteja, tal como o ministro, a conseguir nadar cada vez melhor nestas águas profundas que tanto desdenhou.