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Notícias desagradáveis desapareceram: a realidade alternativa do mundo laranja

Rui Rio encabeçou a delegação do PSD que foi ouvir o discurso final de Cristas

FERNANDO VELUDO / NFACTOS exclusivo para EXPRESSO

Textos desfavoráveis à direção de Rio desapareceram dos clippings de notícias, denunciam deputados. Paula Teixeira da Cruz fala em “censura”. “Nem quero acreditar que isso aconteça”, reage Fernando Negrão

Foi no sábado 10 de março de 2018 que rebentou a primeira polémica envolvendo Feliciano Barreiras Duarte, então secretário-geral do PSD. O “Sol” escreveu que Barreiras Duarte se viu obrigado a retificar o currículo, onde se apresentava abusivamente como visiting scholar da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Entretanto, no e-mail que os sociais-democratas recebem com o resumo dos casos do dia, há notícias sobre o PSD (os planos de Rio para as próximas eleições, no Expresso, ou uma sondagem da Aximage para o “Correio da Manhã” em que se verifica o crescimento do partido). Há até referência a notícias também do “Sol”, por exemplo, um título que conta que Rio não está “preocupado” com o CDS, que se reunia em congresso. Mas referências ao caso Feliciano nem vê-las.

Este é um dos exemplos que parte do grupo parlamentar está a ver não como uma coincidência, mas como “censura”. Ao Expresso, Paula Teixeira da Cruz assume ser uma das deputadas que estranharam a alegada “diferença” que se verifica na seleção das notícias que chegam às caixas de correio dos sociais-democratas. “Nós estávamos habituados a uma lógica de liberdade em que tanto as notícias agradáveis como desagradáveis nos chegavam. Não é o que se passa agora”, assegura. “Tenho estranhado, porque as notícias desagradáveis não aparecem”. Não é a única: outro deputado fala de uma “censura indecorosa”, garantindo que “desde há um mês nunca surgiu qualquer notícia menos agradável para a atual liderança, nem mesmo o caso Feliciano, quando era capa de todos os jornais”. “Nunca se tinha visto uma coisa assim, nem mesmo quando o PSD estava debaixo de artilharia pesada nos anos da troika”, assegura o mesmo parlamentar. Outro deputado diz que deixou de receber “certas notícias menos abonatórias e certos artigos de opinião, dos críticos”.

O Expresso teve acesso a vários e-mails que os deputados recebem, incluindo o de 10 de março. A 15, dia em que o “Público” escreve que “Negrão nega fragilidade de Barreiras Duarte”, o “i” titula “Barreiras Duarte substituído na lista de intervenientes do PSD” e o “DN” publica um texto titulado “Fernando Negrão chamou arguido por engano a Barreiras Duarte”, do clipping que chega aos sociais-democratas não constam estas referências, mas antes textos sobre Rio querer um debate de urgência no Parlamento ou o PS ter-se “encostado à direita” em matérias laborais. No dia 17, pelas 10h55, o “Observador” publica a notícia que dá origem à segunda polémica de Barreiras Duarte, revelando que deu à AR a sua morada fiscal, no Bombarral, apesar de viver em Lisboa. Às 11h41, chega às caixas de e-mail um clipping com referências à sondagem do Expresso/SIC pela Eurosondagem que dá conta da subida do PSD, por exemplo, mas sem mencionar o caso Barreiras Duarte. Pode ser por se tratar de um jornal online, mas no dia seguinte o clipping também não replica as notícias da imprensa escrita sobre o tema (por exemplo a do “Público”, que escreve: “Prazo de Barreiras Duarte esgota-se: ou sai por si ou Rio desiste dele”).

Para as notícias que aparecem a meio do dia, o PSD tem um serviço de alertas que durante este período de transição estará a falhar ou pelo menos a ser enviado com menos frequência, como disse o deputado Amadeu Albergaria na reunião da bancada de quinta-feira. Ao Expresso, o líder parlamentar, Fernando Negrão, explica que os serviços que eram antes assegurados por uma empresa, para reduzir custos, estão a ser feitos pelos serviços audiovisuais do partido. Quanto à seleção de temas, responde: “Não admito que haja qualquer tipo de censura. Nem quero acreditar que isso aconteça!”. Pelo contrário, fonte oficial da direção, explicou ao Expresso que as empresas que asseguram estes serviços “são as mesmas” e fazem “um apanhado geral das notícias”, enviando durante o dia uma seleção das que “podem interessar” a cada deputado, autarca, etc. Mas admite que poderá haver “ajustes” nos serviços caso o grupo parlamentar tenha reparos a fazer.