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Nova líder do CDS-Porto quer mudar lógica do “status quo”

nuno botelho

Críticos de Cristas congratulam-se com vitória no Porto, embora Isabel Menéres diga “desconhecer as razões para ficarem satisfeitos”. Corrente interna pede demissão do secretário-geral adjunto do norte

"Surpreendida". Embora nos últimos dias fosse detectando "sinais positivos", é assim que se diz Isabel Menéres, que foi na noite desta quinta-feira eleita presidente da concelhia do Porto, contrariando o habitual "status quo" que costuma tomar conta do partido naquele concelho.

A confissão é feita pela própria ao Expresso, ao telefone. Isabel Menéres confessa que ainda pouco tempo teve para ver as reações à sua vitória, numa altura em que várias correntes internas do partido críticas da direção de Cristas se congratulam com o resultado, para muitos inesperado. "Desconheço as razões para ficarem satisfeitos, mas suponho que tenha a ver com uma certa vontade de alterar um certo estado das coisas, de mudar", reconhece.

A advogada e professora universitária, que era vogal da comissão política concelhia que desempenhou funções até ao ato eleitoral que decorreu na quinta-feira, liderava a lista B, enquanto a lista A era encabeçada pela vereadora da Câmara do Porto, Catarina Araújo. Ou seja, a lista associada à direção do partido, que integrava o secretário-geral adjunto no Norte, Manuel Gonçalves, e tinha como mandatária a vice do CDS Cecília Meireles perdeu.

No entanto, Isabel Menéres rejeita que esta seja uma candidatura "desalinhada" em relação à direção do partido, sublinhando o "apreço e estima" que tem por Catarina Araújo e lembrando que foi eleita para o Conselho Nacional do partido na lista de Assunção Cristas. É sim, ao contrário da sua opositora, contra o "status quo que está no Porto há muitos anos". "É do Porto e para o Porto", assegura Menéres, assinalando as prioridades para o mandato que agora começa: "recolocar o Porto no centro do debate nacional, maior intevenção da concelhia nas decisões, colocar uma sede do CDS no Porto, debater mais ideias com a JP e os militantes, devolvendo o partido aos militantes". Na lista de afazeres está ainda a "estratégia" que é preciso montar para "trabalhar com elementos da outra lista", numa lógica de "união".

Isabel Menéres Campos venceu por 17 votos, numa eleição na qual votaram 427 militantes do CDS e 46 militantes da Juventude Popular. E embora esclareça que esta não foi uma candidatura "desalinhada", críticos internos da direção do partido congratulam-se com a vitória de uma lista anti-sistema numa das maiores concelhias do país, que consideram uma "revolução".

TEM pede demissão

A única tendência formalizada dentro do partido, a Tendência Esperança em Movimento (TEM), encabeçada por Abel Matos Santos, enviou uma nota em que felicita Isabel Menéres pelos resultados, mas deixa avisos.

O grupo dirige-se a Assunção Cristas para dizer que "o secretário-geral adjunto do Norte não tem condições políticas para continuar a exercer o cargo", por considerar que Manuel Gonçalves, vice-presidente da distrital do Porto e candidato em segundo lugar pela lista de Catarina Araújo, "tomou um lado, não respeitou a imparcialidade e equidistância que se exige a quem é secretário-geral adjunto".

Ao Expresso, Matos Santos defende que quem exerce aquele cargo deve "estar ao serviço de todos os militantes do partido" e garante que teria a mesma posição caso a lista de Catarina Araújo fosse a vencedora. "Deixa de ser um árbitro". E a direção deve por isso "tirar consequências políticas", frisa. O Expresso contactou a direção do partido, que não quis comentar.

Da tendência CDS-XXI, que se apresentou no congresso do CDS como oposição a Cristas, Pedro Borges Lemos mostra-se também satisfeito com a eleição de Menéres e "muito crítico relativamente ao facto de o secretário-geral adjunto ter integrado a lista de Catarina Araújo".

Filipe Anacoreta Correia, deputado, diz ao Expresso que a eleição de Menéres, que concorreu com uma lista que mantinha nomes da equipa anterior e também incluía pessoas que não estavam envolvidas na atividade política-partidária local, é um "sinal de crescimento do partido, que dói a quem sempre controlou [a concelhia] mas é muito positivo".

Já Raúl Almeida, que com Filipe Lobo d'Ávila apresentou no congresso do partido uma lista contrária à de Cristas, aconselha a direção a "olhar com muita atenção" para o que aconteceu no Porto. "Em vez de ver quem condiciona ou apoia, [a direção] pode perceber o que os militantes quiseram dizer e o cansaço, a ruptura com as formas tradicionais, com uma candidatura sem linha oficial, com ideias muito límpidas, sem ligações ao aparelho".

[Artigo atualizado às 19h09 com as declarações de Isabel Menéres, Pedro Borges Lemos, Raúl Almeida e Filipe Anacoreta Correia]