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Marcelo aperta Costa: “rever” medidas para a floresta e agarrar a “vergonha” da pobreza

MÁRIO CRUZ/LUSA

Foram dois abanões num dia. Primeiro: o relatório "muito claro e evidente" sobre os fogos de outubro - o Presidente desafia o Governo a "rever" a estratégia que montou para a floresta. Depois: "a vergonha nacional" da pobreza - "Eu tenho vergonha!" - Marcelo avisa Costa que se a crise passou e estamos a crescer, impõe-se uma estratégia nacional

Marcelo Rebelo de Sousa não está disposto a permitir que a agenda do Governo ceda à inação no ano e meio que falta para as legislativas. Pelo contrário, o Presidente da República aproveitou o encerramento de um debate na Gulbenkian sobre o tema da pobreza para exigir uma nova "estratégia nacional". E fê-lo de forma enfática: "É uma vergonha nacional sermos, em 2017, e agora já em 2018, das sociedades mais desiguais e com tão elevado risco de pobreza na Europa. Eu tenho vergonha!".

Se durante os anos de crise houve "um indesejável compasso de espera", o Presidente avisa que é preciso agir "nestes anos de recuperação financeira e económica". Que é como quem diz: se estamos a crescer e exibimos tão bons indicadores económicos, está na altura de puxar para o caderno de encargos do Governo de esquerda a urgência de definir uma "estratégia nacional" de combate à pobreza. Inadmissível seria "ficar à espera que um dia os avanços da economia cheguem àqueles que, nessa altura, ou não pertencerão já ao número dos vivos, ou cuja pobreza é tal que toda a recuperação é inviável".

Foi um discurso para espicaçar a geringonça, cujos partidos (PS,PCP e BE) tanto gostam de invocar os direitos previstos na Constituição. Puxando o combate às desigualdades sociais para o tôpo da agenda política, Marcelo avisou: "É este o único caminho condizente com a Constituição da República Portuguesa" e a sua "visão personalista assente na dignidade da pessoa humana". Um discurso de esquerda. Para a esquerda ouvir.

Antes, tinha sido o relatório sobre os fogos de outubro a dar o mote ao Presidente para um outro desafio a António Costa, neste caso para avançar com medidas que melhorem a estratégia definida até aqui pelo Governo para a prevenção e combate aos incêndios. Com rasgados elogios ao documento produzido pela comissão independente, que classificou de "muito claro e muito evidente" nas suas conclusões, Marcelo Rebelo de Sousa deu gás aos reparos deixados pelos peritos - segundo os quais a nova lei de limpeza das matas pode ter "efeitos contrários aos desejáveis" e "está muito pouco justificada tecnicamente" - e sugeriu indiretamente uma revisão dessa lei.

"O que lá está (no relatório) é muito claro e evidente. Se se entender que há aspetos a rever e a retocar em função das novas recomendações, o Presidente da República está disposto para dar apoio imediato", afirmou Marcelo. Acrescentando que "há recomendações que devem ser ponderadas e que em parte vão além do que vinha no primeiro relatório".

Duma penada (no mesmo dia) o Presidente da República deixou dois desafios claros ao Executivo. Para que encaixe as conclusões dos peritos sobre as pesadas falhas na prevenção no que toca aos fogos de outubro, e faça mais e melhor em tempo útil. E para que não amoleça à medida que se aproxima o ano eleitoral de 2019 e, pelo contrário, agarre novas causas e prioridades, a começar pelo combate às desigualdades e pobreza que persistem no país.

Marcelo Rebelo de Sousa rejeita estar a querer preencher os vazios deixados pela oposição. Mas nesta terça-feira, em que não se ouviu a voz de Rui Rio, o Presidente agarrou com as duas mãos as críticas severas dos peritos às falhas registadas no apoio às populações. E somou outra parcela à conta - uma estratégia nacional para os pobres é uma bandeira que o PR não vai largar até às legislativas.