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Domingos Abrantes: “As paredes do Forte de Peniche falam. Há gente naquelas celas”

António Pedro Ferreira

Entrevista a Domingos Abrantes, membro do Conselho de Estado e ex-preso de Peniche

Domingos Abrantes foi um dos militantes do PCP que passou pela experiência da prisão de Peniche. Aos 82 anos, integra a comissão que está a ‘desenhar’ o futuro Museu da Resistência e acha que esta é uma “oportunidade que não se pode perder”. Porque “há 40 anos que andamos nisto” e as eternas “dificuldades de financiamento” teimam em aparecer. O velho resistente não vai permitir que se apague esta memória.

O projeto do futuro museu está pronto? O Governo vai acatá-lo?
A proposta sobre os conteúdos do futuro museu está na fase de fecho e será apresentada pelo ministro da Cultura no dia 27 de abril. A proposta vincula o Governo, mas terá de ser aprovada. Não é pensável que venha a surgir outra.

Esteve quanto tempo preso em Peniche?
À volta de nove anos, dos 11 de prisão que tive. Era uma prisão de alta segurança, um sistema carcerário que tinha por objetivo manter os presos isolados. Estas paredes falam dos 2500 presos que por cá passaram. Encerram milhares de anos de tortura, de sofrimento.

Qual é a sua relação com a prisão?
Convivo bem, devo dizer. Mas há gente que ainda hoje não consegue ir a Peniche. É um pânico. Percebo isso, mas, por mim, entro lá com a maior das facilidades.

Foi importante para si voltar?
Talvez. Passei lá momentos muito difíceis, mas também momentos agradáveis. A prisão não é só um lugar de sofrimento, mas também de relações humanas de tipo superior, em que as pessoas tentam incutir coragem e força em momentos muito duros. Aprendia-se muito. Chamava-se-lhe até Universidade.

Álvaro Cunhal fez a sua tese na prisão...
E não só. Houve um camarada do Couço que lá foi parar. Era capador de profissão, e estava connosco um matemático que descobriu, a certa altura, que ele era um talento brutal. Depois de sair, já com 50 e tal anos, tirou o curso de Matemática. Se nunca tivesse sido preso, se calhar, nunca tinha descoberto...

Peniche também é a história de pessoas. Como é que isso vai estar retratado?
Uma das coisas pelas quais nos bateremos é que o nome de todos os presos que lá estiveram tem de lá figurar. Há uma proposta de um memorial que fique dentro da fortaleza e onde constem os nomes todos dos que lá estiveram presos. Com biografias, para que os filhos e netos possam ver. Aquelas paredes falam. Há gente dentro daquelas celas.

A cela de Álvaro Cunhal vai estar assinalada?
Por Peniche passaram várias pessoas marcantes. Mas não há nenhuma que tenha a afirmação e os anos de prisão de Cunhal. Está lá a cela, onde esteve sete ou oito anos, que é uma coisa despida, própria de um franciscano. Tinha uma cama de ferro, uma mala de cartão (porque nem sequer havia armário) e um balde para as necessidades. Ele desenhava e escrevia em cima da mala.

As condições eram duras...
Horríveis. Esta cadeia tinha todas as características negativas. De pedra, junto ao mar. No inverno, a água passa por cima dos edifícios, há uma humidade permanente... Chamávamos-lhe o frigorífico. A alimentação era terrível. Mas Peniche tinha outra característica, que tem de ser assinalada no museu: era uma prisão no meio da vila, e houve sempre solidariedade da população para com os presos. Foi a população que impôs a primeira grande derrota de Spínola.

Explique lá isso bem...
Spínola tinha uma ideia muito clara de manter o aparelho repressivo do Estado. Ele nomeou um novo diretor da PIDE depois do 25 de Abril! Aliás, há um despacho emitido por ele depois dos assassínios das pessoas junto à António Maria Cardoso onde pede alguma contenção à atuação da polícia. Não condena! No caso de Peniche, a ideia dele era manter os presos na cadeia.

Quantos presos estavam em Peniche no 25 de Abril?
Uns 40, talvez. Spínola enviou uma delegação com a indicação de só libertar os presos que não tivessem cometido homicídios, assaltado bancos ou falsificado documentos. Ora, a maioria tinha documentos falsos! Os presos começaram a mexer-se, a coisa soube-se, a população concentrou-se, e acabaram por ser libertados no dia 27. Ali houve uma afirmação de Abril, e as portas da fortaleza abriram-se contra a vontade de Spínola.

Fala com grande paz. Fez as pazes com os seus carrascos?
A vida ajuda. Mas há muitas histórias sinistras, como a tentativa sistemática e deliberada de dizer que o fascismo nunca existiu. O facto de só agora se estar a pensar em reabilitar este forte é disso exemplo. Já num Conselho de Ministros em 1976 foi decidido criar um museu. Passaram-se 40 e tal anos. Chegou a haver um projeto, chegou a haver uma comissão... Recentemente, Peniche quase se ia tornar um hotel de charme. Isto põe problemas muito sérios. Porque aquela fortaleza tem importância, é um símbolo de um regime.

É um bastião do PCP...
Esse é parte do problema. Os comunistas são 90% dos presos e outros tantos dos que foram assassinados. Tenho a certeza de que isso pesa. A resistência é plural: houve comunistas, anarquistas, maoistas, republicanos, etc., mas é um facto que só houve um partido que o fascismo não destruiu. Uns dissolveram-se, outros hibernaram, outros participaram em ações simbólicas, mas só o PCP aguentou. Pode não se gostar. Teria sido mais fácil e teria sido mais rápido se tivéssemos tido mais outras forças organizadas na resistência. Não tínhamos. Passámos por sacrifícios brutais que ninguém pode apagar.

Esta comissão garante o papel do PCP no Forte de Peniche?
Isto não é um museu comunista, nem isso nos passava pela cabeça!

O PCP vai doar espólio ao museu?
Daremos o que for necessário. Há os jornais clandestinos das prisões, que são obras notáveis feitas à mão e de alta categoria gráfica. São património único e nosso, que ninguém tem.

E há dinheiro?
Ora bom, esse é que é o grande problema. Posso dizer que tem havido muitas dificuldades nas questões do financiamento. Andamos nisto há 40 anos...

É o Governo que põe dificuldades?
Não, mas tem este problema para resolver. Esta é uma oportunidade que não se pode perder.

Acha que foi possível mudar a atitude do Governo por haver uma coligação à esquerda?
Este Governo não ficava bem na fotografia se não tivesse tomado esta decisão. Mas o que foi decisivo foi a mobilização das pessoas, e isso existiria sempre.