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Rápido, depressa, a correr. Cristas acelera

FERNANDO VELUDO / NFACTOS exclusivo para EXPRESSO

Estão à vista dois comprimentos de onda. O PSD de Rui Rio tem uma estratégia de longo prazo que passa por acordos de regime. O CDS de Assunção Cristas quer estar sempre "um passo à frente" e já vai disparado na campanha eleitoral. Seis notas sobre o que se passou no congresso do CDS e o que isso significa para a direita

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

"There's nothing holding me back". Foi ao som de Shawn Mendes que Assunção Cristas subiu ao palco do pavilhão multiusos de Lamego, onde decorreu o XXVII congresso do CDS. Valeu de tudo para passar a ideia de que o CDS quer ser o principal adversário do PS de António Costa. A líder do partido repetiu à exaustão que está pronta para disputar a "primeira liga", que "está um passo à frente", que "é a escolha inequívoca" para quem votou PS em 2015 e "foi ao engano".

Sem complexos, sem hesitações, Assunção Cristas só tem olhos para António Costa. Quer ser o principal partido da direita, ambição não lhe falta, mas tanta ambição, surpreendentemente, deixa parte do partido desconfortável. O que fica de dois dias de congresso que arrancaram com uma homenagem ao histórico Adriano Moreira?

A democracia-cristã e as dores de crescimento

Enquanto partido de um dígito (até 2009), o CDS tinha o seu nicho de mercado. A partir do momento em que a ambição cresce, esta traz consigo também aquilo que se chamam as dores de crescimento. O CDS quer ser um partido "catch-all" da direita, como evidencia Assunção Cristas? Então, isso não desconfigurará a ideologia do partido? Como é que é possível caberem dentro do CDS várias sensibilidades? Estas são algumas das interrogações que os congressistas levaram ao palco no pavilhão multiusos em Lamego. Para o CDS, é uma discussão nova. Se fosse no PSD ou PS (os chamados grandes partidos), ninguém estranharia - todos cabem, todos têm o seu lugar. Num partido que não pode descer dos 11,7% que obteve nas últimas legislativas a que concorreu sozinho, a ambição desmedida traz também muitos receios. A ala mais conservadora acusou Cristas de estar a afastar-se da democracia-cristã, de ser demasiado pragmática. Adriano Moreira deu-lhe a benção, ainda assim, mas a líder não se esquivou a críticas também da Juventude Popular (JP), "mais radical", como a própria reconhece. O CDS, assumidamente, vai do conservadorismo da sua "jota", personificado em Francisco Rodrigues dos Santos, ao liberalismo económico de Adolfo Mesquita Nunes, a quem Cristas confiou o importante trabalho de coordenar o programa eleitoral para as legislativas. Adolfo já prometeu de antemão um lugar de deputado ao líder da JP em pleno congresso, a bem da coabitação.

Um passo à frente

Quantas formas há de mostrar trabalho e ambição? Infinitas, segundo Assunção. O CDS quer jogar na antecipação, um dos segredos do jogo político e assume-o: "Clareza na orientação política, afinco na definição de políticas"; "Vamos continuar a estar um passo à frente. E quando me perguntam se não estamos a dar um passo maior do que a perna, a resposta é simples: não duvidei nunca dos passos decididos de um partido que sabe onde está"; "Outros resignam-se, nós arregaçamos as mangas!".

Atropelar o PSD

Rui Rio reagiu com bonomia às declarações dos centristas de que Assunção é melhor do que ele. "Tem de cumprir o seu papel, tem naturalmente de dizer isso”, comentou, no final do discurso da líder do CDS. À entrada, não quis falar. No palanque, Cristas foi especialmente seca. Referiu-se ao PSD como "um partido amigo" e lembrou que esteve no congresso dos sociais-democratas, onde "atestou a convergência de preocupações temáticas". Vai ser sempre assim - a disputa entre os dois para marcar campo eleitoral. Rio foi claro ao dizer que não está preocupado, o histórico dos resultados mostram como nunca o PSD se deixou ultrapassar pelo CDS em legislativas.

Importante durante o congresso foi a intervenção de Telmo Correia a este respeito, ao dizer que o PSD deu "espaço" ao CDS para crescer mais ao encostar-se ao centro. E criticou-o por estender a mão ao PS depois das legislativas de 2019. Os centristas acham completamente errada a estratégia de Rio em oferecer-se como eventual parceiro do PS, caso este ganhe as eleições legislativas com maioria relativa e não consiga reeditar a geringonça. Para o CDS, Costa está decidido a governar com a esquerda e oferecer-lhe outra hipótese só servirá para o fortalecer nas negociações com PCP e BE.

Três prioridades

Assunção Cristas traçou claramente as suas três principais preocupações: demografia, território e inovação. Será nestas áreas que apresentará propostas. Rui Rio, que é líder do PSD há dois meses, está concentrado nos acordos em torno da descentralização e dos fundos europeus. Cristas desfiou propostas como a criação de uma rede de cuidadores, um estatuto fiscal para o interior e captação de investimento direto estrangeiro para a economia digital.

As eleições são amanhã

Enquanto Rui Rio considera que falta muito tempo para as eleições, o CDS já lá vai lançado. Sábado, Cristas apresntou como cabeça de lista ao Parlamento Europeu Nuno Melo e domingo juntou-lhe mais nomes: o de Luís Pedro Mota Soares e Raquel Vaz Pinto. Sobre legislativas, anunciou a composição do grupo que vai redigir o programa eleitoral.

Marcelo Rebelo de Sousa tem chamado várias vezes a atenção para o clima de pré-campanha eleitoral e tem razão. António Costa e os seus parceiros já estão em disputa constante e a fazer contas para as próximas legislativas. O CDS é o primeiro a apresentar candidaturas para as europeias de maio de 2018, à semelhança do que sucedeu no congresso anterior em Gondomar, quando a própria Assunção Cristas se lançou como candidata à Câmara de Lisboa.

Assunção "Rocky" Cristas

Cristas inaugurou a expressão de "esquerdas encostadas" para designar PS, PCP e BE. Foi um fim de semana a zurzir em António Costa, sem esquecer a tragédia dos fogos no último ano, o volte-face do PS para conquistar o poder em 2015, as promessas que fez e não cumpriu como, por exemplo, nas Unidades de Saúde Familiar. Dirigentes como Cecília Meireles ou Diogo Feio atacaram duramente o Governo socialista a quem acusam de se considerar "o dono da democracia". "Fazer pactos com este PS é como fazer pactos com belzebu", disse, sem papas na língua, Nuno Melo. Não foi, pois, de espantar que no fim do congresso a secretária-geral-adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, convidada para a sessão de encerramento, tenha reagido com azedume. Lembrou até com ironia que o PS está disponível para dialogar com o CDS sobre... o corte de 600 milhões de euros nas pensões que a coligação PSD/CDS admitiu durante a campanha de 2015.