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Os sonhos e pesadelos de Marcelo ao fim de dois anos de mandato

José Caria

Outra geringonça, maioria absoluta de Costa, Bloco Central ou nova AD. Em Belém, reina a expetativa sobre o futuro. Esta sexta-feira, PR lança em Belém livro sobre o melhor e o pior do último ano

A entrada em cena de Rui Rio foi para Marcelo Rebelo de Sousa um misto de sonho e de pesadelo. A ausência do PSD na liderança da oposição pelo menos desde que Pedro Passos Coelho anunciou que sairia (e isso foi há cinco meses), somada à oposição de bloqueio sem espaço para qualquer diálogo com o Governo que o partido fez até aí, há muito que angustiava o Presidente da República. Mas a chegada de Rio não tranquilizou suficientemente o Presidente, que ainda tenta perceber melhor o que pode esperar e que não tem a certeza de poder afastar de vez os cenários políticos que mais teme.

Primeiro sinal: expectativa. Marcelo colou as audiências trimestrais que costuma fazer com os partidos ao congresso de consagração da nova liderança social-democrata. E deixou o PSD para o fim, logo no dia a seguir ao congresso e depois de ter tomado o pulso à esquerda e, sobretudo, ao primeiro-ministro socialista. Com o trabalho de casa feito, o PR seguiu, todo ouvidos, para o encontro com o novo opositor de António Costa. Segundo sinal: pressa. “O diálogo inicia-se hoje mas vai prosseguir nos próximos dias. Não acaba hoje”, afirmou o Presidente da República, uma hora após a primeira reunião com a nova direção do PSD. Marcelo anunciava no fim do primeiro encontro que já pensava num segundo. Não havia tempo a perder.

Terceiro sinal: dúvida existencial.“Vamos esperar para ver que propostas, calendário e interlocutores” estão em causa na agenda do novo líder da oposição, afirmou o PR. De Pedro Santana Lopes, que se tivesse ganho o PSD prometia feroz combate à ‘geringonça’, Marcelo sabia o que podia esperar. Mas, de um Rio Rio aberto ao diálogo negocial com Costa, o Presidente mantinha dúvidas, era preciso saber mais. Quarto sinal: esperança. A eleição de um novo líder da oposição é, para o Presidente da República “um passo importante para a democracia”, afirmou. Tudo junto, expectativa, pressa, dúvida existencial e esperança, dá o regresso ao ponto de partida: sonho ou pesadelo?, eis a questão.

BLOCO 
CENTRAL

“O Bloco Central não existiu nem existirá”, afirmou Rui Rio no congresso. António Costa disse o resto: “Quando se está bem acompanhado não se muda de companhia”. Aparentemente, não faz sentido falar de um Governo de Bloco Central. Mas o simples facto de o assunto ter voltado a ser assunto atormenta algumas almas, a começar pela do Presidente da República que, há um mês, numa reunião com assessores em Belém, reafirmou frontal oposição a um BC e explicou porquê: “É uma questão de sanidade do sistema”. Marcelo combate o Bloco Central há 40 anos e não parece ter razões para recear que das legislativas de 2019 saia uma solução de Governo que obrigaria Costa a fazer um flick-flack depois de em 2015 ter trocado um lugar de vice-primeiro-ministro (que Passos lhe ofereceu) num Governo PSD/PS por um acordo com o BE e o PCP. Mas reconhecendo Rio e Costa que há matérias que pela sua natureza e por transcenderem uma legislatura só podem ser mexidas na base de entendimentos entre os dois maiores partidos, ninguém arrisca enterrar para todo o sempre um cenário de Bloco Central. Há, aliás, quem garanta que ele está apenas adiado, quer na cabeça de Rio quer na do próprio Costa. Num dos seus últimos comentários na SIC, Marques Mendes espicaçava o primeiro-ministro e o líder do PSD — “Se me estão a ouvir, sabem do que estou a falar ...” — e lembrava que na Alemanha, o SPD, depois de muito resistir, admite um Governo de coligação com a CDU. Para Marcelo, o cenário improvável seria, a concretizar-se, uma derrota política. E um potencial desincentivo a uma recandidatura presidencial.

MAIORIA 
ABSOLUTA DO PS

Há uma coisa que Marcelo sabe que Costa deseja todos os dias: chama-se maioria absoluta. O PS está com 40% de votos seguros nas sondagens e se se aguentar até ao fim do ano não é líquido que com um 2019 de campanha eleitoral e um próximo Orçamento do Estado que se antevê um “OE simpatia”, o PM não consiga o suplemento que lhe permitiria bastar-se a si próprio. Não sendo o vexame de um Bloco Central, este cenário também entra na lista dos sonhos maus para o Presidente da República. Só há uma maneira de um PR gostar de um Governo maioritário — é gostar de chamar a si a liderança da oposição, como Mário Soares fez com Cavaco Silva. Mas Marcelo escolheu outro perfil e o seu poder, mais de influência do que de combate, precisa de governos minoritários. É por isso que o Presidente anda há dois anos a pedir ao PSD e ao CDS que se entendam e que construam uma alternativa clara e forte. Um Rui Rio mais simpático com o PS do que com o CDS enerva o Presidente. Bem como algumas frases de António Costa, como a que proferiu esta semana quando lhe perguntaram se, ganhando as eleições, preferia falar com a esquerda ou com o PSD: “Vamos esperar que seja o eleitorado a decidir o que quer na próxima legislatura...”. Difícil perceber de que é que o primeiro-ministro está a falar?

UMA NOVA 
‘GERINGONÇA’

Das horas de conversa que tem tido com o primeiro-ministro, Marcelo tem saído convicto de que, se ganhar as eleições com maioria relativa, António Costa começará por falar com os parceiros de esquerda que lhe permitiram, tendo perdido as eleições, sentar-se na cadeira do poder. Mas há duas maneiras de voltar a chamar o BE e o PCP; uma, genuinamente de esquerda, significaria adotar numa segunda legislatura uma agenda já não apenas para repor rendimentos ou manter os transportes na alçada do Estado mas que implicaria, por exemplo, reforçar os direitos laborais dos trabalhadores ou retirar os privados das áreas sociais; a outra, seria mera coreografia, ou seja, Costa falaria com a esquerda ciente de que já não haveria espaço para assinar acordos de legislatura, pelo menos com o PCP. E poderia, num segundo momento, virar-se para conversas com o PSD. Não havendo espaço para um Bloco Central, António Costa pode, neste caso, fazer um acordo de apoio parlamentar com Rui Rio.

u preferir governar à bolina, ora com acordos à esquerda ora com acordos à direita. António Guterres, que experimentou, não se deu lá muito bem. Para Marcelo, seria repetir o cansaço e o estímulo de uma nova ‘geringonça’. Sem ser um sonho, não é uma noite mal dormida.

UMA COLIGAÇÃO 
PSD/CDS

Este é o cenário que as sondagens dizem ser impossível: o PSD e o PS elegerem mais deputados do que a esquerda. A combativa Assunção Cristas já fez um slogan a preceito, chamado “116” — o número necessário — e Marcelo Rebelo de Sousa adorava que Cristas e Rio se entendessem. Para já, para travar António Costa. Depois, embora seja politicamente mais rico para um Presidente da República fazer as duas experiências — coabitar com um Governo que não seja do seu partido e depois com outro que seja da sua cor — não é líquido que Marcelo, se quiser recandidatar-se em 2020, não prefira ter António Costa no poder. O cenário de Cavaco Silva que, como primeiro-ministro, pôs o PSD a apoiar a recandidatura de Mário Soares, é um clássico nos sonhos dos Presidentes. Mas a cabeça de Marcelo é imprevisível.

Texto publicado na edição do Expresso de 09/03/2018