Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

O que Cristas quer no Congresso (e o que vai ouvir)

Rui Duarte Silva

No CDS, fala-se do Congresso marcado para sábado e domingo, em Lamego, como um momento de confirmação da líder, Assunção Cristas – o que não significa que não se ouçam por lá ideias diferentes e até haja quem se defina como oposição à liderança atual. Há dois anos, em Gondomar, Cristas era eleita presidente do CDS e levava uma moção que diz continuar válida, pelo que os seus objetivos se manterão neste conclave. Ao mesmo tempo, haverá quem a queira contrariar ou, em certa medida, desafiar, trazendo para cima da mesa temas como o “abandono” da matriz original do partido, a reforma do sistema político ou a posição da líder sobre os temas ditos fraturantes, como a eutanásia ou o aborto

O que Cristas vai dizer

Assunção Cristas já explicou que o documento de há dois anos se mantém válido e, numa revisão rápida da matéria, percebe-se que na generalidade dos assuntos o discurso é igual: em 2016, Cristas colocava como prioridades uma economia estável apoiada nas exportações, um país “amigo da família” ou a “celeridade na Justiça”, que tenta agora concretizar com um pacote de medidas para a área que está a ser estudado no Parlamento. Também se pode comparar o que dizia sobre a estratégia para as eleições seguintes: há dois anos, Cristas falava de uma “oportunidade” para o CDS se afirmar “como uma parte cada vez mais robusta de uma futura solução de Governo de centro-direita”; hoje, insiste em que o importante é que a direita concorra por separado para maximizar resultados e chegar ao número mágico dos 116 deputados, ou seja, à maioria. Uma diferença entre as duas moções: na anterior falava da matriz democrata-cristã do partido, nesta não o faz. O que nos leva às críticas que irá ouvir…

O que Cristas vai ouvir sobre ‘descafeinar o CDS’…

Rui Duarte Silva

O pragmatismo, ou desvanecimento da ideologia, será certamente um dos problemas que os seus críticos irão apontar. Filipe Lobo d’Ávila, que há dois anos se apresentou com uma lista e uma moção alternativa às de Cristas, dizia ao Expresso na semana passada que temia uma “viragem” ou até uma “inversão” do partido em matérias em que o CDS tradicionalmente assumiria posições contrárias muito claras, como o aborto, o casamento e a adoção por casais homossexuais ou um possível referendo à eutanásia, e que agora parece dar por “arrumadas”. Abel Matos Santos, da Tendência Esperança e Movimento (TEM), a única corrente interna formal do partido – diz ao Expresso que o CDS “tem faltado a esse compromisso” e que há um “relativismo moral” que põe em causa a doutrina do partido, que coloca a vida humana no centro. E Pedro Borges de Lemos, que ao Expresso se define como a única oposição real a Cristas e que levará igualmente uma moção global, “Presente no futuro”, também se define frontalmente contra o aborto.

Outro exemplo seria o acordo ortográfico, uma vez que para Lobo d’Ávila a posição do CDS deveria também ser contrária, mas na prática, recentemente, só o PCP votou a favor da suspensão do acordo no Parlamento. O TEM é da mesma opinião, defendendo que como “partido patriótico”, o CDS deveria adotar esta “causa”.

Para Pedro Borges de Lemos, o CDS não deve “diluir-se num pragmatismo” que o leve a assemelhar-se ao PSD. Já Abel Matos Santos teme que se esteja a “esvaziar o partido com intuito de ser o PSD azul e branco, um partido catch-all”. Em resumo, “a descafeinar o CDS”. Entre os mais jovens, e mesmo sem crítica à liderança atual, a ideia é a mesma: a Juventude Popular, liderada por Francisco Rodrigues dos Santos, defende uma viragem à direita, “direita que conquista o centro, que lhe concede identidade e sabe imprimir-lhe rumo”. E rejeita liminarmente uma posição do CDS no “centrão”, que se traduziria numa descaracterização do partido: “A equidistância dos polos, própria dos que apregoam ‘vender a alma ao diabo’ a preço de saldo, mais não é do que do que defender, no domínio das ideologias e do pragmatismo, tudo ao mesmo tempo, o mundo e o seu contrário, no fim de contas, não advogar rigorosamente nada digno de credibilidade”.

Rui Duarte Silva

As diferenças também se acumulam no que toca à estratégia escolhida por Cristas para concorrer às eleições. Borges Lemos defende que é uma “falta de ética” o CDS, que “manifestou em peso o desagrado” com a solução que o PS minoritário encontrou para governar, venha dizer agora que os tempos mudaram e para governar só é preciso ter a maioria dos 116 deputados. E considera a estratégia errada: “Parece que votar PSD ou CDS é indiferente”.

… sobre a exclusividade dos políticos e o SMO

Muitas das propostas que vão ao Congresso têm a ver com o próprio sistema político. Enquanto Borges Lemos defende a “exclusividade de funções dos políticos, para não dispersarem nem haver conflitos de interesses” – um processo que deve ser iniciado pelo CDS, para “arrumar a casa” – a TEM quer “limitação de mandatos” para os titulares de todos os cargos políticos, ou seja, incluindo deputados, assim como a criação de um sistema misto com círculos uninominais (mais um círculo nacional de compensação) para as legislativas, e a realização de primárias diretas para escolher os candidatos do partido. Tanto Borges de Lemos como Lino Ramos, antigo secretário-geral do partido, na sua moção “O CDS somos todos nós”, defendem que a eleição do líder (assim como dos representantes do partido) passe a ser feita por eleições diretas, envolvendo assim os militantes. Lino Ramos defende também que haja uma abertura do partido a simpatizantes.

Miguel Mattos Chaves, que há dois anos se apresentou a única moção de estratégia global além da de Cristas mas se ficou pelos 11 votos contra os 877 conquistados pela nova líder, volta com novo texto (“Um serviço a Portugal”) e propõe a criação de um “governo sombra”, como representantes para cada área ou ministério, no CDS.

Nas propostas da TEM como nas de Mattos Chaves, destaca-se ainda a ideia de “repor o serviço militar obrigatório”.

Há ainda que olhar para a proposta da Federação dos Trabalhadores Democratas Cristãos, que na moção “Novos Tempos, Novos Desafios, o Mesmo Propósito – Servir Portugal” defende a redução do número de deputados e a escolha de parte dos deputados seja feita de forma uninominal pela “sociedade civil independente”.

… sobre um sistema de prémios no partido

Rui Duarte Silva

Na linha das soluções olhando para dentro do partido, João Gonçalves Pereira, antigo deputado do CDS e vereador pelos centristas na Câmara de Lisboa, propõe na sua moção “Portugal: Compromisso de gerações” uma diferente organização dos secretários-gerais do partido, que passariam a ficar mais concentrados nas respetivas regiões do país, com mais tarefas delegadas, entre elas a de verificar o cumprimento de uma série de objetivos (eleitorais, de implementação, entre outros) que os representantes locais do partido teriam de honrar e pelos quais teriam uma compensação (como a representação em certos órgãos, por exemplo).

Não é a única proposta: no texto, fala-se também da criação da figura do militante digital, numa abordagem mais moderna e mais virada para os mais jovens, além da hipótese do voto aos 16 anos em eleições autárquicas. Cristas tem, aliás, referido que a solução mais “irreverente” e fresca para os mais novos pode ser, atualmente, o CDS.

… sobre Europa e educação

Além das oito moções de estratégia global, serão ainda apresentadas neste Congresso oito moções setoriais, ou seja, dedicadas não ao rumo geral do partido mas a áreas concretas. Entre estas contam-se por exemplo a proposta de Pedro Mota Soares (“Portugal Território e Mar”) que se concentra em temas como os fundos comunitários para a próxima década (sendo que o CDS já apresentou uma proposta para o tema no Parlamento) e insiste na criação do estatuto fiscal do interior; a moção do eurodeputado Nuno Melo (“mais Europa, menos Bruxelas”), em que defende uma Europa com menos burocracias e que respeite as diferenças entre partidos, sem cair num espírito de federalização; e a da deputada Ana Rita Bessa (“5 prioridades para a educação”), que quer tornar autónomos os ensinos secundário e superior (alterando a importância que têm os exames nacionais neste processo) e apostar na liberdade da educação, defendendo a hipótese de “escolha das famílias”.