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Lóbi judaico acusa Ana Gomes de promover antissemitismo. “Não me intimidam”, responde a eurodeputada

Organização de conferência no Parlamento Europeu sobre colonatos israelitas na Palestina resulta em troca de acusações. Lóbi judaico critica Ana Gomes por convidar um suposto “anti-semitaÏ. Eurodeputada portuguesa diz que o lóbi em causa “é extremista” e não representa o povo de Israel”. “Essa gente está habituada a intimidar mas não me intimidam”, diz

A eurodeputada portuguesa Ana Gomes está a ser acusada de ter promovido o anti-semitismo no Parlamento Europeu, por ter convidado o defensor dos direitos humanos e fundador do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), Omar Barghouti, a participar na conferência "Os colonatos israelitas na Palestina e a União Europeia", que organizou esta semana em conjunto com a União Geral das Comunidades Palestinianas na Europa.

A acusação é feita pelo AJC Transatlantic Institute e tem por base o facto de o lóbi judaico considerar Berghouti "um extremista", cujo movimento BDS tem protagonizado "repetidas afirmações anti-semitas". Mas Ana Gomes refuta as acusações, garante que o lóbi em causa é que "é extremista", "não representa o povo de Israel" e está a alimentar "conotações racistas e intenções destruidoras a quem quer a paz com Israel, como Omar Barghouti".

"Essa gente está habituada a intimidar, mas a mim não me intimidam", responde a eurodeputada ao Expresso quando confrontada com as críticas feitas pelo AJC Transatlantic Institute em comunicado e em carta enviada ao presidente o Parlamento Europeu (PE), Antonio Tajani. "Não me arrependo de ter organizado esta sessão. Pelo contrário, sinto-me honrada", garante.

Entre as acusações citadas na carta enviada a Tajani , o AJC Transatlantic Institute argumenta que Barghouti já terá assumido publicamente que "jamais algum palestiniano aceitará um estado judaico na Palestina", e comparado o Estado israelita ao regime Nazi, referindo-se à faixa de Gaza como a "um campo de concentração" e a uma "solução final de Israel" contra o povo palestiniano.

Depois de ter recebido essa carta, Tajani comunicou - também por carta – a Ana Gomes que estava no seu direito de organizar a sessão em causa, sublinhando no entanto a "responsabilidade pessoal" que a eurodeputada teria de assumir para que o evento não se transformasse numa "plataforma de apoio ao anti-semitismo". Algo que Ana Gomes garante não ter ocorrido.

Recordando que defende "uma solução de dois Estados" e que para que esse caminho seja feito "é preciso falar com todos, nomeadamente os que sofrem com a ocupação ilegal dos colonatos", Ana Gomes refuta as acusações que são feitas ao movimento de Barghouti.

"A BDS defende a via pacífica para a resolução do conflito com Israel e tem até o apoio claro de alguns sectores judeus. Não tem é das áreas mais reacionárias que estão no poder e que impedem o diálogo", prossegue Ana Gomes, reiterando uma das críticas que fez durante a conferência e que suscitou logo na altura forte contestação dos representantes do AJC Transatlantic Institute: "Estamos a falar de um lóbi perverso e maléfico", insiste.

"Essa gente pressionou para que a sessão não acontecesse. Mas puderam participar, democraticamente e tomaram a palavra e questionaram os intervenientes", contextualiza Ana Gomes.

A iniciativa não teve o apoio formal do grupo socialista no Parlamento Europeu e o AJC Transatlantic Institute refere mesmo que durante a sessão terá sido retirado da sala um cartaz que identificava a bancada socialista e democrata, depois de uma queixa da AJC. "Eu sou socialista e assumo-o. Não tiro o meu chapéu", diz, desvalorizando o erro do seu gabinete que levou a que esse cartaz tivesse sido exposto no início e lamentando que a retirada do cartaz durante a sessão se tenha prestado a duplas interpretações.

"Eu não me deixo intimidar, mas há quem deixe. E a verdade é que hoje há cada vez menos discussão europeia sobre o processo de paz entre Israel e Palestina, que é um cancro nas relações internacionais. Quando eu cheguei ao Parlamento Europeu discutia-se mais este tema", sublinha, antes de concluir que a polémica suscitada por esta sessão tem algum significado.

"Se esse lóbi se deu ao trabalho de se mobilizar para impedir a iniciativa e se está a mobilizar agora para criticar-me, então é porque estou a fazer algo bem", ironiza.