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Ramalho Eanes: “Não há inevitabilidades, quem escreve o futuro são os povos”

Está esperançado mas preocupado. Elogia a solução política atual por ter quebrado o princípio da inevitabilidade e considera a ação do PCP patriótica. Mas receia que a abstenção supere os 50%, o que poria em causa a legitimidade eleitoral. “Socialmente, sou um homem de esquerda”, diz, convencido de que o crepúsculo da esquerda europeia será passageiro — e que os valores da solidariedade estão a reemergir. Mas a paz mundial não está garantida

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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antónio pedro ferreira

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o homem público sabemos sempre mais o que é do que quem é. E se sabemos o que António Ramalho Eanes é, isso é também porque ele próprio não só não contesta as máscaras coladas pela sua ação política como também porque promove uma imagem institucional, que assume com gravidade no segundo em que o gravador é ligado — e desarma mal ele é desligado, para nos falar dos netos ou contar (muitas) histórias. No final da entrevista, há de acompanhar-nos à saída do prédio onde tem o seu gabinete, em Lisboa, ficando a acenar da porta. Foi Presidente da República logo a seguir ao 25 de Abril (de 1976 a 1986), ou melhor, logo a seguir ao 25 de Novembro, a que ficou indelevelmente ligado. Quando tomou posse, tinha apenas 41 anos. Fez na semana passada 83.

Como vê o país hoje? Era o que imaginava no 25 de Abril ou no 25 de Novembro?
O país não é o que eu imaginava, mas talvez a minha imaginação na altura fosse extremamente ambiciosa. Olhando hoje para o país, há uma coisa muito interessante que se deve a este Governo. Tínhamos aceitado um pouco acriticamente o princípio da inevitabilidade, éramos um país pobre, tínhamos de continuar a sê-lo, estávamos na cauda da Europa, tínhamos de continuar aí. Esse princípio de inevitabilidade foi posto em causa por esta solução política. Mostrou que existem outras soluções e soluções ambiciosas. Além disso, conseguiu fazer uma coisa fundamental: reconstituir de alguma maneira a unidade popular. Não estou a falar de unidade nacional, mas de unidade popular.

Como define essa unidade popular?
Ela é a convicção de todos os que trabalham num país — homens, mulheres, nacionais e estrangeiros — de que trabalhando em conjunto vão viver melhor. Essa convicção renasceu, o que é muito importante, porque não há mudanças reais sem que a população esteja empenhada. Tem havido também um crescimento económico, redução do défice, subida pelas empresas de notação, tudo isso é positivo.

Isso satisfá-lo?
Não. O investimento continua extremamente baixo e as grandes reformas que são indispensáveis não foram feitas. Devia aproveitar-se este momento economicamente bom para as fazer. Quando olho para as reformas necessárias, pergunto-me — plagiando Delors — se será assim tão difícil substituirmos a cultura interpartidária do conflito pela consensualização. Não digo completa, que descaracterizasse ideologicamente as formações partidárias, mas sobre o essencial. Temos problemas gravíssimos.

Quais?
Natalidade baixíssima, o que nos vai trazer problemas de toda a ordem, incluindo económica e social — não teremos população necessária dentro de alguns anos para satisfazer as necessidades de trabalho que a economia determina. E, se não temos população jovem preparada e capaz, como vamos responder aos desafios da economia digital, da economia verde, da economia circular? Como vamos manter a segurança social? Dentro de poucos anos haverá três trabalhadores para dois reformados. É extremamente preocupante. Depois, acabámos por concentrar a nossa população no litoral, como se o interior não existisse. E continuamos com uma competitividade extremamente baixa em relação à média europeia, e modificá-la não é fácil, porque exige coisas que não fizemos. Temos infraestruturas relativamente boas, mas temos um sistema de educação em que o universitário é razoável mas o secundário é mau. Quando olhamos para o abandono escolar ficamos preocupados e quando olhamos para a percentagem de jovens que terminam o secundário e o universitário também ficamos. O desemprego jovem mantém-se alto e não havendo emprego motivante os jovens vão para o exterior. Os que vão são os melhores, possivelmente não os melhores academicamente, mas os que têm mais capacidade de arriscar, mais ousadia, com uma vocação empreendedora maior.

É um retrato preocupante.
Sim. Em 2020 vamos entrar num período novo, em termos de organizações europeias, porque há um projeto de renovação que parece ir por diante. Só neste semestre a União Europeia fez um trabalho notável: criou condições para o acordo de Paris sobre o clima, consolidou o polo social olhando para o emprego, para os desfavorecidos, para a miséria, e avançou em matéria de defesa. Estou convencido de que fará um trabalho ainda mais importante por causa do duo Macron e Alemanha — não apenas Merkel mas também o SPD. A economia mundial e a europeia estão a crescer e isso vai criar condições extraordinárias para refazer a arquitetura europeia, dando-lhe uma estrutura capaz de defender os valores matriciais através de uma operacionalização política sistemática. O que aconteceu e levou as populações, incluindo a portuguesa, a divorciar-se do projeto europeu é da responsabilidade dos políticos que não souberam defender esses valores, nomeadamente o da solidariedade. Com a recuperação que temos estado a fazer e a nova vaga de jovens com formação académica elevada, também temos condições para fazer as reformas necessárias. Isso exige acordos interpartidários, um pacto ambicioso entre os partidos e a sociedade civil, sobretudo com as forças sociais, que defina uma estratégia e estabeleça um horizonte que os portugueses percebam e os motive.

Esse trabalho tem de ser feito pelos partidos?
Sim, em diálogo com a sociedade civil. Com os partidos a elaborar pactos sobre as reformas indispensáveis — como a educação, ou fazer com que a economia possa funcionar de maneira equilibrada em períodos de expansão e de recessão. Isto implica responder à questão da dívida, que é asfixiante, e que continua a crescer, apesar de tudo.

Mas está otimista, diz, quanto à mobilização do país.
Estou esperançado, mas preocupado. Os portugueses continuam a refletir pouco e agora refletem menos porque têm uma informação inundante. Era Unamuno que dizia que os povos peninsulares são infilosóficos, mas o mais infilosófico é o português. E embora isso se tivesse modificado, não foi suficiente.

Porque diz isso?
Quando olho para o consumo fico preocupado. O que me toca não é o volume, é o destino: há portugueses que se endividam para ir de férias. Compreendo que se faça isso para comprar casa, no limite para comprar um carro, mas para ir de férias? Os portugueses não estão a refletir convenientemente sobre o que é o estado real do país, que não é rico e não ultrapassou a crise, porque ela persiste. Esta crise não é igual às outras, é de rutura. Exige novas respostas, novos métodos, uma grande mobilização e, naturalmente, muitos recursos.

Imagem. O político institucional, de tom grave, e o homem privado, que fala dos netos e conta histórias. António Ramalho Eanes, 83 anos

Imagem. O político institucional, de tom grave, e o homem privado, que fala dos netos e conta histórias. António Ramalho Eanes, 83 anos

Os portugueses não aprenderam com a experiência recente?
Parece que muitos não aprenderam o suficiente. Esta procura exagerada de crédito, sobretudo destinada a consumos supérfluos, não é saudável, não é pelo menos virtuosa.

A que atribui isso?
Tem uma explicação sociopsicológica. Um povo que é atirado para uma situação de grande depressão e é convencido de que dali não sai, e de repente assiste a ações que o fazem sair dessa situação depressiva, fica como que eufórico. É natural mas espero que seja uma euforia passageira, como espero que o Estado e a informação atuem de maneira que haja consciencialização e que voltemos a uma situação de racionalização de comportamentos sociais.

Diz que esta solução governativa contrariou o princípio da inevitabilidade...
Não há inevitabilidades. O futuro não está escrito em parte nenhuma, quem o escreve são os homens, os povos.

...mas também defende um ambiente partidário favorável a reformas de longo prazo. Esta solução governativa não é favorável a essas reformas?
Esta solução tem muito mérito, e naturalmente o mérito democrático, porque havia formações partidárias fora do jogo da responsabilidade democrática pela ação política e agora já não é assim. A democracia beneficiou com isso. Há a tendência para responder a questões sociais, que são razoáveis em si, mas não tanto se olharmos o contexto geral do país, nomeadamente o económico-financeiro.

Lutou muito contra o PCP, quando este defendia uma visão não democrática, e depois lutou pela sua legitimação enquanto força democrática. Como o vê entrar num entendimento com o poder?
O PCP é um partido com uma ideologia que se conhece, mas muito pragmático. Tive ocasião de o constatar durante o meu longo contacto com Álvaro Cunhal. O PCP sabe olhar a realidade, ler a realidade, responder à realidade. Percebeu que o governo anterior se tinha deixado aprisionar por uma ação política que era necessário impedir que continuasse. Considero a ação do PCP correta e patriótica. Mas não podemos pedir ao PC que se desconfigure: tem uma orientação determinada pela sua interação com os militantes que tem de respeitar, que é motivada pela sua ideologia, que tem de se afirmar. Tudo isso cria algumas dificuldades em respostas que poderiam ser dadas neste período de expansão económica.

E como vê esta solução no contexto da democracia, visto que um dos nossos problemas é a má imagem dos partidos?
Não é inteiramente verdade. A má imagem dos partidos existe em toda a Europa. Houve um divórcio progressivo dos partidos em relação à população em geral, incluindo na Alemanha. Porque é que neste país surge o partido da Alternativa para a Democracia (AfD)? Porque é que na França o partido de Marine Le Pen cresceu tanto? Porque é que nos países europeus do Leste há uma certa regressão democrática — chama-se até idemocracia? Porque é que Itália tem um populismo agressivo e ameaçador? Segundo os politólogos, isso aconteceu porque os políticos esqueceram-se de responder às promessas que tinham feito e não viram as mudanças que se estão a operar nas sociedades, que são mais preparadas e esclarecidas. A democracia representativa só já não chega, são precisas outras formas de democracia. As eleições são indispensáveis, mas a democracia representativa deve ter o cuidado e a capacidade para juntar novas formas de representação que possam dinamizar a relação entre os políticos e os cidadãos. Por outro lado, a dialética esquerda-direita, que era extremamente positiva, perdeu peso, dimensão e efeito.

O que é que isso significa?
Que a esquerda deixou de produzir intelectualmente, de estar em evidência em países onde tinha uma larga tradição, acabou por aceitar o liberalismo de alguma maneira e, quando governou, não apresentou alternativas. Aquilo que eram os seus dois grandes desígnios, a igualdade e a solidariedade, estão muito descaracterizados. A igualdade acabou num certo igualitarismo perverso e acabou por aceitar-se que a solidariedade se fosse transformando numa espécie de solidariedade assistencial. Não é essa a tradição da esquerda.

O que há a fazer?
Criar utopias realizáveis. Pergunto: como vamos responder às consequências da economia digital, que exige grande preparação? Pode fazer-se com sistemas educativos capazes, como está a acontecer agora em França. O ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, tem um programa extremamente ambicioso para acabar com o insucesso e o abandono escolar. E faz isso acabando com o facilitismo, acabando com o igualitarismo e com o pedagogismo que têm dado cabo do sistema francês. Esse ministro pôs os miúdos que se atrasam a serem apoiados e fez uma coisa muito interessante, mudou a escola de modo a que, como qualquer boa organização, cada escola tem um propósito, tem o controlo e tem uma equipa. E fez uma coisa que nós não conseguimos fazer ainda, que é haver uma avaliação sistemática dos professores. A antiguidade não serve em parte nenhuma.

Também está a falar das escolas portuguesas.
Nós permitimos que os pais duvidem da escola, que os professores duvidem da instituição e que haja um domínio absoluto dos sindicatos. Os sindicatos são indispensáveis e são uma vitória importante da democracia, mas é necessário que não impeçam que se adquira o mérito, que as avaliações por mérito sejam feitas sistematicamente e que os que mais mérito têm sejam os mais premiados. O problema da igualdade é tão velho quanto o homem. Cícero falava da igualdade diferenciada no aspeto social. Igualdade que permita dignidade a todos, mas diferenciada de acordo com o mérito. Uma sociedade que não é capaz de premiar o mérito ameaça tornar-se decadente. Tudo isto para dizer que o mal da democracia não é um mal português, mas de todas as democracias avançadas da Europa.

Como se resolve?
Nas eleições de 2015 metade dos jovens não votou. Se os que são o futuro não participam no presente, há algo muito errado. Os partidos têm de ser mais atrativos, mais competentes, eficazes e ter um diálogo com a população muito mais aberto, uma interação que permita que esta participe na governação através da colaboração, da contribuição, da crítica, da reivindicação, se necessário.

Os partidos não estão esgotados, portanto.
Não. Mesmo aqueles que dizem que se vai chegar a uma democracia avançada estão de acordo num ponto, que é dirimir os conflitos interinstitucionais no ato eleitoral. Nesta altura, não se vê ainda uma solução diferente e melhor que a representatividade. É necessário que ela seja efetiva, dinâmica, gratificante para a população, para impedir que se caia nos populismos que constatamos e que acabam por privilegiar de maneira perversa o referendo ou redundem na posição inaceitável do nacional-protecionismo: ser contra os estrangeiros, os imigrantes, os refugiados, tudo o que foram as grandes conquistas da democracia europeia.

Ao longo dos anos defendeu a socialização da política e a politização da sociedade. Fala agora dos populismos. São elas a maior ameaça à democracia?
A maior ameaça é chegarmos a um ponto em que a população que vota é inferior a 50% da população real, o que pode levar à contestação das eleições. A legalidade é importante, mas a legitimidade é-o ainda mais. Temos de reatualizar o sistema partidário e as suas relações com a sociedade civil. Representatividade, com certeza; eleições, indiscutivelmente; mas é necessário olhar para novas modalidades organizativas da sociedade civil, as suas associações e representações para manter o diálogo vivo. Isto é tanto mais importante quanto a informação hoje, de maneira geral, não esclarece. Na informação dos novos meios, a emocionalização sobrepõe-se à racionalização. Quando aparece uma grande questão era interessante que ela fosse discutida por especialistas que estivessem a favor e contra, de modo a que não houvesse uma leitura simplista mas complexa. Todos os problemas o são.

Lar. António Ramalho Eanes, fotografado na passada semana, em casa, em Lisboa, com um dos seus animais de estimação

Lar. António Ramalho Eanes, fotografado na passada semana, em casa, em Lisboa, com um dos seus animais de estimação

Hoje é-se político por via partidária. Se os partidos estão na situação que descreve, como se rompe o círculo?
Temos observado que os partidos vão procurar mais independentes. Se querem abrir-se à sociedade civil, talvez não seja o suficiente, têm de esforçar-se por atrair os jovens, tanto mais que têm melhor formação académica e estão em condições de desempenhar um trabalho político de maior qualidade. Não é fácil, porque os partidos são ainda clubes relativamente fechados e é necessária a ação de quem os lidera para evitar a partidocracia, na qual o que conta é o aparelho.

Assiste-se à perda, do ponto de vista eleitoral, do centro político em vários países europeus. O que preconiza isso para Portugal?
Olhando a história, estou convencido de que este crepúsculo da esquerda será passageiro. Hoje as coisas não são tão simples como eram, a globalização e a geopolítica criaram condições que não são propícias à esquerda, mas elas podem ser alteradas. Hoje é-se dominado por uma mistura de individualismo no plano social e ultraliberalismo no plano económico. Tem havido uma insistência em mostrar que depois da queda do muro de Berlim e do socialismo real de Brejnev só há uma solução, mas não há só uma, há várias. A Europa foi dominada por este pensamento até há pouco tempo e começa a emergir uma posição diferente, com uma preocupação em acentuar o polo social, com o emprego, os desfavorecidos, o que demonstra que a solidariedade está a recuperar um papel. Quando as medidas que se preconizam na UE trouxerem uma reemergência dos seus valores matriciais, possivelmente vai emergir uma nova esquerda e ela terá um papel importante na Europa.

O senhor coloca-se à esquerda?
[Pausa] Socialmente, sou um homem de esquerda. Economicamente talvez não o seja no sentido tradicional, porque é necessário encarar a vida económica com grande pragmatismo, por saber-se que há uma globalização em curso e uma geopolítica preocupante em que nem sequer a paz mundial está garantida. Nem é apenas olhar para as afirmações de Trump nem para o orçamento militar americano, que cresceu exponencialmente este ano, é olhar também para o rearmamento da China, Rússia, Turquia, Irão, Arábia Saudita, e a reconfiguração das alianças no Médio Oriente, Estados Unidos-Arábia-Israel e Irão-Rússia-Turquia [ver caixa]. E depois, a globalização tem de ser encarada com cuidado porque dela têm resultado benefícios, mas também promete desenhar ameaças na estabilidade financeira mundial, com o problema da China e dos EUA. Passámos de uma economia fordista para outra completamente diferente, que vai trazer uma exigência maior de qualidade escolar e profissional e determinar um grande número de desempregados. Para esta nova situação as medidas clássicas de esquerda não chegam e as que a direita promete são insuficientes. É necessário pragmatismo e esperar que os intelectuais e os investigadores sociais procurem soluções, que terão de ser inovadoras e acabarão por não se situar nem no paradigma da esquerda nem no da direita.

Mas é ainda à esquerda e à direita que definimos referências para o Estado. Tendo em conta os incêndios de 2017, é preciso olhar para o papel e para a forma como o Estado está a desempenhar as suas funções?
A direita durante muito tempo explicou que o Estado devia ser mínimo, o que não parecia muito razoável. O Estado deve ser o necessário, ter a dimensão para responder às suas obrigações, que não são só a segurança, a justiça e a defesa. Num Estado social, são muito maiores. Chegámos à conclusão de que os governos — não este, mas todos desde Abril — não tinham cumprido o seu papel em relação ao interior. Mas também nós, as populações, não cumprimos. Permitimos que o interior se fosse paulatinamente desertificando, através da eliminação da representação de diversos serviços nessas localidades, não fizemos uma política de natalidade e não criámos incentivos à fixação de jovens, o que teria sido possível, por exemplo, como dizia Vitorino Magalhães Godinho, através da ajuda à fixação de novos agricultores, filhos das escolas agrárias ou pecuárias, aos quais fossem dadas terras com dimensão suficiente e apoio financeiro para criarem explorações integradas e de turismo. Podíamos ter feito isso, utilizando, por exemplo, alguns dos fundos estruturais postos à disposição pela União Europeia e envolvendo capacidade das Forças Armadas (FA) — aliás, o que fizemos em relação às FA foi de alguma maneira acantoná-las, pô-las num gueto. Em vez de utilizarmos as suas capacidades para integrarem as potencialidades nacionais e serem geridas de uma maneira integrada, fomos reduzindo a capacidade e responsabilidades dos chefes dos Estados-Maiores [ver caixa].

Concorda que o Estado falhou, nos incêndios, nos seus deveres essenciais?
O que aconteceu é consequência de um cúmulo de razões, algumas das quais são da responsabilidade direta do Estado. Além das razões que apontei, haverá uma resposta insuficiente dos órgãos de proteção civil, dos corpos de bombeiros, apesar da sua dedicação, e de uma incapacidade em aproveitar a instituição militar. Fogos haverá sempre, dado o tipo de floresta que temos, mas poderiam não ter tido aquela dimensão trágica se o Estado não deixasse despovoar o interior, se tivesse uma política de proteção cuidada, continuada por indivíduos cada vez mais competentes; se tivesse feito uma reforma fundiária na área florestal que permitisse a existência destes novos empresários e se naturalmente tivesse uma proteção civil suficientemente capaz.

Nestes incêndios, houve uma intervenção muito visível do Presidente da República. Sabemos que há um acordo tácito entre antigos presidentes de não se comentarem, mas como vê essa participação e o papel do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa?
Quero respeitar esse acordo. Mas para lhe responder sem responder, quero dizer-lhe que quando houve o acidente de Alcafache [desastre ferroviário em 11 de setembro de 1985, do qual terão resultado um número de mortos nunca apurado, entre 40 e 200] eu estive lá; quando houve o sismo dos Açores também, fui num C-130 e levei um corpo de intervenção militar. Em situações de gravidade, o homem que representa todos os portugueses deve estar com os portugueses.

No interior, defende um ambiente político para...
Sou do interior e mesmo a área de mata está dividida em frações tão pequenas que não se pode esperar que o seu proprietário as limpe; não tem meios para isso. É necessária uma reforma fundiária. As empresas da pasta de papel têm grandes áreas de floresta e aí não tem havido incêndios ou quando os há têm resposta imediata. Há aqui culpa do Estado, dos governos e da população em não haver uma deteção e uma resposta suficiente, nem uma melhor resposta para os incendiários.

A reforma fundiária mexe com o direito de propriedade, salvaguardado pela Constituição. O entendimento partidário deve ser no sentido de alterar a Constituição?
A Constituição não é espartilho, é uma garantia. E, como diz Jorge Miranda, deve ajustar-se ao corpo nacional a que diz respeito. Se houver preceitos que se desatualizaram ou que impedem medidas indispensáveis para o futuro do país, modifica-se. Não estou a dizer que os proprietários devam ser expropriados, mas que o Estado pode comprar os terrenos que os proprietários queiram vender ou arrendar, e pode exercer uma certa coação sobre os que não querem fazer nem uma coisa nem outra, nem querem cuidar. A propriedade agrícola tem também uma função social. Devemos respeitar o direito de propriedade, indiscutivelmente, mas não nos devemos esquecer do direito social. Se há comportamentos que são contrários ao interesse comum, modificam-se.

Como olha hoje para a União Europeia? Depois do ‘Brexit’, com os novos mecanismos na UEM...
Cheguei a estar muito dececionado. Há muito que acompanho a Europa e o papel da sua líder, Angela Merkel. A Europa não era capaz de desenhar uma estratégia de futuro, chegava tarde e de maneira insuficiente aos problemas que se levantaram, e quando eram tomadas grandes medidas, como as que tomou Mario Draghi, manifestou grande discordância ou ficou calada. A situação hoje é muito diferente: a Europa sofreu uma crise, sentiu-se ameaçada, perdeu unidade — a decisão de saída da Grã-Bretanha foi positiva neste sentido, despertou a Europa. A Europa, que entendia que não devia gastar com a defesa porque os EUA lha garantiam, agora chegou à conclusão contrária. O tempo veio mostrar que a Europa não é uma zona geopoliticamente importante para os EUA, por isso tem de cuidar da sua própria defesa. Por outro lado, a Europa aprendeu muito com a crise, percebeu que não tinha inovado suficientemente, mas também que se tratava de uma crise de solidariedade.

Por causa dos refugiados?
Não há uma ameaça dos emigrantes e refugiados, mas há uma necessidade imperativa dessa gente, no imediato. Na Europa haverá mais de 150 milhões de estrangeiros e admite-se que em 2050 sejam mais de 300 milhões. Há um problema de natalidade, a Europa sofre de falta de mão de obra e não pode ser só a Alemanha a resolver este problema. Com tudo isto, a Europa acabou por reconhecer que se atrasou na defesa, na segurança de fronteiras, mas também na automação, na inteligência artificial...

Ou seja, a Europa percebeu que tem de mudar.
Ou se modifica e tem uma nova arquitetura, democratiza-se e torna-se mais solidária, ou não tem futuro. Ela tem de responder a quatro condições: uma é a limitação e identidade, a Europa é de valores, com Estados de direito democrático e isso deve levá-la a rever a sua posição em relação à Turquia. A Europa não pode permitir separatismos tipo Catalunha, para o qual são invocadas razões históricas que, em boa verdade, de História têm muito pouco. Segundo, é preciso uma arquitetura institucional para responder a novas situações de crise, porque elas virão, eventualmente, até por efeito da dívida externa dos EUA ou pelo novo modelo económico da China, que se voltou para o consumo interno privado e para o financiamento das empresas chinesas. Depois, a Europa tem de responder ao problema da emigração e dos refugiados, estabelecendo normas claras e transformando o que é uma guarda fronteiriça incapaz, a Frontex, numa outra eficiente. E tem de fazê-lo respondendo ao terrorismo, cuja ameaça aumentou. Ao ser derrotado, o Estado Islâmico (EI) vai fazer o que é estrategicamente inevitável: se perde território, vai expandir-se por outros novos; vai desmobilizar homens na área e fazê-los regressar aos países de origem, França, Bélgica, Alemanha, Holanda e Inglaterra, que constituirão uma espécie de “quinta coluna”, que irá reaparecer quando necessário. Os países do Norte de África vão também receber combatentes que estavam no EI e os que combateram ao lado de Bashar al-Assad, que também está a desmobilizar. Isto implica que a Europa disponha de um sistema de informações que não pode ser um somatório de sistemas, mas em que a colaboração é indispensável e imediata. E, finalmente, a Europa tem que olhar para a defesa. Até aqui, esta não era uma prioridade, e não se sabe ainda qual será a ligação que a Inglaterra, que é uma potência atómica, terá depois do ‘Brexit’.

E há a estabilidade financeira.
A moeda única implica uma estabilidade financeira que não está garantida, há uma divergência face aos países do Sul. Há várias propostas de reorganização, algumas estão adquiridas, outras serão discutidas e terão de ser implementadas até às eleições para o Parlamento Europeu. A mais importante tem a ver com a criação de um Fundo Monetário Europeu, uma unificação fiscal e social, porque não é possível haver 27 sistemas fiscais diferentes e em competição aberta. Mas não é só isso. São necessárias modificações significativas na área social, nomeadamente criar uma solução solidária para o desemprego, e que se conclua a união bancária, para que a segurança dos investidores bancários não fique confinada a cada país, mas seja entregue ao conjunto dos países da UE.

Estão criadas as condições para a mudança?
Há agora melhores condições do que nunca. Há uma maior consciencialização na Europa, houve um grande susto nas eleições francesas, uma situação particular na Europa Oriental e a própria solução política alemã CDU/CSU-SPD há de ser mais aberta, tanto por força do próprio SPD como da aprendizagem da senhora Merkel, que percebeu que os populismos, afinal, não aconteciam só fora, o partido de extrema-direita de inspiração nazi tem cerca de 90 lugares no Parlamento. A segurança da Alemanha deriva da segurança europeia e a sua estabilidade económica também depende do mercado europeu. Há boas condições para a Europa adquirir uma nova arquitetura e respeitar os seus valores, que podem fazer dela uma potência tranquila capaz de manter uma certa intervenção de pacificação no mundo, obrigando-a ao mesmo tempo a responder aos desafios da economia moderna.

Exclui a possibilidade de adesão da Turquia?
A Turquia tem outros valores. Erdogan nunca esteve verdadeiramente interessado em aderir à UE. Fez todo este espetáculo porque a UE impunha condições para a adesão e uma delas era a subordinação das FA ao poder político. Isso permitir-lhe-ia domesticar as FA, como fez. Elas eram o principal bastião progressivo e depositário da herança de Kemal Atatürk e sustentavam politicamente o movimento progressista. Resolvido esse problema, Erdogan tem mostrado o que é, um indivíduo que pensa na velha Turquia otomana. A motivação geopolítica é muito compreensível, não quer que os curdos tenham qualquer hipótese, são uma ameaça militar terrível, como demonstraram na Síria e no Iraque. É um homem que não está preocupado com os direitos europeus, nem com a liberdade de expressão. A construção do seu palácio brada aos céus e demonstra até que ponto há ali uma megalomania.

Foi o Presidente da República mais novo, aos 41 anos, e também o que teve mais poderes na história recente do país. O que conseguiu mudar?
Quem tem muito poder não tem poder nenhum, sobretudo quando os que tem conflituam. Eu tinha o poder político como Presidente da República, e o poder militar, que tem uma cultura muito diferente da cultura política. A política é a arte do possível, a cultura militar é a arte de se fazer o que se deve, o compromisso, o que a instituição impõe. Portanto, a instituição militar não via muito bem a instituição política. Depois havia um Conselho da Revolução, com poderes que eu tinha que ter em consideração, e que, devido à ação de muitos conselheiros, me deu uma colaboração boa. Em termos formais tive muito poder, é certo, mas tive de o executar com grande prudência. Há o poder que se exerce numa democracia institucionalizada e o que se exerce na institucionalização e consolidação de uma transição democrática. Eu tinha lido e refletido sobre as obras do Eduardo Lourenço e do padre Manuel Antunes e entendia que era indispensável uma reforma estratégica do país, definir um novo horizonte. Mas não era possível fazer uma estratégia deste tipo com umas FA em perturbação e uma luta intestina partidária. Mesmo depois de reinstitucionalizadas formalmente as FA, não era possível fazer isto porque os partidos e a população estavam a aprender a democracia, até a utilizar uma linguagem democrática. Isso impediu que esta grande necessidade, historicamente evidente, não tivesse tido resposta, embora eu me tivesse empenhado nela.

E o que não conseguiu fazer?
Hoje entendo que devia ter sido muito mais exigente numa reforma educativa profunda, forçando os partidos a empenharem-se. Uma reforma que fosse definida por especialistas nacionais e estrangeiros, que se tivesse debruçado sobre os melhores exemplos alemão, americano, japonês, francês, e que tivesse podido criar condições para que tudo o resto, a modernização económica e o desenvolvimento social, se tivesse realizado. Não é que não tenha pensado nisso nessa altura, mas entendia que numa relação em que se estão a estabelecer as instituições e a fazer a rodagem da sua interação, o modelo impositivo do Presidente iria desencadear uma reação partidária terrível. E só iria por diante com o apoio do Conselho da Revolução e o apoio tácito das FA. Isto introduzia uma contradição que eu tinha dúvidas que conseguisse liderar com suficiência virtuosa. Hoje penso que teria sido bom correr esse risco, a situação do país podia ser diferente.

Sentiu a sua imagem prisioneira do 25 de Novembro?
Isso aconteceu, mas aceitei-o com naturalidade, porque quando se participa num evento com muita visibilidade e impacto emocional, isso fica. Esquecemos com grande facilidade as coisas muito pensadas mas não as emocionais. Há um livro, “A Psicoterapia de Deus”, do professor da Universidade de Toulon, Boris Cyrulnik, que mostra como muitos meninos soldados esqueceram tudo mas não esqueceram os momentos traumatizantes da guerra. É tão vivo, tão impressivo, tão violento, que miúdos que ele entrevistou — cristãos e muçulmanos — explicam que só encontram paz na mesquita ou na igreja, porque o deus que estas instituições representam é um deus de afeto.

O que lembra com mais intensidade desse período?
A institucionalização das FA, que se tinham fragmentarizado e, pior, caudilhizado, havia caudilhos. Por outro lado, numa situação de grande impreparação e insegurança, aqueles homens deixaram de ter uma relação de lealdade com as FA e criaram uma relação de afetividade com as forças partidárias. Havia um conflito geracional muito complicado e entre aqueles que tinham feito o 25 de Abril e os outros. E havia ainda uma questão inultrapassável: muitos dos responsáveis do 25 de Abril queriam um Exército novo — como se poderia fazê-lo, mantendo os nossos compromissos na NATO? E mesmo que assim não fosse, qual era o modelo do Exército novo, o suíço? Não era viável em Portugal. Eu tive de reinstitucionalizar as FA, devolver à instituição militar a sua ideologia formal — unidade, hierarquia, disciplina, competência, eficácia e a oportunidade. Foi extremamente difícil. Claro que este trabalho foi feito por muita gente, nomeadamente pelos nossos camaradas do Conselho da Revolução, mas foi extremamente difícil. Outra coisa difícil — e essa muito gratificante: penso que consegui, com a colaboração de muitos, devolver um certo espírito de tolerância à sociedade civil. Com o 25 de Abril houve perseguições inaceitáveis, um país não se faz com parte dos seus filhos, faz-se com todos. A pouco e pouco, os portugueses começaram a sentir que, além de todas as diferenças ideológicas e de interesses, havia em comum a cultura, o local de nascimento, o futuro. A democracia é pluralidade, é conflito, mas muitas pessoas tinham-se ido embora e muitos eram homens de alta competência profissional, penso por exemplo em Jardim Gonçalves. Fiz tudo o que pude para que voltassem e em parte resultou.

Estamos pois a falar do seu legado político.
Sim. Um outro trabalho foi termos conseguido poucos anos depois da descolonização normalizar as relações com todos os países, nomeadamente Angola, o que não foi nada fácil e para o que contribuíram muitos africanos, nomeadamente Luís Cabral. Outro trabalho foi a reconciliação dos emigrantes com o país. Com as nacionalizações deixaram de mandar divisas e estavam muito apreensivos. Foi preciso esclarecê-los, mobilizá-los, restabelecer a ligação com o país, tentar organizá-los nos países de acolhimento para que fossem uma força política capaz de dialogar com o poder e conseguir benefícios e tentar que ajudassem a modernizar a economia portuguesa. Neste aspeto Vítor Alves teve um papel notável.

Porque se meteu na política?
Conhecia relativamente bem a história militar, fiz, em Direito, Ciência Política e Direito Constitucional, deixei a Psicologia, onde tinha feito o 3º ano, porque entendi que era necessário ter mais conhecimento político. Sabia que as FA tinham sido secularmente condenadas a ocupar o vazio criado pela incapacidade de ação política dos políticos. Aconteceu no rotativismo monárquico, na 1ª República, no Estado Novo. Dada a perturbação da altura, entendia que podia criar-se de novo um vazio e as FA seriam condenadas a ocupá-lo. Seria muito prejudicial para elas e inaceitável para o país, porque sem o império, que foi a solução coletiva durante séculos, a Europa não iria aceitar-nos se não tivéssemos um regime consentâneo com os seus valores. Entendi por isso que era necessário travar uma luta no plano político. Foi isso que me empurrou para a cena política, com a preocupação de vir a criar condições para que, acabando definitivamente o ciclo colonial, Portugal pudesse desenhar um propósito estratégico coletivo com a Europa e permitisse que o país resolvesse os seus males endémicos, nomeadamente a modernização económica e o desenvolvimento social. Basta pensar no que era a educação, apesar da grande reforma de Veiga Simão e de outras reformas feitas por Marcello Caetano, que iam no sentido da modernização do país e, a prazo, de uma democratização inevitável.

Lidou com muitos políticos. De quais se tornou admirador?
Henrique de Barros, Palma Carlos, Salgado Zenha… e os então novos políticos António Barreto, Medeiros Ferreira, Mota Amaral, entre muitos outros. Havia políticos de grande qualidade. A classe política emergente depois de Abril não tinha uma grande experiência na ação política, mas era constituída por homens de grande mérito, porque tinham feito grandes carreiras profissionais, tinham mantido fidelidade aos princípios numa altura extremamente difícil, tinham manifestado grande coragem e sentido do bem comum. Há outros políticos por quem, não tendo esta admiração, tinha grande apreço, pela coerência que manifestaram durante aquele período.

Disse numa entrevista há poucos anos ser “um velho preocupado com saudades do futuro”, o futuro que sonhara para os seus filhos. O que sonhou no 25 de Abril que não se concretizou?
Hoje sou um velho mais velho com a mesma preocupação. Entendia que íamos criar uma democracia que não fosse meramente formal, procedimental, mas profunda, em que reconhecêssemos o mérito, respeitássemos a dignidade e se impusesse a todos a ética do bem comum. Isso era um pouco utópico, reconheço hoje, mas era o que eu e muitos dos meus camaradas pensávamos. Pensávamos que podíamos criar um desenvolvimento económico com um Estado social que não deixasse ninguém para trás. Isso infelizmente não aconteceu, muitos foram os que deixámos para trás e deixamos ainda.

Mas no início da entrevista falou da necessidade de “utopias realizáveis”. Em quê ou em quem reside a sua esperança?
Há uma frase que nunca esqueci de Delors, que diz, já velho, que nunca renunciou nem à utopia nem à revolta. Quando se está vivo politicamente e se entende que se tem uma responsabilidade na realização do bem comum, nunca se perde a utopia e dá-se sempre força à revolta, democrática, evidentemente. Há utopias realizáveis, sim, mas em vez de perdermos tempo com a discussão do fait divers, não seria melhor que os nossos intelectuais, grandes escolas, fundações perdessem o seu tempo numa reflexão profunda do que é o país, quais os seus males endémicos, quais as suas capacidades e respostas possíveis?

Cita muitas vezes autores humanistas, como Rousseau, que defende que o homem aprende toda a vida. Do que aprendeu na sua vida, o que pode ensinar?
Rousseau tinha uma definição muito interessante, a de que o homem é um ser que se perfectibiliza toda a vida, que aprende toda a vida, mas não pode aprender como se fosse um continente fechado, mas sim um continente com ligações múltiplas à sociedade. Sabe o que eu aprendi? Aprendi que, quando temos a sorte — não sei se a sorte se o azar… — de nos mantermos vivos durante muito tempo, acabamos necessariamente por olhar para trás e olharmos fundamentalmente para os nossos erros e para as razões desses erros. O que nos retempera é quando sabemos que fizemos tudo o que nos era possível pelos outros, pelos nossos filhos, amigos, pelos nossos concidadãos. Tudo num respeito grande por valores civilizacionais e que têm uma determinação e um objetivo ético. Quando olho para o espelho, além de verificar que estou velho, entendo que estou em paz comigo mesmo. Posso ter cometido erros mas entendo que os cometi quase sempre com bom propósito, boa intenção, com uma correção ética preocupada.

“Pusemos as Forças Armadas num gueto. Elas não têm a autonomia institucional suficiente”

Como explica um acontecimento como Tancos?
Não queria falar sobre isso porque não tenho informação suficiente. Preocupa-me extraordinariamente.

A situação das FA degradou-se muito?
Há essa ideia, mas não concordo. Há um quadro de oficiais e sargentos com muito mais qualidade do que no meu tempo. A preparação é moderna, as FA foram reestruturadas e a sua atuação no estrangeiro tem merecido elogios internacionais. A sua preparação é notável, visando a competência, a responsabilidade, a eficácia. Mas não se olha para as FA, o seu perfil institucional ou as suas capacidades disponíveis, que podem ser utilizadas no país. Até dá a impressão que tem havido uma transferência de algumas das suas capacidades e responsabilidades para as forças de segurança.

Por exemplo?
As forças de segurança estiveram no Iraque, o que não era próprio das forças de segurança mas das FA. São elas que representam o país nas ações militares no estrangeiro. Por outro lado, as suas capacidades não têm sido aproveitadas, e elas têm-nas em matéria de transportes, sobretudo em situações de emergência, ou em situações sanitárias graves, elas têm um corpo médico de grande qualidade e em situações diversas de carácter geoespacial. Além disso, têm uma engenharia muito capaz, que está mobilizada 24h sobre 24h, como se viu nos incêndios. E têm uma alta competência no campo dos ciberataques. Deveria haver maior preocupação em usá-las e responsabilizar os seus chefes. Passaram elas a ter um papel irrelevante no recrutamento, incorporação, promoções e gestão financeira, o que é prejudicial ao exercício eficaz e correto da sua função. Tem de haver unidade, hierarquia, competência e oportunidade nas decisões. Quando há uma dependência financeira apertada, os chefes têm dificuldade em responder com oportunidade ao que são os sentimentos e necessidades dos seus homens. Pode e deve haver uma confiança absoluta nas FA porque desde o 25 de Abril têm tido um comportamento institucional exemplar. Quando houve a necessidade de as reinstitucionalizar depois do 25 de Novembro, foi complicado, mas fez-se. Depois, elas têm cumprido de modo exemplar todas as funções atribuídas pelo poder político. E há que ter em consideração que a Europa passará a preocupar-se com a sua defesa e Portugal tem sido um fornecedor de segurança de qualidade e deverá continuar a sê-lo, até para aumentar a nossa capacidade de intervenção a nível europeu. É necessário olhar para as FA, ouvi-las mais, e dispensar-lhes cuidados que são democraticamente razoáveis e que poderão fazer com que elas deem ao país o que delas ele precisa.

A instituição está excessivamente dependente do poder político?
As FA devem estar dependentes do poder político. Mas uma coisa é a dependência, outra é não terem liberdade suficiente para responderem em tempo ao que são as suas necessidades e as exigências que em boa verdade o país devia fazer às FA.

Parece uma pescadinha de rabo na boca.
Há uma dependência virtuosa e outra tendencialmente perversa. É necessário que as FA sejam plenamente responsáveis perante o poder político e devem ter até uma dependência mais visível da própria Assembleia da República. Mas devem ter autonomia institucional, até para evitar que as associações profissionais possam ser tentadas a mudar a sua índole e ser mais de índole sindical.

As FA não têm autonomia institucional?
Não têm a autonomia institucional suficiente. Em França, existe um alto comité para a condição militar, que é dirigido por um senador, e que faz um relatório anual para o Presidente e a Assembleia Nacional. Aqui talvez houvesse interesse em perceber como é que podemos exigir aos militares tudo o que é nacionalmente necessário, legal e legítimo, mas dando as condições mínimas suficientes para que se sintam motivados e possam dar as respostas com competência, eficácia e empenho.

Temos as FA que o Estado precisa?
É uma questão que devia ser discutida entre o Estado e a sociedade civil. O que é que quer o Estado das FA? É o mesmo que quer a sociedade civil? Chegando a um entendimento, fazer uma definição estratégica das FA em matéria de efetivos, instrução, etc. A partir daí, os militares sabem qual o propósito do país e responderão da melhor maneira. Mas há uma certa indefinição. Tem de haver uma clarificação indispensável para que a instituição militar possa ser um instrumento importante nas mãos do Estado e para a sua ação externa e não só.

Mas os jovens não estão a aderir à instituição militar.
A pergunta é: porquê?A instituição militar é extremamente exigente e, possivelmente, as remunerações não são suficientemente compensadoras. Muitos países estão a voltar ao serviço militar obrigatório, ou a fazer uma espécie de serviço cívico, sendo que os jovens que o fazem têm facilidades de emprego, nas escolas, etc. Não podemos pensar no regresso do serviço militar obrigatório, isso está afastado, a nossa população jovem não o aceitaria, mas podíamos pensar num serviço cívico obrigatório e, quem sabe, o interior talvez fosse beneficiado com isso, a proteção das florestas beneficiasse, a saúde (se os médicos tivessem de fazer algum tempo no interior), e permitir-se que alguns dos mancebos pudessem fazer o serviço militar, que devia ser mais atrativo. Agora, com uma fraca remuneração, em que ao fim de alguns anos saem e têm de iniciar uma outra atividade, não é fácil.

As populações mais jovens, que viveram sempre em paz, estão distantes das FA.
Os jovens não têm essa consciência e eu pergunto: porque é que deviam ter? Isso é indispensável numa democracia adulta, mas não acontece naturalmente. Deveria ser o Estado, através da educação. Devia permitir que os jovens se apercebessem dos objetivos das instituições e não apenas da militar, para terem capacidade para refletir sobre o que representam e motivarem para participar de outra maneira. Não há nenhuma informação sobre as FA, há pouca sobre o seu papel na História e ainda se estigmatiza o seu papel nomeadamente na guerra colonial, dizendo-se que foram elas que a fizeram. Não é verdade. Fizeram-na porque entendiam que era possível fazê-la de maneira correta e benéfica para o país e os povos coloniais.

E como?
Numa guerra revolucionária cabe às FA acantonar o inimigo, concentrar as populações em aldeamentos, promover socialmente essas populações, com médico, escola, etc., e dar tempo ao poder político para responder. Este responde com infraestruturas, com medidas de carácter social – como escolas, etc. – e a indicação de uma data para realização de eleições supervisionadas internacionalmente. As FA entendiam que isto se podia fazer. Quando houvesse esses referendos, concorreriam os movimentos de libertação que porventura se desarmassem e todos os movimentos políticos ou partidos que o próprio Estado português pudesse ter estimulado. As eleições acabariam por eventualmente dar soluções diferentes daquelas que ocorreram e que pudessem ter sido de pacificação e mais forte ligação a Portugal. Os militares fizeram a guerra por estas razões e depois fizeram a descolonização, de que são acusados. Quando o Estado não consegue responder ao seu papel e pôr termo à guerra, e quando há uma revolução, o que se faz? Não é numa altura em que os cidadãos não querem ir para a guerra – e percebe-se – que se vai continuá-la. A única solução era a paz através de negociações com os movimentos de libertação. Nós devíamos esclarecer a população acerca do papel das FA e explicar que, numa situação repetidamente imperial, como foi a situação histórica portuguesa, as FA têm um papel político a desempenhar. Devíamos explicar o que eram as FA, porque o eram, o que são e como poderão ser. Chegaríamos à conclusão de que as Forças Armadas foram uma grande escola. De identidade nacional, porque estavam portugueses de todas as áreas; de igualização baseada no mérito, porque nas FA entravam todos e não eram só os oriundos de um estrato económico elevado que ocupavam uma função hierarquicamente elevada, o filho do trabalhador podia ser oficial e o de um grande empresário soldado raso. Ali percebia-se que era o mérito que distinguia as pessoas e não o estatuto socioeconómico. Isso não tem sido dito. E num país em que o abandono escolar é tão grande, e que a população que sai do secundário e universitário é tão pequena, as FA poderiam ter um papel na requalificação académico-profissional dos cidadãos, como já tiveram. E seria possível que as FA tivessem, através de um serviço cívico obrigatório, um papel na resposta a situações problemáticas. Nas FA, dada a disciplina e a igualização, certamente algumas razões que motivam os desmandos de alguns jovens poderiam ser evitadas.

Luísa Meireles e Pedro Santos Guerreiro

“Todos os países estão a armar-se. Podemos entrar numa nova guerra fria mais tecnológica”

Momento. Ramalho Eanes, no seu escritório no centro de Lisboa, durante a entrevista conduzida por Luísa Meireles e Pedro Santos Guerreiro

Momento. Ramalho Eanes, no seu escritório no centro de Lisboa, durante a entrevista conduzida por Luísa Meireles e Pedro Santos Guerreiro

Diz que a paz mundial não está garantida, uma vez que se assiste ao armamento de várias nações. Que conflitos potenciais o preocupam?
Quando se olha para esta nova corrida armamentista todos devemos ficar preocupados. Se Trump aumentou em muito o orçamento para a defesa, é bom não esquecer que Obama já tinha no seu último ano considerado um orçamento grande. Isto acontece porque os geoestrategas americanos entendem que a situação é de novo muito complicada. A Rússia, que se julgava ir ter um período de grandes dificuldades e que ia responder às exigências sociais da população, não fez nada disso, aproveitou o rendimento petrolífero para remodelar e armar as FA. Quando todo o Ocidente esperava que as FA russas estivessem em mau estado, elas apareceram na Síria com alto grau de preparação, novas tecnologias, grande instrução, eficácia e novos meios.

Os próprios Estados Unidos pareciam então acreditar que a Rússia não teria esse protagonismo militar.
A Rússia aproveita para fazer um novo jogo na cena mundial, faz uma coligação com a Turquia, o Irão e a China. Os EUA entendem que esta coligação, a reafirmação militar russa e o crescimento exponencial da China são uma ameaça e talvez tenham uma certa razão. O líder chinês Xi Jinping tinha prometido que os atóis e ilhéus em que construíram ilhotas não seriam armados, mas algumas delas estão-no fortemente, com armas antiaéreas extremamente sofisticadas. Além disso, há aspetos preocupantes no Médio Oriente, entre xiitas e sunitas, potenciados com o novo príncipe da Arábia Saudita, que quer fazer grandes modificações, até porque 70% da população tem menos de 30 anos e é menos tolerante do que os mais velhos. O Irão não está disposto a deixar pôr de pé uma aliança entre sunitas e até com Israel. Não vai haver nenhuma intervenção dos EUA na área, mas pode haver uma de Israel ou da Arábia Saudita, o que teria efeitos imediatos, pelo menos na economia mundial, através do aumento do preço do petróleo bruto.

E há o problema da Coreia do Norte.
Não é uma ameaça para os EUA. O seu Presidente, que é ridicularizado em permanência, é esperto e procura apenas evitar que lhe aconteça o que aconteceu a Saddam ou Kadhafi e o que não aconteceu a Bashar al-Assad porque a Rússia o ajudou. Isso consegue-se aumentando a credibilidade da ameaça. Embora não haja previsivelmente uma intervenção militar americana, pode haver qualquer descontrolo que leve a uma situação de guerra. Os chineses estão a construir na fronteira com a Coreia do Norte grandes campos de refugiados. Como eles planeiam a longo prazo, podem achar que haverá manifestações sociais mais tarde ou mais cedo, mas também pode ser que admitam a hipótese de um conflito.

Como a Rússia, a China está a armar-se.
Todos os países estão a armar-se. São consideradas ameaças para os estrategas americanos. Estou convencido de que não vai haver uma guerra porque existe a chamada ameaça nuclear mutuamente assegurada, mas podemos entrar numa nova Guerra Fria mais tecnológica e muito complicada. Em todos os momentos da História houve uma potência dominante. Depois da II Guerra Mundial, os EUA eram uma espécie de provedor dos grandes interesses internacionais. Agora, estão a abdicar dessa posição. Quem os deveria substituir era a China. Mas a China não quer pagar esses custos, quer ser a maior potência económica e tecnológica mas não a superpotência mundial, a “polícia do mundo”. Se não houver uma potência provedora dos grandes interesses mundiais, pode haver uma perturbação que leve a uma guerra localizada, com influência marcante na economia mundial.

Uma guerra localizada pode estender-se?
Com a Coreia acho que não, os EUA não irão fazer essa asneira. Existem ali dois grandes dissuasores, a China e a Rússia. Onde as coisas são mais complicadas é no Irão — e há quem nos EUA entenda que tem de haver uma resposta militar para o problema. Dada a degradação da situação no Iémen e os ataques com mísseis à Arábia Saudita, esta poderá responder sobre o Irão, com o apoio israelita mais ou menos camuflado. Aí sim, pode haver uma guerra complicada, porque o Irão faz nesta altura parte de uma coligação onde estão a Turquia e a Rússia. A Rússia tem grandes interesses geoestratégicos na região e foi a sua presença na guerra da Síria que lhe permitiu reafirmar-se como potência militar mundial.

Luísa Meireles e Pedro Santos Guerreiro

“Na guerra, o homem é um pequeno Deus e um grande demónio”

Não tenho um poema de vida, mas vários. Aprecio muito Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade. Impressionam-me a simplicidade e a musicalidade da sua poesia, em especial da inspirada na sua terra natal (Póvoa da Atalaia, Fundão) e na sua infância.

O meu livro preferido é a “Obra ao Negro”, de Marguerite Yourcenar. Pode achar-se que ele está um pouco desatualizado temporalmente, mas acho-o extremamente importante porque o tema da obra é a resposta da liberdade do homem a todas as dominações, sejam elas inclusivamente religiosas. Porque também há uma dominação religiosa que não tem nada a ver com o amor pregado por Cristo, amor que devia ser o grande dogma da Igreja, mas tem a ver com o interesse dos homens e com determinada hermenêutica religiosa, que está infelizmente desatualizada. Há uma outra obra impressionante, porque mostra como é a política, como são os homens, como é a demagogia, em que o homem é capaz de perverter valores em função precisamente daquilo que julga que são valores: estou a pensar no “Júlio César” (de Shakespeare) e não no Cássio, mas em Brutus, que é um homem de valores, de preocupações, e que depois tem um comportamento de antivalores, porque tem uma compreensão dos valores que não é correta.

Nos filmes — “Júlio César” deu também um filme extraordinário — falo de um que apresentei uma vez na Cinemateca Portuguesa, para surpresa de muita gente: “O Resgate do Soldado Ryan”. É uma história extremamente interessante do absurdo que é a guerra e como ela consegue fazer com que o homem bata no cimo e bata no fundo, seja um pequeno Deus e um grande demónio. Ali está tudo dito de maneira cinematográfica impressionante. E há outro filme extraordinário, “Cartas de Iwo Jima”, porque mostra até que ponto uma cultura pode não libertar mas escravizar, e mostra como o Exército pode ser uma instituição que leva os homens a respeitar em si valores, ou que não tendo havido capacidade para que eles interiorizem esses valores, se permite que eles tenham os piores comportamentos. Estou a pensar na liquidação dos prisioneiros japoneses por americanos.

Depoimentos recolhidos por Luísa Meireles e Pedro Santos Guerreiro