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António Saraiva: “A CGTP colocou um vírus na Autoeuropa”

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Líderes da CIP, António Saraiva, e da UGT, Carlos Silva, encontraram-se num debate promovido pelo CDS para falar de competitividade, mas acabaram a discutir a situação da Autoeuropa. Saraiva defende que com este Governo "a concertação social tem sido adulterada nas suas virtudes"

Uma pergunta: "Se o diálogo social fluiu durante 20 anos na Autoeuropa, porque é que não flui agora?". E uma resposta: "A CGTP colocou o vírus na empresa". A primeira foi de Carlos Silva, secretário-geral da UGT, e a segunda de António Saraiva, presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal. Tudo porque os dois, que na concertação social se costumam sentar de lados diferentes (um a representar patrões, o outro trabalhadores), estiveram em sintonia durante um debate no contexto das jornadas parlamentares do CDS, centradas no tema do investimento e competitividade.

O tema da Autoeuropa foi dos primeiros a ser trazidos a debate, na semana em que os trabalhadores começaram a cumprir o horário que os obriga a trabalhar ao fim de semana, imposto de forma administrativa e muito contestado. Carlos Silva defendeu que a situação, "lesiva dos interesses do país", é em boa parte responsabilidade da comissão de trabalhadores, que "não chamou os sindicatos" para negociar (e fez "pior a emenda que o soneto"). "Os plenários têm agitadores profissionais. Se na Autoeuropa negoceia a comissão de trabalhadores (e não os sindicatos), não há negociação coletiva. A empresa aproveita este desatino interno e impôs uma questão unilateral", resumiu.

Carlos Silva deixou um aviso: ou há estabilidade interna na empresa ou os donos da Autoeuropa "perdem a paciência" e deslocalizam a empresa, levando-a para fora de Portugal. "É preciso os trabalhadores deixarem-se envolver e há uma tentativa de controlar o pensamento dos trabalhadores, de determinados lados à esquerda radical."

"Para que é que serve a concertação social?"

As críticas à CGTP foram várias e não pararam de se acumular durante o encontro. António Saraiva falou da forma como, com este Governo, a "concertação social tem sido adulterada nas suas virtudes" e lamentou que a CGTP não tenha subscrito os últimos acordos assinados. Para a UGT, que várias vezes criticou a "esquerda radical", guardou elogios: "É um parceiro com o qual temos sabido construir soluções." E Carlos Silva completou: "Se for para ir à concertação social fazer propostas, dar ideias e depois não assinar nada, para que é que serve a concertação social?".

Depois de Carlos Silva ter defendido a ideia de se discutirem mais temas na concertação social, como a precariedade ou o fundo de compensação das empresas, sem se ficarem pelo mais polémico e noticiado salário mínimo, foi a vez de António Saraiva lamentar alguns dos pontos que não têm merecido acordo na concertação social, como a redução da contribuição das empresas para o fundo de compensação, que serve para o pagamento de indemnizações (os patrões propõem que passe de um montante mensal de sete milhões para um milhão, estando o fundo já capitalizado em 160 milhões de euros) ou a redução da TSU. Agora, diz, os patrões vão à concertação social com um "défice de confiança" e com um lema: "gato escaldado de água fria tem medo".