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Renato Sampaio: “Ser amigo de José Sócrates não é um ferrete para a vida. Bem pelo contrário”

RUI DUARTE SILVA

Aos 65 anos, quase sete após deixado a Distrital do PS/Porto, na sequência da derrota do amigo José Sócrates, o transmontano Renato Sampaio está de volta à política da sua cidade de adoção. Venceu por 35 votos a Concelhia, contra o delfim de Manuel Pizarro, Tiago Barbosa Ribeiro, que correu tendo por mandatário o nº 2 do Governo, Augusto Santos Silva. Renato Sampaio, que é deputado, nega, contudo, brechas entre costistas e socráticos. “Isto não é um ajuste de contas entre o ex e o atual líder do PS”, afirma

Acaba de vencer as eleições concelhias por 35 votos. Foi o resultado esperado?
É evidente que espera ganhar por mais. Houve muitos militantes que não foram votar por qualquer circunstância. A margem foi a que foi...

E perdeu na Comissão Política. Tiago Barbosa Ribeiro elegeu 37 membros, a sua candidatura 31.
Teve seis por inerência da Juventude Socialista, que o apoiou, mais o primeiro vereador eleito.

Neste cenário, a concelhia é governável ou há um braço de ferro à vista?
Acho que fica, e vou fazer tudo para que seja governável. O meu primeiro objetivo é garantir a governabilidade da concelhia, unir o partido na cidade e espero que haja sentido de responsabilidade de todos os membros da Comissão Política para garantir essa unidade.

Já tem essa garantia por parte de Tiago Barbosa Ribeiro?
Ainda não, mas enviou-me um SMS a dizer que quer falar comigo. E claro que estou disposto a dialogar. Ganhei as eleições, e uma parte significativa do partido apoiou a minha estratégia e programa, como se prova pelo facto de ter vencido em nove das 14 secções.

A desvantagem na Comissão Política pode funcionar como força de bloqueio na constituição das listas de deputados ou na escolha do candidato autárquico?
Não acredito nisso. Esta concelhia foi eleita para dois anos, não será ela que irá escolher o candidato à Câmara do Porto. E a lista de deputados é responsabilidade da Federação Distrital, embora seja evidente que a Concelhia pode influenciar. Estou convencido que num diálogo com o próximo presidente da Distrital haverá consenso.

Manuel Pizarro apresenta, sábado, a recandidatura à Distrital. Face à derrota de Barbosa Ribeiro, que tinha o apoio do líder distrital, é previsível que até às eleições, a 10 de março, surja uma candidatura afeta à sua candidatura? Já falaram?
Vamos falar ainda hoje. Não quero fazer futurologia, embora seja minha convicção que Manuel Pizarro será candidato único à Federação. Não coloco outro cenário. As eleições concelhias são diferentes dos sufrágios para as distritais. O meu propósito é unir o partido, que julgo ser também a vontade dele para a Distrital.

O que o leva a candidatar-se à Concelhia depois de ter presidido à Federação do PS/Porto entre 2006 e 2011, após a derrota do seu amigo José Sócrates?
Entendo que qualquer militante do PS tem a responsabilidade de se candidatar a qualquer estrutura. Com todo o sentido de humildade, entendi que prestava um melhor serviço ao partido na Concelhia do que em qualquer outro órgão. Sou membro da Comissão Política Nacional, o que não me inibe de liderar uma estrutura de patamar inferior, apesar de a Concelhia do Porto ser demasiado importante para ser encarada como tal...

É verdade que equacionou candidatar-se à Distrital e só não avançou por falta de apoios?
Não é verdade. Na vida política constam sempre muitas coisas. Mas não nego que houve quem tivesse essa expectativa e até me incentivou a candidatar-me. Não era a minha disposição, até porque já o fui e não devemos voltar a um lugar onde fomos felizes. Preferi um percurso na Concelhia, que é a mais importante do país, sem menosprezar as outras.

A nova derrota autárquica foi a gota de água que o fez avançar? Não era esperada após quase 20 anos de afastamento do governo do Porto?
Nada disso. Avancei por entender que houve uma estratégia errada por parte da Concelhia no mandato passado.

Mas apoiou a aliança do PS a Rui Moreira no pós 2013. Foi mandatário concelhia de Barbosa Ribeiro há dois anos e defensor do acordo...
Assumo que o defendi. Aí o PS esteve bem. Não concordei é que o PS desistisse de apresentar uma candidatura autónoma e alternativa para apoiar o candidato independente. Pretender dissolver o partido nas listas independentes era um sinal claro de submissão incompreensível para um partido com a grandeza do PS.

E fazia sentido a separação depois de quatro anos de casamento voluntário?
Claro que fazia. Neste momento o PCP e o BE têm um acordo com o PS de governabilidade do país e de certeza irão apresentar listas próprias nas próximas legislativas. Ou seja, tínhamos um compromisso que honrámos até ao fim para quatro anos, mas a partir do fim de mandato o PS tinha autonomia total para ser alternativa. Era esse o caminho que devia ter sido tomado sem se tornar subalterno na cidade...

Ia a votos e perdia, como perdeu...
Admito. Mas sem ir a votos nunca saberemos. O resultado não foi o melhor, mas não quero estar agora a analisar o passado. Além da estratégia errada, o que mais me preocupou foi não ter visto o líder da Concelhia fazer uma autocrítica, nem à estratégia nem aos resultados.

Entre si e Barbosa Ribeiro há uma guerra geracional?
Nenhuma. O que nos divide é a estratégia política. Começar desde já uma estratégia que nos leve à vitória autárquica em 2021, criando condições para um projeto que os portuenses percebam e se revejam nele, é o que me move. O PS tem no Porto um património invejável da governação de Fernando Gomes...

Que perdeu para Rui Rio e abriu um ciclo que cinco desaires consecutivos...
Não foi por falta de projeto político para a cidade, foi por uma conjuntura desfavorável. Temos de distinguir muito bem o que foi a governação do PS e o seu legado imparável a todos os níveis. Há um Porto antes e depois de Fernando Gomes. Às vezes ganham-se e perdem-se eleições em função das circunstâncias. Estou convencido que se as eleições de 2001 tivessem ocorrido no dia seguinte, Fernando Gomes ganhava. É a essa herança que é preciso dar continuidade...

A corrida a dois na Concelhia foi uma guerra de alas de costistas contra socráticos e seguristas?
Não existe essa divisão. Eu fui um dos grandes apoiantes de primeira hora de António Costa aqui no Porto e tenho uma relação pessoal de amizade e política com ele há muitos anos. O meu apoio e da Concelhia ao secretário-geral do PS, ao primeiro-ministro e ao seu Governo não estão em causa. Nunca. Aliás, a maioria dos meus apoiantes na Concelhia são apoiantes de António Costa. Por isso é que ele ganhou no Porto e no distrito contra Seguro.

São rótulos sem sentido?
Já tive muitos rótulos políticos e não os renego. É verdade que há pessoas que estão do meu lado e tiveram trajetos diferentes, mas por terem em determinado momento apoiado António José Seguro não significa que tenham de ser excluídos da vida política. Não é um ferrete para toda a vida. Como não é um ferrete para toda a vida ser amigo de José Sócrates. Bem pelo contrário. Quase todos os militantes do PS foram grandes apoiantes de Sócrates, incluindo atuais dirigentes da Federação. Isto não é um ajuste de contas entre o ex-líder e o atual líder socialista. Comigo não faz sentido que isso aconteça. Na noite em que José Sócrates perdeu, sabe quem foram as primeiras pessoas a quem António Costa ligou? Foi a mim e a um outro camarada. Fomos falar para o café de São Bento.

Tal como António Costa, o seu adversário defendeu na campanha que o PS/Porto devia começar desde já a gizar uma estratégia de convergência com a CDU e BE. Concorda com uma aliança à esquerda para combater aquilo que intitula de bloco de direita que governa o município?
Neste mandato de dois anos temos de criar um projeto que convença os cidadãos do Porto que o melhor para a cidade é o Partido Socialista. E só depois encontrar uma forma de disputar as eleições. Ter uma candidatura forte e só depois encontrar possíveis aliados à esquerda. Mas primeiro é preciso saber se esses aliados querem fazer o caminho connosco.

Não estender a mão como Rui Rio, que ouviu António Costa dizer que está bem acompanho...
Ainda é cedo para fazer esse desenho.

Mas descarta uma geringonça local?
Não descarto nenhuma solução, desde que sufragada primeiro pelos militantes socialistas.

Já tem um nome para reconquistar a Câmara do Porto?
Quatro anos em política é muito tempo. Na altura certa haverá personalidades capazes de liderar o novo projeto socialista. Com ambição e capacidade de vencer.

O seu regresso à base é também uma questão de sobrevivência política para si e os deputados da velha guarda do círculo do Porto?
Claro que não.

Já referiu não será de novo deputado...
Não disse que não o seria, mas que neste momento a minha disposição é provavelmente não integrar a próxima lista de deputados. Já são 20 anos e depois se verá qual será a lista de deputados. Reafirmo é que para mim não está em causa a lista de deputados ou de espaço político, que eu tenho espaço político de intervenção sempre que o entender ter. Servir o PS, unir os socialistas e criar um projeto que nos conduza à vitória em 2021 são as minhas únicas ambições. Nunca fiz política na perspetiva pessoal, mas numa equipa alargada com outros camaradas.

A sua vitória é um sinal que a estratégia de poder de Manuel Pizarro para o Porto se encerrou?
Sem querer dizer que falhou, está à vista que não o conseguiu implementar. Quando se faz acordos com parceiros é preciso que estejam todos de boa fé. O próprio Dr. Pizarro reconheceu que as coisas não correram bem, tanto que o PS teve de apresentar uma candidatura em condições muito desfavoráveis...

Foi boa ideia ter sido ele o candidato?
O partido assim o entendeu. E eu acatei. Também achei que haveria muita dificuldade em que não fosse ele o candidato. E fê-lo em condições difíceis...

E atingiu um melhor resultado do que em 2013...
Vamos lá a ver. Não foi o melhor, mas também é preciso ver o que aconteceu à volta.

Face à queda a pique do PSD, o maior adversário autárquico do PS vai continuar a ser o movimento independente ou o quadro político muda com a anunciada não recandidatura de Rui Moreira?
Neste momento quem governa é Rui Moreira e o PSD, que parece que têm um acordo entre eles. Mas temos de ter em conta que no PSD houve uma mudança de liderança, que vai ter reflexos na cidade do Porto...

Por Rui Rio ser da casa...
Por ser do Porto e pelas relações de Rui Rio com Rui Moreira...

Há relações?
Precisamente por não existirem relações. Houve e cortaram, daí a previsível alteração de circunstâncias. Como digo, quatro anos em política é uma eternidade. Em dois meses mudou tudo. O grande adversário do PS agora é o movimento de Rui Moreira, mas o outro grande adversário será o PSD. Até porque o movimento independente sem Rui Moreira deixa de existir. Desagrega-se.

José Luís Carneiro, detrator do acordo com Rui Moreira desde a primeira hora e atual secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, é um dos presidenciáveis à Câmara do Porto?
Todos os militantes com posição de relevo na vida da cidade poderão vir a ter condições para serem candidatos. Não excluo ninguém, nem Manuel Pizarro o outros. Tem é de ser uma personalidade com condições de ganhar.

As bases da família socialista no Porto estão desavindas?
Basta olhar para o resultado da Concelhia. É preciso ouvir ouvir mais os militantes e as estruturas. Houve decisões dos líderes que não passaram pelos órgão do partido, o que nunca é bom em democracia.

Já referiu que é preciso mudar de rumo, mas sem precisar em concreto o que é preciso alterar no Porto.
Aprofundar a democracia interno, envolver todos os socialistas e construir um projeto de cidade que junte o PS, personalidades independentes e instituições. São necessárias políticas sociais mais ativas, melhorar a mobilidade, condições ao nível da habitação para que os locais regressam ao Porto e que se afastaram devido à especulação imobiliária, recuperar espaços verdes como o Horto das Virtudes, um parque natural, o maior da Europa, dentro de um Centro Histórico e que está abandonado.

Houve pagamentos massivos de votos. Assistiu-se a sindicatos de votos?
Eu não acredito nisso. Os militantes foram chamados a votarem livremente. O ato eleitoral decorreu com total normalidade, com civismo e maturidade política, revelando o resultado que havia uma grande divisão interna de posições. Mas não houve qualquer incidente. Votaram naquilo que acreditavam. Não tive o resultado que queria, nem o Tiago esperaria perder. É a demonstração que não há sindicatos de votos no PS.

Orlando Gaspar, seu padrinho de batismo, foi quem o fez entrar no PS?
Teve influência, naturalmente, pelo peso que teve nas estruturas políticas da cidade. Foi com ele e Carlos Lajes à frente das estruturas locais que o PS teve as maiores vitórias autárquicas. Em 1989, a Federação do PS Porto conquistou 12 das 17 câmaras, um feito único até hoje.

Ainda há resistência em relação aos políticos do Porto e norte na corte de Lisboa?
Menos, embora ainda sinto algum preconceito.