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O debate era sobre a Triumph (e a “história de uma fraude”) mas pouco se notou

ANTÓNIO COTRIM / Lusa

Ninguém se decidia a falar e, quando se decidiram, muitos foram os ataques da direita contra a geringonça e ainda mais, de todos os lados, contra o ministro da Economia (e os que não tiveram “afetos” para dar às trabalhadoras da antiga Triumph, que enfrenta uma situação de insolvência). Bloco marcou o debate e contou “a história de uma fraude”

'Estou aqui para vos contar a história de uma fraude'. Assim arrancou, esta tarde, a intervenção de Catarina Martins no Parlamento, a dar o pontapé de saída para um debate marcado pelo Bloco de Esquerda e que visou discutir a situação das 463 trabalhadoras da antiga Triumph, há dois meses em vigília à porta da fábrica.

Depois de contar o processo que leva as trabalhadoras a estar há vinte dias, 'sem arredar pé', diante das instalações de Sacavém - a Triumph foi no início do ano passado vendida à Gramax Capital, que depois anunciou a insolvência, apesar de, disse Catarina Martins, a deslocalização ter sido antes decidida pela Triumph e tudo não ter passado de uma manobra para não pagar indemnizações nem incumprir as leis europeias - a líder bloquista concluiu que o Bloco não é 'do país que olha para o lado'. A assistir, das galerias, estavam algumas representantes das trabalhadoras, uma vez que muitas se mantêm à porta da fábrica.

'A luta destas trabalhadoras e trabalhadores não precisou de afetos presidenciais, visitas de governantes ou expressões de caridade para conquistar o seu lugar. Muito nos dizem essas ausências sobre quem não apareceu', sentenciou Catarina Martins. E apresentou os três eixos de ação que entende serem agora importantes para resolver a situação e situações futuras: 'uma política de investimento que salvaguarde a capacidade produtiva instalada no país', a revisão das leis relativas às insolvências 'priorizando postos de trabalho, salários e direitos', e o apoio a estas trabalhadoras - em último caso 'uma resposta social, de formação e de emprego para estas 463 pessoas', confirmando-se o fecho da fábrica.

Emídio Guerreiro, do PSD, tomou a palavra para acusar o BE de estar com o Governo 'à segunda, quarta e sexta' e o resto do tempo fazer oposição. E deixou acusações 'aos partidos que viabilizam o Governo' por criarem um clima 'híbrido' e não trazerem 'soluções concretas'. 'Quando tudo corre bem, até se atropelam', rematou, numa intervenção que serviu mais para criticar a maioria parlamentar do que para falar da situação da fábrica. 'Aqui, as decisões são tomadas pelo Governo e são suportadas neste Parlamento. Deixem-se desta duplicidade e assumam as vossas responsabilidades'. A intervenção ocorreu depois de uns minutos de silêncio em que nenhum grupo parlamentar se inscreveu para falar, para espanto do presidente da Assembleia, Ferro Rodrigues. 'Ainda estou para perceber qual é o interesse em falar antes ou depois dos outros', comentou, antes de agradecer a Emídio Guerreiro por tomar a iniciativa.

Quem tem culpa?

Do lado do PS, Ricardo Leão agradeceu ao BE por ter trazido o tema a debate. e assegurou que o Governo é sensível à situação da antiga Triumph e que tem trabalho no assunto, mas de forma 'discreta, sem alarido'. Os centristas, pela voz de Hélder Amaral, declararam que 'os únicos que não têm culpa são os trabalhadores'. Quem tem culpa, prosseguiu, é, por exemplo, o Governo, acusando Caldeira Cabral, ministro da Economia, de manter silêncio desde que garantiu que o negócio da venda da Triumph à Gramax Capital seria positivo. E tem culpa também a maioria parlamentar, concluiu, por não pressionar e negociar quando reúne com os governantes.

Também a comunista Rita Rato dirigiu críticas ao ministro da Economia por ter estado presente para elogiar o negócio, um 'desmantelamento premeditado' feito 'de má fé' pela empresa. 'Não é aceitável que todos aqueles que se dizem defensores dos afetos tenham faltado a estas trabalhadoras'.

A politiquice e o encore

Os ataques continuaram e até tiveram efeitos retroativos: Heloísa Apolónia, do PEV, dirigiu-se diretamente ao centrista Hélder Amaral para sublinhar que a legislação aprovada no Governo anterior (PSD/CDS) piorou as condições dos trabalhadores.

O encerramento do tema esteve a cargo do secretário de Estado do Comércio, Paulo Alexandre Ferreira, que, no meio da troca de acusações, reconheceu que 'o processo' de venda da Triumph 'não teve o sucesso desejado por todos', mas garantiu estar a trabalhar para que 'os direitos dos trabalhadores sejam salvaguardados' junto de várias entidades.

Logo voltou Hélder Amaral a falar, para recusar as acusações de 'politiquice' e reafirmar que 'a culpa' é 'do Governo, do Governo do BE, do Governo de PCP (...). [As intervenções] não podem servir para um regresso ao passado]'. E Emídio Guerreiro também fez uma espécie de 'encore', para voltar a lembrar que os partidos que apoiam o Governo são uma 'fraude' e fingem ser o que 'não são'.