Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Cavaco regressa e faz três avisos

GAUTAM SINGH

Numa conferência dedicada à primeira década de adesão às comunidades europeias, Cavaco Silva aproveita para lançar recados

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

“Ao fim de 32 anos de adesão à União Europeia, os factos comprovaram que o bom aluno atrai bons ventos e o mau aluno atrai tempestades”, afirmou hoje Cavaco Silva, numa conferência proferida na Sociedade de Geografia, em Lisboa.

O ex-Presidente justificava assim o qualificativo de “bom aluno” com que Jacques Delors, então presidente da Comissão Europeia, brindou Portugal, no final da primeira década da adesão de Portugal às comunidades europeias. Essa década (1986-1995) correspondeu grosso modo ao período em que Cavaco Silva foi primeiro-ministro.

“As grandes transformações estruturais da primeira década” da adesão foram aliás o tema da intervenção do ex-Presidente, que assim abriu um ciclo de conferências dedicadas ao tema “As décadas da Europa”.

O tema – que serviu a Cavaco Silva fazer um balanço da sua ação como primeiro-ministro – não o impediu de fazer um outro aviso tendo em vista a situação atual.

Realçando as virtudes da estabilidade social, para o que contribuiu a concertação social, declarou: “Era o tempo em que se faziam acordos de concertação social e eram cumpridos”, numa clara alusão ao fracasso do último acordo de concertação social.

Na mesma linha, referiu-se aos fatores que contribuíram para a “conquista da credibilidade” de Portugal nessa época, o controlo da inflação, do défice público e o controlo das contas externas, bem como a “determinação em fazer as reformas indispensáveis”.

E rematou: “se não administrarmos bem a nossa casa, não seremos respeitados no exterior”.

"Feliz por resistir às pressões"

Pontuando o seu balanço com casos concretos, o ex-Presidente disse sentir-se “feliz por ter tido a coragem para resistir às pressões” que sofreu da parte dos empresários a propósito da sua decisão de fazer aderir o escudo ao mecanismo de taxas de câmbio do sistema monetário europeu. Este sistema precedeu o euro e teve como consequência imediata a abdicação por parte de Portugal da capacidade de desvalorizar a moeda.

“Desde o início que me convenci de que Portugal não podia ficar de fora da moeda única”, disse ainda Cavaco Silva, dando como argumento o facto de que teria sido desastroso para Portugal não ter estado no “núcleo duro do euro”, quando a Espanha iria estar.

Cavaco Silva resumiu este período como de “mudanças sem paralelo e decisivas para o estabelecimento de um clima de confiança” em Portugal e no exterior.

No âmbito do ciclo de conferências, está previsto que falarão proximamente o ex-ministros dos Negócios estrangeiros João de Deus Pinheiro, o ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus Vítor Martins.