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Santana: “Vou continuar a combater politicamente”

MIGUEL A. LOPES

Pedro Santana Lopes emocionou-se na hora da derrota e garantiu que "sem dúvida nenhuma" faria tudo outra vez. "Eu tinha de fazer este combate". Prometeu que não se afasta da política e, antes de ir descansar, assinou a ficha de adesão de um jovem ao PSD

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O último ato de Pedro Santana Lopes na noite em que averbou mais uma derrota foi assinar a ficha de adesão ao PSD de um jovem que tinha acabado de ouvir o seu discurso. Antes disso, deixou a garantia de que não sai da política. "Vou continuar a combater por aquilo em que acredito politicamente", assegurou aos jornalistas, repetindo o que já havia dito no palco onde felicitou Rui Rio pela sua vitória com 54,4% dos votos.

Mas terá acabado a sua carreira política?, perguntaram-lhe os jornalistas. "A carreira não sei, o combate, nunca!", respondeu Santana, que apesar de ter deixado o lugar de provedor da Santa Casa para entrar neste luta, jura não ter qualquer arrependimento. "Sem dúvida nenhuma" que faria tudo outra vez, declarou sem hesitações. "Eu tinha de fazer este combate, tinha de fazer esta clarificação. Não ficaria bem com a minha consciência se não tivesse feito este caminho."

Sobre o que fará no futuro, Santana Lopes disse que irá voltar à sua carreira profissional como advogado e docente universitário.

Um homem também chora

Foi o final de uma noite emotiva, em que Pedro Santana Lopes se apresentou de olhos molhados no palanque montado numa sala de um hotel do centro de Lisboa, em frente à sede de candidatura. Às 10h26 da noite, menos de duas horas e meia depois do encerramento das urnas, Santana já tinha telefonado ao adversário, a parabenizá-lo, e enfrentava os seus apoiantes, ladeado pela mulher, Dina, pelo mandatário nacional, Almeida Henriques, e por gente do seu núcleo mais próximo.

Havia muita gente com lágrimas e Santana não foi excepção. Os apoiantes gritavam "Santana, Santana", e este mudou o mote para "PSD, PSD" e, depois, para "PPD, PPD". Mantendo o registo afetivo de toda a campanha, pediu-lhes que não ficassem tristes, porque ele não estava. "Estou de consciência tranquila. Demos tudo o que tínhamos. Fizemos o que é importante em política, lutar por aquilo em que acreditamos."

Novo aplauso, outra vez o seu nome gritado, outra vez Santana à beira das lágrimas. Como dizia o hino de campanha de 2004, "um homem também chora".

Dupla vitória em Lisboa

A noite acabou depressa, e cedo se percebeu que assim seria. Rui Rio venceu nas grandes concelhias onde era suposto vencer , mas com margens maiores do que era expectável. E conquistou também concelhos importantes onde os santanistas esperavam vitória - casos de Braga, Santa Maria da Feira ou Sintra. Santana, por seu lado, não só perdeu redutos que lhe seriam vitais, como, onde ganhou, foi por margem inferior àquilo que esperava.

Feitas as contas, Rio conseguiu um vantagem de 3600 votos, oito pontos percentuais de diferença. Olhando para o mapa, é fácil perceber de onde lhe veio essa vantagem: os distritos de Braga e Aveiro foram os determinantes. Braga, onde Santana contava vencer, tendeu para Rio, que teve 69 votos de vantagem. Aveiro, onde Santana contava com uma luta renhida, também caiu para o lado de Rio, e por larga diferença - o ex-autarca do Porto conseguiu mais de mil votos de vantagem.

Rio também ganhou por muitos no distrito do Porto, onde já era previsível que vencesse, mas não por tanta diferença (só no concelho do Porto, foram 500 votos a separá-los). E venceu folgadamente em Leiria e Viseu, distritos onde era sabido que teria vantagem.

O único distrito grande onde Santana Lopes foi o mais votado foi Lisboa - e teve uma vitória saborosa no concelho de Lisboa, onde estava contra si um dos principais sindicatos de votos do partido, liderado por Rodrigo Gonçalves. Gonçalves também era candidato à concelhia e foi derrotado por Paulo Ribeiro, o candidato da ala santanista, que teve neste facto a única atenuante da noite. Porém, Santana perdeu em Sintra e isso bastou para que a sua vantagem no distrito ficasse aquém dos mil votos.

Na contabilidade distrital, note-se também as vitórias de Santana em Coimbra e Setúbal.

"Espero que Portugal fique bem servido"

"O que espero é que Portugal fique bem servido com esta escolha", declarou Santana Lopes, perante históricos do PSD como Rui Machete e Conceição Monteiro. E frisou que com a sua decisão, os militantes definiram "qual a melhor solução para o partido e para a estratégia do partido". O importante, disse, é que tenha havido uma "clarificação". Com a "consciência do que representa um caminho ou outro caminho".

O candidato assumiu a responsabilidade pelo resultado, mas apontou como atenuante o facto de só ter avançado há três meses, enquanto o seu adversário estava no terreno há um ano. A avaliação dos resultados "fica para os analistas e comentadores", mas ele próprio, "como politólogo humilde", promete olhar detalhadamente para os números.

Mas isso, só depois de descansar. "Domingo é dia de descanso".

Depois, então, está feita a promessa: "Vou continuar a combater politicamente. Como alguém disse, só é derrotado quem desiste de lutar." Santana não o nomeou, mas esse alguém foi Mário Soares.