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Eurogrupo. Centeno assume presidência mas tem pouco tempo para mostrar o que vale

FRANCOIS LENOIR/ Reuters

O homem que pede “tempo e paciência” terá, paradoxalmente, um período muito curto para levar a cabo as suas principais tarefas. Dia 22 terá a primeira reunião enquanto presidente

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Numa das suas primeiras entrevistas depois de ter sido eleito presidente do Eurogrupo, no princípio de dezembro, Mário Centeno disse que as palavras-chaves para a reforma da zona euro são “tempo e paciência”. Pois bem, o cronómetro começa a contar a partir desta sexta-feira, às 11h da manhã (hora de Lisboa), quando o holandês Jeroen Dijsselbloem lhe passar o testemunho na embaixada de Portugal em Paris. "Conveniência de agenda" foi a justificação para o inesperado local da cerimónia.

Esta quinta-feira, foi recebido no Eliseu pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, que poderá ser um dos seus melhores aliados nessa reforma. Hoje ainda deverá encontrar-se com o seu homólogo, Bruno Le Maire.

Mário Centeno, cuja primeira reunião oficial como novo presidente será a 22 de janeiro, exercerá o cargo num momento crucial, com três “gordos” dossiês em cima da mesa: a reforma da união económico-monetária (UEM), os défices dos grandes países e a Grécia.

O “trilho”já está aliás traçado, depois da apresentação, no mês passado, pela Comissão, do seu pacote sobre a reforma da UEM onde primam os objetivos do crescimento, emprego e convergência, para além da estabilidade orçamental. Os países deverão agora começar a pronunciar-se, sendo certo que em março se realizará a cimeira da zona euro, uma data que já tem em conta a possibilidade de haver um novo governo alemão, sem o qual nada de substancial pode ser decidido.

Ainda na quarta-feira, o primeiro-ministro afirmou em Roma, na 4ª Cimeira dos países do Sul da União que um “desafio fundamental que felizmente está na ordem do dia é completar a UEM” – ideia que foi sublinhada pelos sete chefes de Estado e de Governo presentes (além de Portugal e Itália, Espanha, França, Grécia Malta e Chipre).

“Só aproximando as nossas economias e os nossos níveis de desenvolvimento consolidaremos e daremos estabilidade duradoura à zona euro, e para que isso aconteça é fundamental que a zona euro tenha a capacidade orçamental adequada que nos permita a todos fazer os investimentos necessários, eliminar os bloqueios estruturais à nossa competitividade e reforçar o nosso potencial de crescimento”, disse António Costa, sublinhando que o crescimento económico-económico e a criação de emprego são essenciais para que os cidadãos acreditem no futuro da Europa.

A meta é junho

Para a realização da reforma é fundamental que a zona euro se dote dos mecanismos necessários para fazer face e prevenir uma nova crise. Neste sentido, um dos novos instrumentos orçamentais que deverão permiti-lo será o Fundo Monetário Europeu (FME), a criar a partir do atual Mecanismo de Estabilização Europeu, mas que deverá ser integrado na esfera comunitária.

O debate, que tem múltiplas variantes, apenas agora começa. É fundamental para Portugal. Tem, no entanto, uma janela de oportunidade: para produzir efeito, as discussões têm de concluir-se até ao verão de 2018, altura a partir do qual no Parlamento Europeu se começará a pensar em eleições (maio de 2019) e na nova Comissão Europeia que daí decorrerá.

A “meta” é, pois, a cimeira de junho, onde as decisões verdadeiramente importantes têm de estar tomadas. Depois, haverá que acompanhar a sua implementação.

"Concluir a união bancária significa coisas ligeiramente diferentes para cada membro do Eurogrupo. Temos de tentar concentrar-nos no terreno comum que certamente temos e temos que o fazer", recordou Mário Centeno numa entrevista recente.

Centeno tem consciência de que o processo de coesão será lento e exigirá paciência, seguramente mais do que uma geração, segundo disse ao Expresso. “Vamos para a Europa na lógica de partilhar ideias, e ideias há muitas”, afirmou. “Não é por falta de ideias que a Europa não evolui. Temos muitas. O que é preciso é coordená-las e tomar decisões”, realçou, para salientar que estas não são fáceis porque há visões políticas muito distintas.

A “ajuda” do crescimento

O ministro das Finanças português chega à presidência do Eurogrupo no início de um ano em que deverá também encolher novamente a lista de países em procedimento por défice excessivo (PDE) na zona euro. Neste momento, apenas dois países da moeda única estão nesse procedimento, precisamente a França e a Espanha, dois “parceiros” de Portugal na cimeira dos países do Sul. É de esperar que Paris atinja esse objetivo já em 2018, mas Madrid deverá ter mais um ano para o fazer.

Um dossiê com potencial para complicar a vida a Centeno é a Grécia, cujo resgate deverá terminar em agosto, depois de oito longos anos.

Centeno terá de pôr à prova todos os seus dotes de "fazedor de consensos", para o qual, aliás, se mostrou disponível e pronto para contribuir. Não é pequena a tarefa, embora a previsão da continuação do crescimento da zona euro dê uma ajuda para manter as boas intenções dos governos da zona euro.

De acordo com as previsões do Instituto alemão Ifo, a economia da zona euro deverá crescer no primeiro e segundo trimestre 0,6% e 0,5% de acordo com as estimativas do instituto alemão Ifo hoje publicadas. É o investimento privado que está a puxar pelo crescimento, segundo o instituto, que divulgou as previsões esta semana.

O consumo privado está também a aumentar de uma forma “robusta” mas a um ritmo mais lento do que na primeira metade do ano de 2017. A inflação, por sua vez, deverá cair dos 1,4% do último trimestre do ano passado para 1,2% no primeiro trimestre deste ano.