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Centeno, de besta a bestial. Por Nicolau Santos

montagem com fotografias de josé carlos carvalho

Da prateleira do Banco de Portugal a ministro das Finanças. E do Governo de Portugal à presidência do Eurogrupo. Depois das críticas, os elogios. Até onde irá o conciliador Mário Centeno quando já se fala num ministro das Finanças para toda a Europa?

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Quando participou pela primeira vez numa reunião do Eurogrupo, a 7 e 8 de dezembro de 2015, Mário Centeno foi recebido com manifesta frieza. Ninguém se levantou para o cumprimentar e houve mesmo quem lhe virasse a cara. Não só se vivia uma grande tensão devido à crise das dívidas soberanas e às políticas de austeridade que Grécia, Irlanda e Portugal tinham sido obrigadas a aplicar, após terem pedido auxílio internacional, como o choque causado pelas atitudes provocatórias do ex-ministro das Finanças grego, Yannis Varoufakis, estava ainda muito presente. Ora, Centeno chegava ao Eurogrupo, onde predomina a família política do PPE, de centro-direita, como ministro de um Governo socialista, apoiado por bloquistas e comunistas; e trazia ideias de política económica para prosseguir o ajustamento claramente diferentes daquelas que os seus pares defendiam, a par da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional, nomeadamente a reposição de salários e pensões, o fim de numerosos cortes que tinham sido impostos ao Estado social ou a descida de impostos diretos.

O ano de 2016 foi particularmente complicado. A política económica alterou-se mas os resultados foram incipientes, com o crescimento a ficar abaixo de 2015. A pressão política foi enorme sobre o Governo português e, em particular, sobre Mário Centeno, para mudar de rumo. Os avisos públicos da Comissão e do FMI sucederam-se. Wolfgang Schäuble, o poderoso ministro alemão das Finanças, disse publicamente por duas vezes que receava que Portugal tivesse de pedir um novo resgate. O presidente do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Klaus Regling, afirmou que estava mais preocupado com Portugal do que com o ‘Brexit’. O presidente do Eurogrupo, Jeröen Dijsselbloem, teve sempre uma posição muito crítica para com o Governo português e disse as palavras mais duras: “Não se pode gastar tudo em álcool e mulheres e depois vir pedir ajuda.”

Por isso, quando em 1 de abril deste ano o Expresso colocou em manchete que Mário Centeno estava na corrida ao cargo de presidente do Eurogrupo, o ceticismo entre políticos e analistas foi geral e muita gente considerou que se tratava da nossa partida alusiva ao Dia das Mentiras. No dia 4 de dezembro comprovou-se que era a mais pura das verdades. Mário Centeno, 51 anos feitos a 9 de dezembro, foi eleito por unanimidade presidente do Eurogrupo, cargo de que vai tomar posse a 13 de janeiro de 2018.

Pesadelo. O ano de 2016 foi particularmente complicado. A política económica alterou-se mas os resultados foram incipientes. A pressão política foi enorme sobre Mário Centeno para mudar de rumo

Pesadelo. O ano de 2016 foi particularmente complicado. A política económica alterou-se mas os resultados foram incipientes. A pressão política foi enorme sobre Mário Centeno para mudar de rumo

FOTO josé carlos carvalho

Mas aquilo que aparentemente seria, do ponto de vista do prestígio internacional, um excelente resultado para Portugal (um país que esteve sob resgate externo entre 2011 e 2015 tem agora dois cidadãos em dois dos mais importantes postos internacionais: secretário geral das Nações Unidas e presidente do Eurogrupo) mereceu reservas do Presidente da República, que, em declarações ao Expresso publicadas no dia 9 de dezembro (o dia de aniversário de Centeno) dizia estar preocupado com o que se poderia passar com o Orçamento do Estado para 2019, devido ao facto de o ministro, para exercer com eficiência o novo cargo, poder estar ausente bastante tempo do país.

“Não há nenhuma razão para preocupação”, responde Centeno. “Como tenho dito, temos um quadro orçamental com um grau de previsibilidade que temos conseguido cumprir ao longo destes anos. Passámos por momentos de maior aperto, como foi o ano de 2016, porque havia pressão externa e internamente a economia não estava a comportar-se como esperávamos. Havia inclusive as antecipações da receita que beneficiaram 2015 e nos trouxeram dificuldades adicionais em 2016. Conseguimos reagir e gerir o orçamento devidamente porque tínhamos as balizas bem definidas. 2017 é talvez o espelho disto. Temos a receita fiscal a aumentar muito mais do que tínhamos previsto, mas estamos com um grau de execução orçamental do lado da despesa absolutamente alinhado com o que tínhamos previsto. Ou seja, nós não estamos a navegar à vista. Termos um quadro que vamos cumprindo e que sabemos que temos de cumprir. E 2019 está dentro desse quadro. Não há razões para preocupação.”

E as relações com o Presidente são frias ou apenas distantes, sobretudo após o caso da Caixa Geral de Depósitos e dos SMS trocados entre Centeno e o então presidente António Domingues, que levaram Marcelo a dizer que só mantinha o ministro no cargo por causa da estabilidade financeira do país? “As relações com o Presidente da República são institucionais. Sou membro do Governo. As relações são com o primeiro-ministro. Quando é necessário haver informação adicional ou matérias que o justifiquem, há essa prestação de informação. São relações normalíssimas, creio eu.”

Mas o caso CGD não deixou mossa? “Sobre o caso da Caixa continuo a achar que falta uma análise longa do processo. Se analisarmos o processo em todas as suas componentes, quando ele começa, dois meses depois de estarmos no Governo, até à sua elaboração há um trabalho muito detalhado, muito difícil, muito difícil. É seguramente o dossiê mais difícil que houve que trabalhar aqui nas Finanças. A Caixa teve dois presidentes, teve uma negociação dificílima com a Comissão Europeia, com o Banco Central Europeu sobre a nomeação de um dos conselhos... Foi uma negociação muito difícil, além do que seria normal.” Porquê? “O tempo o dirá. Se olharmos com distância e para o carácter longitudinal de todo o processo, aquilo era genuinamente difícil.”

Bom, e como é que uma pessoa que não tem perfil para ser diretor do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal é escolhido para presidir ao Eurogrupo? “Cada um toma as decisões no quintal que acha que governa. Os outros quintais são das outras pessoas, felizmente.” A vida de Centeno, contudo, teria sido muito diferente se tivesse ocupado o cargo a que concorreu no Banco de Portugal e cujo concurso ganhou, mas que foi anulado pelo governador Carlos Costa. “Provavelmente, teria feito outras coisas igualmente com o mesmo empenhamento e num contexto diferente. Sim, é verdade, mas isso faz parte das contingências da vida. Quando fui para Harvard estudar, brincava com um amigo meu que nasceu também em Olhão como eu e que tinha sido admitido em Harvard no ano anterior. E eu dizia que estatisticamente era impossível que eles admitissem duas pessoas de Olhão em Harvard em anos consecutivos. E o facto é que isso não foi assim e que aconteceu. São decisões que se tomam e em que nós estamos envolvidos porque estamos presentes.”

Em qualquer caso, é extraordinário que entre novembro de 2015 e novembro de 2017, ou seja, em apenas dois anos, Centeno tenha passado de um ministro das Finanças marginal e olhado com desconfiança para uma quase unanimidade entre os seus pares, que o elegeram agora largamente para presidente do Eurogrupo. Tal só foi possível, como é evidente, porque o ano de 2017 provou por A+B que não havia só um caminho para lidar com a crise; pelo contrário, se houvesse crescimento (e em 2017 ele será de 2,5%, claramente acima dos 1,8% projetados) era possível compatibilizar a devolução de muito do que tinha sido tirado aos portugueses e ao Estado social entre 2011 e 2015 com a redução consistente e acima do esperado do défice e com a diminuição da dívida pública.

Foi isso que Comissão Europeia e FMI foram reconhecendo, corrigindo sempre em alta as suas previsões para a economia portuguesa ao longo do ano, o que culminou com saída do país do Procedimento por Défice Excessivo, para onde tinha caído há seis anos. E foi tudo isso que levou a agência de rating Standard & Poor’s a subir inesperadamente, em setembro deste ano, a notação da dívida portuguesa, retirando-a da classificação de “lixo” e levando a que provavelmente a Fitch tenha feito o mesmo ontem (já depois do fecho desta edição da Revista E) e a Moody’s siga o mesmo caminho no início do próximo ano. Foi ainda isso que permitiu que, pela primeira vez na sua história, a República Portuguesa fizesse uma emissão de dívida a dez anos, em 8 de novembro deste ano, com uma taxa de juro inferior a 2%.

Foi este cartão de visita que levou os pares de Centeno a mudar de opinião? Ou renderam-se às suas ideias em matéria de política económica? “A primeira questão é a de saber se estamos ou não no bom caminho. E a resposta é claramente inequívoca. Todos concordam que sim.” Os seus pares concordam? “Concordam. Se ler os relatórios da última missão da revisão pós-programa quer da Comissão quer do Fundo todos têm uma avaliação positiva sobre o momento em que estamos. Avalia-se o momento e a trajetória recente desse momento.”

“A segunda avaliação é saber se já conquistámos alguma coisa. E daí a minha visão extremamente exigente — daí às vezes as minhas expressões não bem entendidas de ‘saber merecer’. É que nós, na verdade, nestes processos não conquistámos rigorosamente nada. Temos mesmo de manter um caminho que ainda é longo e que nos vai exigir determinação daqui para o futuro, tanto quanto a que tivemos até aqui. Temos que estar preparados para flutuações cíclicas das economias. Como economistas sabemos que elas existem e temos de estar preparados. Portugal hoje está preparado para essas flutuações. Quando temos um défice próximo de 1% numa trajetória que se prevê para 2019 de redução adicional e quando temos a dívida pública em percentagem do PIB a cair, estamos em condições de dizer que temos as almofadas para enfrentar as flutuações cíclicas normais das economias. Mas temos de nos preparar adicionalmente para situações difíceis se tivermos de enfrentar problemas financeiros graves. É preciso continuar, estamos no bom caminho, isso é sinalizado e é avaliado dessa forma, mas há um caminho ainda longo a percorrer e é isso que preocupa, e desse ponto de vista bem, o senhor Presidente da República quando refere 2019. Só não nos podemos esquecer que a seguir a 2019 há 2020 e assim sucessivamente.”

Os bons resultados de 2017 não são fruto essencialmente da boa conjuntura externa? “Temos de saber se nós estamos ou não numa trajetória que é verdadeiramente construída, se não depende essencialmente da conjuntura externa. E aí como já disse várias vezes e estou plenamente convencido que isso é assim, e que não nos estamos a afastar de todo do trajeto que tínhamos estabelecido. O estudo que publicámos em abril de 2015, no lançamento do programa eleitoral do Partido Socialista, é um estudo macroeconómico, com algumas análises mais detalhadas — nesse sentido vale muito com base nas suas hipóteses, na envolvente da economia internacional e das taxas de juro —, mas a verdade é que estamos na mesma trajetória de redução da taxa de desemprego, de redução do défice, de redução da dívida que projetámos naquela altura. Inclusive de aceleração e depois de alguma desaceleração da economia. Ou seja, nada disto é fruto do acaso.”

Passado. Wolfgang Schäuble, o poderoso ministro alemão das Finanças, chegou a dizer publicamente que receava que Portugal tivesse de pedir um novo resgate

Passado. Wolfgang Schäuble, o poderoso ministro alemão das Finanças, chegou a dizer publicamente que receava que Portugal tivesse de pedir um novo resgate

reuters

Muito bem. Mas apesar de tudo isso não será que Mário Centeno foi eleito para presidente do Eurogrupo apenas porque em Bruxelas se pensa na eleição de um ministro europeu das Finanças e o cargo de Centeno vai perder importância? “Se vier a perder é sempre o próximo e não este. Essa contingência não me parece que tenha grande significado no momento da decisão. O processo foi relativamente longo mas muito concentrado na fase imediatamente anterior à apresentação da candidatura e houve conversas ao longo de todo ele. Quem achou que eram coisas do dia 1 de abril ou devaneios veraneantes de quem já estava a pensar nas férias enganou-se. Nestas coisas não convém partir muito cedo nem ser eleito fora do sítio onde essas situações se dão. A verdade é que houve uma afirmação muito clara da disponibilidade para apoiar a minha candidatura, a candidatura de Portugal, por aquilo que Portugal significa.”

Se não tivesse estes resultados económicos para apresentar não seria eleito? “É evidente que não. É fácil dizer que se não fosse o Mário Centeno a estar naquele lugar poderia ser mais fácil ou mais difícil mas não era igual. Quer no momento das minhas afirmações públicas sobre a área do euro quer o que se escreveu no passado e se foi dizendo publicamente nas reuniões do Eurogrupo contaram seguramente para essa avaliação. E a visão que existe de uma perspetiva equilibrada, construtiva e de reforma da área do euro está presente no momento da votação. Não tenhamos a menor dúvida sobre isso.”

Ou seja, Centeno diz que ganhou a confiança dos seus pares devido aos resultados económicos que Portugal foi apresentando mas também pela postura construtiva e pela sua contribuição para o debate teórico em torno da melhor governação na zona euro. Mas será que já conseguiu ganhar a batalha teórica em torno do saldo estrutural, que a Comissão insiste que Portugal não cumpre, ao contrário do que garante o ministro português?

“A discussão já está em cima da mesa e não sei se eles discordam de mim verdadeiramente. Porque a única coisa que eles não têm é que gerir um país, porque se tivessem que gerir um país e comunicar os resultados às pessoas a quem as suas políticas se destinam talvez dissessem coisas diferentes. Lembro-me que, pelo menos do ponto de vista técnico, a presidente do Conselho de Finanças Públicas tem sido muito crítica da metodologia que é aplicada, fazendo aliás referências às constantes alterações à trajetória de base do PIB potencial que está subjacente à metodologia. E dentro da Comissão Europeia também há várias declarações mais ou menos veladas sobre a dificuldade que é gerir aquilo que tecnicamente a diplomacia designa por metodologias acordadas em comum.”

Então como é que se mantém este indicador? “A verdade é que há uma decisão que é de facto comum e que foi transportada para um regulamento em que estipularam as bases do cálculo do tal PIB potencial, que é uma variável que ninguém vê, que ninguém observa e que significa uma dificuldade enorme do ponto de vista político de ser gerida. Essa discussão existe e, como eu disse na minha carta de candidatura, substituir uma metodologia que foi acordada por outra só por facilidade ou por ser mais fácil atingir as metas... O problema não é se é mais fácil ou mais difícil. O problema é saber se nós acreditamos na razoabilidade política e de política económica daquilo que está em cima da mesa. É muito difícil, do ponto de vista da política económica, assentarmos as nossas análises numa metodologia, que depois dá origem a decisões de política e que podem valer entre uma décima e um ponto percentual do PIB, ou seja, entre 200 milhões de euros e 2 mil milhões de euros. Imagine o que é tomar medidas com base numa metodologia que está obviamente errada — não tenho dívidas; está totalmente errada.”

Mas, então, mais uma vez, como é que não se encontra outra metodologia? “A Comissão e o Eurogrupo insistem nesta medida porque quando nós estamos numa monitorização multilateral é muito importante existirem regras. Porque quando é bilateral as coisas podem funcionar de uma maneira mais simples. Multilateral é muito difícil porque estamos sempre a ser confrontados com decisões novas, com decisões que não se enquadram. E é por isso que houve uma tendência e que se manterá nos próximos tempos para estabelecer critérios, porque eles guiam a nossa ação. E a verdade é que naquele momento — e foi uma discussão muito longa, que demorou muitos anos e eu participei nessa discussão enquanto membro do Comité de Política Económica — se estabeleceu o consenso. Acontece que, como em tudo na vida, há consensos que se estabelecem que depois se provam que não estavam certos. Não há mal nenhum nisso. É só ter o tempo suficiente — e na Europa o tempo é uma variável longa — para se poder mudar.”

Contudo, no mesmo dia em que Centeno foi eleito, a Comissão veio mais uma vez dizer que Portugal tem de fazer mais esforços para cumprir o saldo estrutural. “O facto de o comentário geral neste momento por parte da Comissão invocar a metodologia que os países acordaram significa que já não há muita confiança na metodologia. Ela só existe porque foi aquela que foi acordada. E está-se ativamente à procura de uma alternativa. E está mesmo, uns com mais vontade que outros, como em tudo na vida. Mas está. Não sendo assim uma perda enorme, até porque foram introduzindo fatores de flexibilidade na avaliação destas medidas, a verdade é que há uma perceção clara de que ela está errada, de que ela é um embaraço para a análise económica e para a recomendação de políticas e que pode causar estragos mais do que benefícios, o que é um momento ótimo para tentar de facto implementar alternativas, que têm de ser mais simples. Têm de ir mais diretamente às ações dos ministros das Finanças, porque não há nenhum ministro das Finanças que consiga definir o saldo estrutural porque tem por base uma variável que é errática. É é totalmente patético que o PIB potencial, o PIB estrutural, flutue mais que o PIB observado. Isto é obviamente impossível.”

E quanto à questão da dívida? Será que nunca o ouviremos acusar países de gastarem tudo em copos e mulheres e depois pedirem ajuda? “Eu sou do Algarve. E sei exatamente quem é que gasta dinheiro em copos e mulheres.”

Centeno vai colocar aos seus pares o problema da mutualização da dívida? “A mutualização é uma palavra não muito querida e tem também ela de ser desmistificada e assumida pelas diferentes partes. Temos que adotar uma melhor forma de gerir o risco. Temos estado demasiado focados entre redução do risco por um lado, ou mitigação, que é boa parte daquilo que alguns países mais a norte tipicamente sublinham, e a partilha do risco, que é aquilo que ainda há poucos dias o meu colega espanhol referia como sendo a dicotomia. E quando se faz esta dicotomia é sempre referido que é preciso haver uma combinação e uma coordenação entre estas duas ações: a partilha do risco que está mais associada à mutualização e a mitigação do risco, que está mais associada a reformas que permitam que os países que são mais propensos a ter problemas financeiros se reformem eles próprios e reduzam o seu risco. O que é importante é juntar estes dois conceitos num conceito novo, que também refiro na minha carta de candidatura, que tem a ver com a gestão do risco. Quando nós passarmos da dicotomia mitigação/partilha para um conceito mais unificado de gestão do risco podemos compreender melhor porque é que não há mitigação sem haver alguma partilha e como não existe nenhuma forma, em lado nenhum do mundo, de haver partilha se não houver mitigação.”

confiança. Apesar de muito pressionado durante o caso dos “SMS da CGD”, o primeiro-ministro não deixou cair o seu ministro das Finanças

confiança. Apesar de muito pressionado durante o caso dos “SMS da CGD”, o primeiro-ministro não deixou cair o seu ministro das Finanças

marcos borga

Será então que o presidente eleito do Eurogrupo sente a montanha a mover-se? “Nós estamos numa fase importante, não diria inicial desta matéria, de um espaço que tem sido feito para que isto aconteça. Por exemplo, nas últimas conversas que temos tido no Eurogrupo começou a haver já uma importância dada à medição da redução do risco. Porque aqueles que clamam pela redução do risco, clamam-no há muito tempo. E houve muitas coisas que já foram feitas para diminuir o risco. Já temos uma diretiva quer no mercado financeiro quer no mercado de capitais comuns e que na sua maioria já foram transportadas para as legislações nacionais. Temos um mecanismo único de supervisão, temos um mecanismo único de resolução bancária, estamos a evoluir para o sistema de proteção de depósitos único, ou seja, já temos muitas dimensões em que a mitigação do risco com alguma partilha, muito limitada até ao momento, tem avançado.”

Da parte dos países do Norte, em particular dos alemães, há sensibilidade para esta mudança? “É necessário neste momento medir o que é a redução do risco e até onde queremos ir, porque senão torna-se um mantra. Nós continuamos a repetir a mesma frase, ninguém sabe muito bem o que é que aquilo significa e sempre haverá espaço para mais redução do risco, porque em questões financeiras já percebemos que nunca estamos do lado seguro permanentemente. Mas é preciso introduzir as outras dimensões e elas serem feitas de forma concomitante. Eu acho que temos ali um espaço para entrar. Eu diria que no caso da dívida propriamente dita temos ainda um caminho longo para percorrer porque os primeiros fenómenos de verdadeira partilha do risco teremos que os encontrar nos mecanismos de proteção dos depósitos, em mecanismos de estabilizadores automáticos que possam ser partilhados entre os diferentes países e que reduzam os riscos assimétricos que depois em uniões monetárias se propagam muito facilmente. Há um caminho a percorrer.”

E que caminho é esse? “A coisa boa disto é precisamente essa: há um caminho a percorrer que todos sabem que existe e que permite à Europa ter esta perspetiva de que, ao contrário de outras economias como os Estados Unidos e mesmo o Reino Unido, possa fazer com que o potencial de crescimento e estabilização na Europa seja crescente. Porque objetivamente há coisas em que podemos melhorar com alguma facilidade. Acho que há fenómenos que, se bem aproveitados, podem permitir que isso aconteça e nunca há apenas o lado de uma moeda. E envolvem sempre riscos.”

Quais são os aspetos positivos e os riscos? “A parte boa é que, na verdade, este é o período de maior sucesso na implementação de reformas e do seu impacto positivo na Grécia. A Grécia está num período bastante positivo do seu trajeto, reformista e de crescimento, e é preciso não descarrilar. Depois há outra parte boa, que são os ciclos políticos na Europa. O Presidente francês foi recém-eleito. Na Alemanha estamos a iniciar um ciclo político novo. Na Itália vamos também iniciar um novo ciclo no início do ano, com mais legitimidade do ponto de vista da sua renovação. E isso é muito importante. Estas partes que são positivas devem ser usadas.”

O que é que paradoxalmente pode colocar em risco esta situação? “O facto de que os grandes blocos políticos na Europa, que sempre se construíram à volta da democracia cristã e dos partidos ditos populares e os partidos sociais-democratas estão neste momento desafiados à sua esquerda e à sua direita. Se olharmos historicamente para a Europa, quer o partido popular em Espanha, quer a direita em França, quer a CDU/CSU na Alemanha, quer os conservadores no Reino Unido, um pouco também na Itália, a direita europeia nunca teve um grande desafiador à sua direita. E isso é uma situação nova que entretanto se estabeleceu. Acho que os partidos de centro-direita não podem já apenas estar a combater ao centro, esquecendo e dando por adquirido todo o pendor mais à direita e vão ter que alterar as suas estratégias. E essa alteração estratégica faz com que haja — embora com riscos — um ambiente para fazer consensos. Ao fazerem um discurso mais radical, esses partidos da direita alienam o centro. A forma de poderem manter o equilíbrio que têm mantido nos últimos anos é, em vez de gerir a situação, avançar. E é aí que as tomadas de posição podem vir a ter a sua relevância.”

O pacote recentemente apresentado pela Comissão fala em crescimento, emprego e convergência. Quem fará isso? O Banco Central Europeu? “Não será o BCE. Não é possível. Não é a tradição europeia. Precisamos de criar essas instituições. O FME é mais um mecanismo de estabilidade. Mas às vezes basta que existam os mecanismos que propiciem a estabilidade e previnam especulações, ataques e flutuações muito significativas nas economias para que elas encontrem o seu caminho. Nós estamos convencidos que é preciso um pouco mais, e que é preciso apoio ao investimento e mecanismos de estabilização adicionais face a eventos específicos nas economias, mas a verdade é que existe aí alguma capacidade dentro dessas instituições, dentro dos tratados para que os mecanismos, mesmo que do ponto de vista económico possam ser considerados um pouco mais incipientes, da dimensão orçamental da União Europeia poder ser usada de forma mais focada no tal crescimento e na coesão.”

Um processo que será lento e exigirá paciência. “Estamos sempre a falar, e é bom que tenhamos consciência disso, de um processo muito longo no tempo. Quando olhamos para a convergência dentro dos Estados Unidos da América, que também são uma união monetária com muitos mais anos que o euro, que partilha muitas instituições, os processos de convergência entre as diferentes regiões, entre os diferentes estados, são um processo longo, não é um processo para uma geração.”

No horizonte está o Fundo de Garantia de Depósitos e o Fundo Monetário Europeu, mas vai demorar algum tempo. “E é por isso que eu tenho vindo a realçar a ideia que em política o tempo é uma variável que tem de ser gerida com muita parcimónia e que tem de ser entregue aos cidadãos e às empresas por quem tem que ter mais paciência entre agentes económicos, que é obviamente o Estado, neste caso a União Europeia. Se não tivermos paciência não vale a pena nenhum destes esforços. É absolutamente crucial. E os movimentos populistas aparecem quando os Estados entram em modo de pânico e em aparente descontrolo daquilo que é a sua capacitação original.”

E que outras ideias leva Centeno para debater no Eurogrupo? “Eu já tinha referido isto várias vezes internamente quando assumi que o Estado tinha de ter alguma prerrogativa no processo de recuperação da economia portuguesa, em particular na área financeira. Há uma hierarquia de agentes económicos: o Estado, as empresas, as famílias. E as maiores restrições de liquidez nesta hierarquia quando se colocam ao Estado é quando as economias estão em verdadeiros problemas. Como as restrições de liquidez estão muito associadas à paciência, porque os agentes mais pacientes são aqueles que têm menos restrições de liquidez, a ordem natural das coisas é que os Estados são aqueles que têm de ter menos restrições de liquidez, a seguir são as empresas e depois as famílias. O que significa também que os Estados, as organizações das administrações públicas, devem oferecer seguros e proteção às empresas e as empresas devem fazer o mesmo em relação às famílias. Porque quem é mais avesso ao risco são as famílias, depois as empresas e por fim o Estado. Mas como a aversão ao risco joga mal com a ponderação e não pode ser sinónimo de falta de ponderação ou de falta de cuidado na gestão de todas estas relações é muito importante haver aqui também aquilo que nos tratados da União Europeia se tentou colocar como uma espécie de pesos e contrapesos. Nós não podemos outorgar a nenhum destes agentes a capacidade de fazer aquilo que lhe dá na cabeça. É preciso haver aqui uma visão de mais médio/longo prazo. E é isso: tomar as decisões certas e mantê-las. Esta ideia de estarmos sistematicamente a rever coisas que decidimos há seis meses, um ano, dois anos, não tem sentido nenhum. Mas se de facto não provarem temos de atuar.”

Futuro. Mário Centeno, 51 anos feitos a 9 de dezembro, foi eleito por unanimidade presidente do Eurogrupo, cargo de que vai tomar posse a 13 de janeiro de 2018

Futuro. Mário Centeno, 51 anos feitos a 9 de dezembro, foi eleito por unanimidade presidente do Eurogrupo, cargo de que vai tomar posse a 13 de janeiro de 2018

marcos borga

E garante: “Vamos para a Europa nesta lógica de partilhar ideias — e ideias há muitas. Não é por falta de ideias que a Europa não evolui. Temos muitas ideias. Temos que as coordenar e tomar obviamente decisões, que não são fáceis, porque há visões políticas muito distintas mas há um consenso sobre a necessidade de tomar algumas decisões.”

E com tanto trabalho pela frente não se vai esquecer que é ministro das Finanças de Portugal? “Não vou esquecer que sou ministro das Finanças de Portugal. Há uma grande diferença entre este lugar e outros que têm sido referidos como similares. Este é muito diferente. É daqueles em que a relação entre quem ocupa o lugar de presidente do Eurogrupo e as suas funções governativas não é destruída, não desaparece e isso muda tudo completamente.”

E Portugal? O presidente do Eurogrupo não vai passar a olhar com outros olhos para a trajetória de Portugal? “Nós vamos evoluindo no nosso pensamento e isso é uma coisa boa. Podemos obviamente trazer para esse pensamento novos argumentos e novas formas de ver. São necessárias regras. As exigências que se colocam a Portugal não são colocadas pela Europa mas sim pela fragilidade da situação, que hoje é melhor do que há uns anos, mas que ainda existe e temos de acautelar o futuro. E aquilo que tenho dito é que não vejo melhor maneira de acautelar o futuro, nesta fase, hoje, da economia portuguesa e da política orçamental em Portugal que não seja reduzir a dívida.”

Em valor absoluto também ou só em percentagem do PIB? “O indicador que nós usamos é a dívida em percentagem do PIB. Um país cuja riqueza cresce mais que o seu endividamento já está no bom caminho. Apesar de termos as taxas de juro baixas, quando comparadas com outros países europeus, continuamos a ter um peso dos juros no PIB bastante elevado. Todos ganharíamos se pudéssemos reduzir mais significativamente esse montante. Temo-lo feito nominalmente nos últimos anos. Temos de manter essa linha sem comprometer os fatores de crescimento da economia portuguesa. E se fizermos como outros já fizeram na Europa — eu dou sempre o exemplo da Bélgica, o que significa que isso é possível fazer — os fatores de crescimento que hoje a economia portuguesa tem quer nas suas qualificações, quer nos investimentos estruturais que já fizemos e que estamos a pagar e que precisamos de utilizar e de tirar deles retorno, quer dos que temos de fazer no futuro, e temos de ser muito, muito seletivos, vão permitir-nos ter um enquadramento dentro da área do euro que é seguramente virtuoso e que todos desejamos em Portugal.”

E quanto ao futuro próximo de Mário Centeno? “Se o futuro for já janeiro, temos uma missão muito importante para desempenhar enquanto presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças. É seguramente o Mário Centeno e o Mário Centeno não retira de si nenhuma das exigências que a situação atual lhe coloca. É o ministro das Finanças de Portugal que está como presidente do Eurogrupo, porque se eu não fosse ministro das Finanças não estaria presidente do Eurogrupo. E isto é completamente diferente de presidente da Comissão.”

E isto tem a ver com a própria pessoa? “Tem a ver com o lugar que a pessoa ocupa em Portugal. Temos de participar muito ativamente nos primeiros seis meses no debate até à cimeira de junho, onde verdadeiramente decisões importantes têm de estar tomadas e depois temos que acompanhar a partir desse momento a implementação dessas decisões. Estou muito consciente da exigência adicional mas também da necessidade de atuar aqui em Portugal. O lugar de presidente do Eurogrupo faz com que Lisboa passe a ser uma das capitais da Europa. Se não quisermos embandeirar em arco, vamos ter muita gente a visitar Lisboa porque o presidente do Eurogrupo é ministro das Finanças de Portugal. As minhas reuniões mais importantes não vão ser em Bruxelas. Vão ser em Lisboa quando receber colegas e outros intervenientes neste processo e isso vai ser visível a muito breve trecho quando outros colegas e outras individualidades europeias visitarem Lisboa para se encontrar com o presidente do Eurogrupo. E esse é um dos sinais mais importantes de como Lisboa ganhou centralidade neste processo com esta nomeação.”

Um cargo, portanto, que lhe deu grande satisfação. “Uma grande satisfação pessoal e para a minha equipa. Não me tenho cansado de o dizer. Estamos muito convictos de que vamos cumprir esta função.”