Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Mais um português candidato à ONU

António Vitorino, ex-ministro, ex-comissário europeu, desta vez comparece à festa

alberto frias

António Vitorino é o candidato português a diretor da Organização Internacional para as Migrações (OIM)

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

A informação começou a correr no oráculo da SIC e nos onlines em dia aziago para notícias destas: anúncio da candidatura de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo, morte de Zé Pedro e início das exéquias de Belmiro de Azevedo. O facto de ter passado em silêncio não significa, porém, que seja menos verdadeira. Portugal prepara-se para candidatar António Vitorino ao cargo de diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), que ficará vago em junho do próximo ano.

O Governo não quis fazer muito alarde sobre o assunto, até porque estava em pleno curso a campanha diplomática que foi coroada com a eleição de Centeno. Limitara-se a fazer um comunicado, que distribuíra às embaixadas, e calara o assunto por aqui. Mas na terça-feira à noite já se sabia o que o Presidente da República desvelava em Madrid, numa entrevista ao “El País”: que a “a eleição de Centeno não seria a última do ano com nome português”.

Falando sobre a presença de Portugal nos diversos continentes e na capacidade de fazer pontes, Marcelo Rebelo de Sousa adiantava que “a eleição de Centeno e a que proximamente pode haver nas Nações Unidas demonstra que não se trata de algo acidental”. Só faltava dizer o nome e o cargo, mas para bom entendedor meia palavra basta.

A entrevista era complementada por um artigo sobre a “buena diplomacia” portuguesa, “discreta mas perseverante”. Oficialmente, portanto, esta ainda aguarda que lhe sejam dadas ordens para começar a trabalhar num novo objetivo. Segundo o ministro Santos Silva disse ao Expresso, a “ponderação da candidatura” estará terminada em breve e o seu anúncio deverá ser oficializado na próxima semana.

Não será fácil a tarefa, embora o nome de António Vitorino seja suficientemente conhecido nos meios europeus e internacionais que lhe estão relacionados. Desde que foi comissário europeu, entre 1999 e 2004, com a pasta da Justiça e Assuntos Internos, não mais deixou de se dedicar a estes assuntos a nível internacional, presidindo ou participando em diversos institutos, mas também a nível nacional, onde os seus conselhos aos políticos (e primeiros-ministros) do seu partido se tornaram imprescindíveis. E se o próprio costumava dizer que “não há festa nem festança sem a D. Constança”, desta vez comparece.

O seu currículo é conhecido, e as migrações sempre foram uma área sobre a qual se debruçou, tanto quando era comissário como, antes disso, deputado do Parlamento Europeu, em que integrou a Comissão das Liberdades Públicas. O tema acabou por se tornar decisivo e “inescapável” nos dias de hoje, a necessitar de resolução.

O que é a OIM?

A Organização Internacional para as Migrações é um órgão das Nações Unidas criado em 1951. Com sede em Genebra (onde estão os demais organismos da ONU), é a principal organização intergovernamental dedicada ao tema. Conta com 166 Estados-membros e oito Estados com estatuto de observador, além de dezenas de organizações não governamentais em todo o mundo. As suas áreas de atuação referem-se sobretudo ao combate à migração forçada, migrações e desenvolvimento, facilitação e regulação/gestão da migração, fornecendo serviços e aconselhamento tanto a governos como aos próprios migrantes.

O seu diretor-geral é atualmente o embaixador norte-americano William Lacy Swing, de 73 anos, que em junho terminará o seu segundo e último mandato. Para ganhar, o candidato tem de obter dois terços dos votos, o que não é pouca coisa. Tal como para Guterres, vai obrigar a um grande empenho da diplomacia e não é certo o troféu. Tem menos visibilidade e escrutínio público do que a candidatura do antigo primeiro-ministro, mas exigirá igual esforço. No fim, a crer no “El País”, até pode ser que, “seja pela língua, os modos discretos e corretos ou a pretensão de nunca ser o primeiro mas os segundos”, Portugal ganhe. O grande trunfo da “diplomacia portuguesa tem sido o de não se impor e fazer surgir o país como um interlocutor que não ameaça ninguém”, dizia um diplomata experimentado nestas andanças. A ver.