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Uma lança em Bruxelas

Mário Centeno era um candidato improvável de um país improvável. Mas o caminho da diplomacia e da economia portuguesa deram frutos. O ministro português é o novo presidente do Eurogrupo

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Faz agora quase nove meses desde a primeira vez em que Mário Centeno foi falado para eventual candidato a presidente do Eurogrupo. E tem até uma data certa: sexta-feira, 24 de março, em Roma, véspera dos festejos oficiais a propósito do 60º aniversário do Tratado de Roma, o mesmo é dizer, da fundação da que é hoje a União Europeia. A ocasião foi um jantar dos primeiros-ministros socialistas presentes na capital europeia para festejar o acontecimento.

Eram mais nessa altura, embora se soubesse já que o Presidente francês Hollande estava de saída e que dificilmente um outro socialista lhe sucederia no cargo. O presidente do Eurogrupo, o ministro das Finanças holandês Jeroen Dijsselbloem, um socialista de visão ortodoxa, tinha acabado de conseguir fazer o pleno entre as famílias europeias socialista e popular com a sua “boutade” de que os países do Sul eram mais “copos e mulheres”

As suas declarações, feitas precisamente na terça-feira anterior da mesma semana a um jornal alemão, caíram mal e o Governo português não perdeu a oportunidade de pedir a sua demissão. Os socialistas europeus elevaram o tom de voz, o PPE foi mais além e pediu oficialmente a sua saída.

Por isso, naquele jantar em Roma, um dos temas evocados foi precisamente a saída de Dijsselbloem. A 15 de março, as eleições legislativas na Holanda ditaram a saída dos trabalhistas do leque de uma eventual coligação e o até então ministro das Finanças teve ali o seu destino traçado. Por mais que pudesse demorar a encontrar-se a chave de governo (e demorou), o máximo que Dijsselbloem podia aspirar era terminar o seu mandato, que se conclui em janeiro de 2018. Isto, para resumir o que sucedeu ao longo destes meses, em que não foram poucas as manobras que entretanto se gizaram no sentido de o perpetuar no poder (e avançava-se a hipótese de um presidente do Eurogrupo poder sê-lo sem ser ministro em funções).

O novo presidente do Eurogrupo, Mário Centeno

O novo presidente do Eurogrupo, Mário Centeno

reuters

O primeiro consenso

Certo é que um primeiro consenso se gerou nessa matéria: insistir que o próximo ministro das Finanças pertenceria mesmo à família socialista, no âmbito do acordo não escrito de partilha de cargos entre o PSE e o PPE e, nesse caso, assentar quem tinha possibilidades. E assim surgiu o nome de Mário Centeno, a par, diga-se de passagem, do eslovaco Peter Kazimir e do italiano Pier-Carlo Padoan.

De fora ficavam Michel Sapin, o ministro francês, e o ministro grego nem da família participava. Embora votasse. António Costa esteve nesse jantar e agarrou a oportunidade com ambas as mãos. Centeno foi sondado. Mas havia ainda muito caminho a percorrer.

Por um lado, Portugal era ainda nessa altura um país sob procedimento de défice excessivo e as contas do último ano, embora boas do ponto de vista financeiro, nomeadamente em termos de redução do défice, não tinham sido fantásticas do ponto de vista de crescimento económico.

Por outro, o PPE não decidira ainda se apresentaria ou não candidato. O ministro espanhol De Guindos - que em 2015 tinha perdido a eleição para Dijsselbloem - era ainda visto como uma cartada. Espanha estudava ainda as possibilidades de o candidatar para a vaga que Vítor Constâncio vai deixar no Banco Central Europeu em fevereiro de 2018 e que lhe interessava mais.

De entre todos os candidatos, o italiano Padoan era o que reunia mais consensos. De reputação mais que estabelecida, com um currículo imaculado e um dos únicos de outra família política que - diz-se - o alemão Wolfgang Schauble escutava com atenção. Tinha um senão: havia demasiados italianos na estrutura das instituições europeias: Federica Mogherini, Alta Comissária, Mário Draghi, à frente do BCE, Antonio Tajani, presidente do Parlamento Europeu. A eleição do presidente do Eurogrupo faz-se precisamente atendendo a estas duas dimensões: a política (das famílias) e a geográfica.

A saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, em junho, é um novo e significativo passo. O trabalho de Mário Centeno é reconhecido, Portugal entra no clube dos “alunos de sucesso” e o ministro português é reconhecido pelo próprio Schauble como o “Ronaldo do Ecofin”, uma espécie de mago, afinal, que consegue driblar e marcar golo. Pouco se falava ainda nos meios políticos europeus, mas a candidatura de Centeno começou a ganhar força entre os bastidores.

Entretanto, com o início do outono, fica claro para Espanha que o lugar certo para De Guindos é mesmo o BCE. A 7 de novembro, este anuncia oficialmente que não é candidato a presidente do Eurogrupo e, mais, que o seu país apoia Centeno, que “a afinidade ibérica existe e é conhecida”. Portugal acabava de ganhar um aliado de peso no PPE. Desde essa altura, o ministro espanhol foi um dos maiores aliados da candidatura

epa

O alinhamento dos astros

Tudo começava a encaminhar-se. Em cada reunião internacional ou Conselho Europeu a diplomacia portuguesa, com o próprio Primeiro-ministro à cabeça, não perdia a oportunidade de falar do assunto. Por outro lado, as eleições alemãs de setembro tinham marcado uma nova etapa, a saída de cena do seu poderoso ministro das Finanças. O fracasso da chamada “coligação Jamaica”, reunindo CDU, liberais e Verdes, e a hipótese de reedição da “grande coligação”, que o líder social-democrata Martin Schulz tinha recusado a seguir às eleições, dá um novo impulso à candidatura de Centeno.

António Costa percebeu-o rapidamente. Foi rápido a telefonar a Schulz. Estava-se já na reta final e a cimeira UE -África, a 29 e 30 de novembro afigurava-se a ocasião ideal para os derradeiros contactos. O tempo urgia. Era até às 11h de dia 30 que os concorrentes tinham de apresentar a sua candidatura.

Na cimeira, dois contactos decisivos: do líder francês “independente”, Emmanuel Macron, que até então não tinha manifestado a sua preferência. Costa tê-lo-á convencido. E a chanceler Angela Merkel, em plenas negociações com o SPD, não terá achado pertinente recusar o candidato da família socialista. Era um nome de peso a dar indicação de voto entre os populares. O PPE já assumira entretanto que não ia apresentar candidato próprio e que o cargo era da responsabilidade dos socialistas: “eles que se entendessem”.

Entenderam-se, de facto. Numa espécie de “sondagem” entre os ministros socialistas, saem dois grandes favoritos, o italiano Padoan e o português Centeno. O eslovaco Kazimir é afastado, embora continuasse a correr em pista própria. Até que o próprio Padoan desiste - não tendo garantias de poder continuar como ministro a seguir às eleições italianas, na primavera - e Otália assume o apoio a Centeno.

Os candidatos à presidência do Eurogrupo, da esquerda para a direita: o eslovaco Peter Kazimir, o luxemburguês Pierre Gramegna, a letã Dana Reizniece-Ozola e o português Mário Centeno

Os candidatos à presidência do Eurogrupo, da esquerda para a direita: o eslovaco Peter Kazimir, o luxemburguês Pierre Gramegna, a letã Dana Reizniece-Ozola e o português Mário Centeno

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Outros sete países europeus (tirando Portugal) manifestaram-se a favor de Centeno. A família liberal europeia manteve que apresentaria o seu candidato, o luxemburguês Pierre Gramegna, para fazer ver que eles também começam a dar cartas no xadrez europeus. Os bálticos reuniram-se em torno da candidata da Letónia, Dana Reizniece-Ozola. Era um princípio de vitória.

António Costa ficou confiante e afirmou: “Temos candidato, temos presidente, se não houver surpresas”. Eram quase 11h da manhã quando o seu gabinete anunciou a candidatura oficial do ministro das finanças. No fim, não houve surpresas. O cenário de uma segunda volta entre Centeno e o luxemburguês era o mais plausível e, aí, o PM português tinha a garantia que seria Centeno. Foi. O seus dotes de negociador provaram-se uma vez mais.

O “karma” serve-se frio? Assim parece. É um homem dos países do Sul, os tais que gastam tudo em “copos e mulheres”, que sucede ao seu detrator.

Para Portugal é uma oportunidade de ouro. Num momento em que se vai começar a discutir a reforma da união económico-monetária, será a Mário Centeno que caberá (também) pilotar um caminho. A nível interno será outra história.