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O que faz o presidente do Eurogrupo?

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Se for eleito, Mário Centeno terá gabinete em Bruxelas, não pode faltar a nenhuma reunião e deverá aumentar o seu gabinete à custa do Orçamento do Estado português

Ficar com a cadeira de presidente do Eurogrupo implica aceitar um trabalho que bem podia ser a “tempo inteiro” sem receber qualquer salário. Em compensação, o vencedor da eleição de segunda-feira entra numa esfera de poder e de decisões que lhe deverá dar uma maior influência política.

Se for eleito, Centeno passará a ir às reuniões do G7 e terá de saber impor-se como líder do grupo dos 19 países da moeda única. Terá de preparar cada reunião — há praticamente uma por mês — e chegar com os consensos alinhavados, para evitar ficar com as culpas se falhar o entendimento entre ministros.

Ser presidente do Eurogrupo implica não falhar nenhuma reunião. Ainda em outubro passado, Mário Centeno faltou ao encontro no Luxemburgo para fechar as contas do Orçamento português. E não foi a primeira nem a segunda falta. Em abril, também não esteve na reunião em Malta, onde foi substituído pelo secretário de Estado Adjunto e das Finanças. Se for eleito, terá de saber acumular a pasta nacional e a europeia, e isso, a olhar para o exemplo holandês, deverá implicar um reforço da equipa que trabalha com ele, quer ao nível técnico e político quer ao nível da comunicação. Um reforço que, a concretizar-se, deverá ser custeado pelas finanças portuguesas.

Em Bruxelas, no edifício do Conselho, há uma “pequena suíte” reservada ao presidente do Eurogrupo. Mas o ministro português não teria de mudar-se para a capital belga, tal como Jeroen Dijsselbloem não o fez.

Quando foi eleito, há cinco anos, o holandês não era a fera política em que se transformou ao longo do tempo, em particular durante a crise grega, quando fez frente ao então ministro Yanis Varoufakis e aguentou um braço de ferro que culminou no terceiro programa de resgate à Grécia. É o Eurogrupo que dá o carimbo final à avaliação do programa de assistência e que autoriza o desembolso das tranches financeiras para Atenas. A responsabilidade de dar a cara pelas decisões difíceis, pelas exigências do Grupo do Euro e de fazer avisos aos incumpridores está agora muito perto de passar para as mãos de Mário Centeno.

O ministro português promete um novo estilo e uma viragem em relação à presidência anterior, mas a pressão política não deverá diminuir para que faça cumprir as regras. Centeno diz que quer um clube mais transparente, mas o Eurogrupo é conhecido pela opacidade. É um grupo informal, onde o rumo tem sido muitas vezes ditado por quem ocupa a cadeira da Alemanha. Centeno terá de ter jogo político se quiser impor uma nova dinâmica, sem ficar refém do eixo franco-alemão ou de qualquer outro.

Centeno terá também de lidar com toda a imprensa que segue os assuntos económicos em Bruxelas. O ministro raramente fala à entrada para as reuniões do Eurogrupo. Se se tornar presidente, terá de falar antes e depois dos encontros.