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Rui Rio e Pedro Santana Lopes: os dois da vida laranjada

Rui Rio e Pedro Santana Lopes estão no PSD há 39 anos, são muito diferentes, mas têm em comum uma história partidária de encontros e desencontros. Nunca houve química entre eles, mesmo quando estiveram juntos. Um vai liderar o partido

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

*

Jornalista da secção Política

Esta é a história de uma dupla improvável. Da mesma geração, do mesmo partido, quase da mesma idade. Cruzaram-se muitas vezes, mas viveram os últimos 40 anos em registo cordial-distante. Mais distante do que cordial, mas nem por isso desatento. Em dois momentos-chave da história política recente, encontraram-se para tomar o pulso um ao outro. Primeiro no Porto, depois em Lisboa. E a intuição não os enganou. O futuro do PSD pós-Passos Coelho passa por eles, e o primeiro a ter a perceção disso foi Pedro Santana Lopes, que em 2013, quando o Governo PSD/CDS sofria na pele e na rua o desgaste da austeridade, se lembrou de ir à Câmara do Porto auscultar Rui Rio. Em 2015, foi a vez de Rio lhe bater à porta, em Lisboa, para o ouvir sobre presidenciais. Andam nisto há anos. Um deles vai ganhar o PSD.

“Vou ter contigo”

No ano de brasa de 2013, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas suavam a governar o país sob as ordens da troika, Santana era provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), tinha uma reunião na Invicta, e telefonou ao então presidente da capital do Norte: “Vou ter contigo à câmara.” Rui Rio andava a criticar o Governo, e Santana, que é bom a cheirar o ar dos tempos, quis saber de perto o que ia na alma do homem que já por duas vezes tinha recusado candidatar-se à liderança do PSD. “Achei que qualquer coisa no futuro podia passar por nós”, conta Pedro. “A conversa com o Rui durou horas, foi muito distendida e sincera e saí de lá com a sensação de que ele tinha ambição além do Porto.” Rio confirma esse encontro, mas tira-lhe segundas intenções. “Fiquei com a sensação de que foi uma conversa absolutamente aberta e sem taticismo.” A intuição de Santana confirmou-se: ambos tinham mais ambições.

Na altura, também falaram do passado recente de cada um e Santana deixou cair o desabafo: “Se soubesses como te invejo. Estiveste aqui 12 anos, fizeste o teu trabalho, deixas a tua marca e eu, por causa do PSD, interrompi na Figueira, interrompi em Lisboa…” Saíram sem mágoas e não tardou até Rio o convidar para dar uma conferência no Porto.

Ascenção 1. Rio (segundo a contar da direita) começou na JSD, onde foi ‘vice’ de Pedro Pinto

Ascenção 1. Rio (segundo a contar da direita) começou na JSD, onde foi ‘vice’ de Pedro Pinto

fotografias arquivo expresso

Ascenção 2. Santana atirou-se cedo ao PSD, acompanhando Sá Carneiro, José Miguel Júdice e Conceição Monteiro

Ascenção 2. Santana atirou-se cedo ao PSD, acompanhando Sá Carneiro, José Miguel Júdice e Conceição Monteiro

fotografias arquivo expresso

Em 2015, antes do verão, já liberto das funções autárquicas e quando o seu nome surgia em todas as listas de presidenciáveis, foi a vez de Rio se deslocar a Lisboa para falar com Santana. Encontraram-se no escritório de advogados do segundo, na Rua Castilho, e o tema foi Belém. Santana Lopes admitia candidatar-se, Rio queria saber se ele ia mesmo. Se não, Rio admitia ponderar. Mais uma conversa simpática, mas Pedro não abriu a estrada a Rui — pelo contrário, disse-lhe que ainda não tinha tomado uma decisão. Haveria de ser Marcelo a tomar conta da ocorrência.

Não era surpreendente que, nessa altura ou noutra qualquer, Santana Lopes se deixasse tentar pela ideia de assumir maior protagonismo. Era a concretização da sua própria profecia, feita no congresso em que deixou a presidência do PSD, em 2005, avisando que ia “andar por aí”. Por aí tem andado. Rio também.

Desde o início de 2014, pela primeira vez desde que se estreou como deputado em 1991, Rui Rio não tem um cargo político. Voltou ao sector privado, como consultor de duas empresas de recursos humanos, onde exerce funções de head-hunter — os “caçadores de cabeças” que escolhem quadros para as direções das empresas. Mas é a sua cabeça que uma parte do PSD quer ver na direção do partido. Desde 2008, quando quase aceitou ser candidato a líder, nunca mais deixou de figurar nas bolsas de apostas para a chefia do PSD ou para a corrida presidencial. Mesmo sem o feitio de Santana para a autopromoção instantânea, Rio deixou sempre correr o marfim. A sua cotação nos mentideros do PSD subiu enquanto a de Santana, que optou por uma travessia calma na SCML, esmoreceu. Talvez sem surpresa, os dois encontraram-se nesse meio caminho.

“Concordo completamente”

A nomeação para provedor da SCML, assinada por Passos em setembro de 2011, deu a Santana gravitas, ocupou-lhe as mãos e a cabeça e afastou-o da intriga partidária instantânea, que fez boa parte da sua história. E não apenas a história antiga: em março de 2011, seis meses antes de Passos o sentar na cadeira de provedor, Santana dava uma entrevista em que ameaçava, mais uma vez, sair do PSD e fundar um partido novo. Há anos que as suas iniciais, PSL, equivaliam, na sua cabeça, às de um eventual Partido Social-Liberal. Em março de 2011, mesmo antes do chumbo do Programa de Estabilidade e Crescimento que levaria Passos Coelho ao poder, Santana anunciava que já tinha “222 pessoas” a “trabalhar todos os dias” para “a criação de um movimento político” que, admitiu, “pode ou não” dar lugar a um novo partido. “Esse movimento pode acabar mesmo com a sua saída do PSD?”, perguntou a entrevistadora. “Não sei”, respondeu Santana. Mas indiciou que sim: “Sinto-me longe, sinto que o sistema político precisa de novas causas.” Havia que reconhecer que “o sistema está esgotado”. Soa familiar?

Há anos que Rui Rio alertava para os sinais de esgotamento do regime democrático. E, como Santana, também não escondia que se sentia “distante” do mainstream, embora o seu feitio não fosse o de andar a exibir estados de alma. O distanciamento de Rio era assinalado de forma mais cirúrgica. Enquanto Passos fazia caminho para provocar eleições antecipadas, Rio avisava: “Se houvesse eleições antecipadas, não haveria uma mudança de regime, mas uma mudança de Governo. Isto é de tal forma grave que uma troca de governo é insuficiente.

rui duarte silvA

Media. Santana sempre se expôs muito, numa “atração fatal” pela comunicação social que o levou a ser empresário no sector; Rio geriu sempre com desconfiança uma relação muito tensa com os jornalistas

Media. Santana sempre se expôs muito, numa “atração fatal” pela comunicação social que o levou a ser empresário no sector; Rio geriu sempre com desconfiança uma relação muito tensa com os jornalistas

ana baião

“Concordo completamente”, responderia Santana: “É isto que nos aproxima. Acho que estamos no fim desta República. Precisamos de mudar a organização da justiça, o sistema de governo, o sistema eleitoral, a organização administrativa, o sistema partidário.” O ex-presidente da Câmara de Lisboa não ia tão longe como o homem do Porto — que afirmou na mesma ocasião que “o sistema de justiça funciona pior do que no tempo da ditadura, só não há os julgamentos políticos, de resto, está tudo claramente pior” —, mas pareciam mesmo afinados.

Tanto que Santana via em Rio, nessas primeiras semanas de 2011, “o líder certo” para o PSD. A equipa de Passos Coelho já cheirava a poder, mas o ex-primeiro-ministro cheirava apenas a oportunidade de beliscar um líder de quem estava tão distante como quando disputaram a presidência do partido, um ano antes. “No momento extraordinário que o país vive, não tenho dúvidas que um perfil de gestor austero, frontal e rigoroso como o de Rui Rio podia suscitar muito maior entusiasmo”, disse Santana. “Quando penso em Rui Rio sinto que está ali um líder certo, adaptado à situação atual.” No passismo, Miguel Relvas achou “normal” o elogio, lembrando que Rio fora “primeiro-vice-presidente de Santana Lopes quando foi líder do partido”. António Nogueira Leite considerou “curioso, quase divertido, ouvir Santana Lopes tecer considerações sobre a capacidade de alguém ser ou não primeiro-ministro...”

Herdeiros de Durão: do tudo ao nada

Sim, temos de falar desse assunto: aqueles meses em que Santana liderou o PSD e o Governo. Foi a fase em que foi mais próximo de Rio. O que não quer dizer muito — a proximidade sempre lhes foi relativa. Na verdade, nunca houve química. “Temos uma atitude de respeito mútuo, mas não há uma aproximação grande. Não é porque os nossos feitios possam chocar, mas também não se atraem. Acontece com muitas pessoas...”, diz Rio ao Expresso.

Em agosto de 2004, em entrevista à “Visão”, Rio referia-se assim ao então primeiro-ministro: “Só posso dizer bem de Santana. O meu estilo não tem o exclusivo da competência e do sucesso”, admitia, assegurando que o então líder do PSD “tem mais consistência do que a imagem que têm dele”. Nesse tempo, quando desabava sobre Santana Lopes o sistema mediático que durante anos lhe abriu caminho, Rio defendia-o. “Este Governo e o primeiro-ministro merecem uma avaliação justa. E não merecem o que a maior parte da comunicação social está a fazer.”

Entre Santana e os media, Rio escolhia Santana. Não só pela reserva que sempre teve em relação aos media, mas sobretudo porque ele, Rio, ajudara a colocar Santana onde ele estava. Ambos foram vice-presidentes de Durão, depois de terem sido determinantes no caminho que o levou ao poder — na mesma noite de 2001, contra todas as expectativas, Rio conquistou a câmara do Porto, Santana fez o mesmo em Lisboa, e tudo conjugado deu um “pântano” político do qual António Guterres fugiu. A história depois é conhecida, e nela Santana e Rio ficaram em lugar de destaque.

alberto frias

rui duarte silva

Com Durão Barroso primeiro-ministro, o autarca da capital sentava-se do seu lado direito nas reuniões da comissão permanente do PSD, e o da Invicta do seu lado esquerdo. As diferenças entre ambos já então davam nas vistas. Pedro não faltava a uma reunião da direção do PSD e alongava-se nos debates de política pura e dura. Rui por vezes não se deslocava a Lisboa e preferia sempre intervir nas discussões de temas económico-financeiros ou sobre duas das suas grandes obsessões: a Justiça e a comunicação social. Aí sim, motivava-se e Santana lembra-se dele “desassombrado, nada paninhos quentes”, por vezes excessivamente “radical”.

Com Durão em São Bento, Santana Lopes acabava por ser quase o nº 1 no PSD. A relação com Rio era correta, mas fria. Porém, acabou por ser decisiva quando Barroso voou para Bruxelas. Ao contrário de barões como Manuela Ferreira Leite e Marques Mendes, que foram contra a subida de Santana a primeiro-ministro, Rio concordou e aceitou ser seu vice-presidente no PSD. Quem acompanhou o processo sabe que ele confessava dúvidas sobre Santana, mas entendia que se se juntasse aos críticos podia criar um enorme problema a Durão, ao PSD e ao país. Não foi por aí. Mas quando Sampaio despediu Santana, Rio ficou mudo e quedo. Nem um telefonema? “Zero! Bola!”, conta Santana, “a ideia que tenho é que Rio desapareceu”.

Um sénior, um júnior, dois autarcas

Quando assumiram as duas principais câmaras do país, o protagonismo e o peso político de ambos era incomparável. Santana levava anos de política sénior, tinha sido deputado, vice-presidente da bancada parlamentar, presidente do PSD-Lisboa, secretário de Estado, deputado europeu, candidato à liderança do PSD (e ainda seria primeiro-ministro, além de presidente do Sporting). A carreira política de Rio resumia-se numa linha: dirigente da JSD, deputado, vice-presidente da bancada, porta-voz do partido para economia e finanças. Por junto, Santana Lopes já era um político com letra grande, enquanto Rui Rio dava passos tímidos e circunscritos às questões económico-financeiras. O que correspondia também a uma clivagem de perfis que, 15 anos depois, ainda marca.

A génese das candidaturas que os levaram às duas maiores câmaras do país foi, por si só, incomparável. O nome de Rio surgiu ao nível da concelhia do PSD-Porto (e contra a vontade da distrital, liderada então por Luís Filipe Menezes), quando se procurava alguém para um combate dado como perdido para o socialista Fernando Gomes. Santana partiu de voos mais altos: foi a escolha pessoal de Durão, quando este intuiu que num cenário de derrota do PS nas autárquicas de 2001, roubar Lisboa aos socialistas poderia ser a gota de água para Guterres atirar a toalha ao chão.

Eis o abismo: Santana era para o líder do PSD o único candidato que podia conseguir o impossível: ganhar Lisboa, contra a esquerda unida; Rio era um nome que permitiria ao PSD perder com dignidade e, quanto muito, tirar a maioria absoluta a Gomes. Durão foi decisivo no momento de fechar a escolha para o Porto, pois desautorizou Menezes e deu total cobertura a Rio. Mas no caso de Santana, foi mais do que isso. Quando falaram sobre isso pela primeira vez, Pedro resistiu. Estava bem na Figueira, contava ser reeleito, para quê arriscar? Durão não vacilou. “Mas sou essencial?”, perguntou-lhe Santana. Barroso conhece-o e disse a palavra mágica: “Decisivo!” Contra expectativas e sondagens, Santana ganhou a João Soares. No Porto, a surpresa ainda foi maior: Rio ganhou a Gomes. A profecia cumpriu-se, Guterres demitiu-se. Santana e Rio falaram ao telefone nessa noite. Foram falando pelos anos seguintes. Mas sem grandes cumplicidades. “Geríamos tudo muito à distância, nunca houve entre nós o namoro que Rio viveu depois com o Costa”, recorda Santana.

Com Cavaco, contra Cavaco

Pedro e Rui são quase da mesma idade (Santana nasceu em Lisboa em junho de 1956, Rio no Porto em agosto de 1957) e levam os mesmos anos de militância no PSD: trinta e nove. Ambos se inscreveram em 1978, quando eram estudantes universitários, Santana em Direito, Rio em Economia. Pedro chegou ao PPD-PSD pela direita, já depois de ter fundado o MID (Movimento Independente de Direito); Rui, chegou pela esquerda, depois de ter feito toda a escolaridade no Colégio Alemão, onde “os professores eram quase todos afetos ao SPD” e o contaminaram com o gene social-democrata. A história familiar ajudou — o avô materno de Rio atentou contra a vida de Afonso Costa e foi opositor ativo a Salazar.

Ainda durante o Estado Novo, Rio distribuiu panfletos contra a guerra colonial, deu o seu nome a favor da amnistia dos presos políticos, era fã da Ala Liberal, liderada por Sá Carneiro, e lia o Expresso, fundado por outro membro da Ala Liberal, Pinto Balsemão. “Quando se deu o 25 de Abril, eu era do PPD, porque esse era o partido de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão”, conta Rio.

Santana chegou com a mesma filiação — a admiração por Sá Carneiro só não se estendia a Balsemão. Tinham em comum o fascínio pelo primeiro líder. Além disso, foi tudo diferente. Santana, que desde os 12 anos dizia que queria “tirar direito para ser político”, foi notado bem cedo e atirou-se de cabeça para a piscina dos crescidos. Quando se tornou laranjinha, já tinha no currículo uma vitória como júnior (conquistou a associação de estudantes de Direito, palco do combate pós-revolucionário, quando Durão era protagonista do MRPP) e nem perdeu tempo com a JSD, indo direto ao partido.

Logo em 1978, subscreveu uma moção ao VI congresso do PPD, defendendo o regresso de Sá Carneiro à liderança (o primeiro líder do partido assumiu e deixou a liderança várias vezes, só se tendo tornado presidente incontestado depois da primeira vitória da AD, em 1979). A moção G, com a assinatura de Santana e da secretária de Sá Carneiro, Conceição Monteiro, acabou por abrir a porta ao regresso do líder. A dado momento desse congresso do Hotel Roma, Sá Carneiro estava fora da sala e deu-se conta de que qualquer coisa extraordinária estava a acontecer. “O que é que se passa lá dentro?”, perguntou à secretária. “É o miúdo dos Olivais que está a discursar.” Sá Carneiro quis conhecer o miúdo, e propôs-lhe que o ajudasse num projeto de revisão constitucional.

Enquanto Santana ganhava o estatuto de delfim de Sá Carneiro, Rio levava uma vida bem mais pacata. Era PPD desde que o partido existia, frequentava a sede da JSD no Porto, era do núcleo dos laranjinhas na faculdade, mas só se filiou quando foi convidado para uma lista da jota no distrito. Vem desse tempo a amizade com José Pedro Aguiar Branco e Agostinho Branquinho. Rio subiu na JSD até ser eleito para o Conselho Nacional da jota dois dias antes de Sá Carneiro morrer. Por essa altura, Santana já era assessor jurídico do primeiro-ministro e circulava sem pedir licença nos corredores do poder.

josé pedro tomaz

Personalidades. Santana, o enfant térrible, fugiu aos holofotes e acalmou durante os anos da Santa Casa. Rio, o economista discreto, brinca com a sua fama de “economicista”

Personalidades. Santana, o enfant térrible, fugiu aos holofotes e acalmou durante os anos da Santa Casa. Rio, o economista discreto, brinca com a sua fama de “economicista”

rui duarte silva

Em 1981, Rui Rio foi notícia pela primeira vez: a sua lista PSD-CDS venceu a associação de estudantes da Faculdade de Economia da Universidade do Porto — era a primeira vez que a frente de esquerda perdia. Rio era ativo e reivindicativo, afrontava professores, desafiava até o ministro da Educação (do PSD) Vítor Crespo. Essa vitória abriu-lhe portas: chegou a primeiro vice-presidente da JSD, na equipa liderada por Pedro Pinto (que se tornou um indefetível santanista), e nessa qualidade teve acesso, por inerência, à Comissão Política Nacional do PSD. Estávamos em 1982, o partido era dirigido por Balsemão, o que até calhava bem, pois Rio era ‘balsemista’ desde a Ala Liberal. O PSD é que nem por isso — e Santana ainda menos. A vida de Balsemão era difícil, e nem o facto de ter puxado para a sua direção alguns dos críticos lhe deu sossego. Santana era um desses críticos — recusara integrar o Governo Balsemão, mas não teve argumentos para negar sentar-se na sua comissão política.

Foi nessas reuniões que Santana e Rio se cruzaram pela primeira vez. Rio lembra-se, Santana não. “Ele não era muito diferente do que é hoje. Era o Pedro Santana Lopes que todos conhecemos: um bocado rebelde, um bocado rebarbativo...”, recorda Rio. Já Santana, não tem memória de Rio nessa época. “Não é desconsideração nenhuma. Sinceramente, não me lembro dele nessas reuniões.”

Quando Balsemão saiu, Rio saiu com ele. Podia ter ido para deputado, mas recusou: “Eu tinha acabado o curso em julho de 82, comecei a trabalhar em novembro e não quis ir para deputado porque achei que tinha de exercer a profissão.” No Parlamento, os deputados do PS e do PSD juntaram-se para fazer o Bloco Central, mas Rio não estava lá. Santana também não. Mas por outras razões. Ao lado de figuras como Marcelo Rebelo de Sousa, Conceição Monteiro, Durão Barroso, José Miguel Júdice ou Nuno Morais Sarmento, Santana lançou-se na Nova Esperança, um movimento anti-Bloco Central. Rio também não morria de amores por essa grande coligação, mas não lhe fez oposição. Tanto quanto se lembra, seguia a posição da JSD, que resume como “apoio não muito convicto”.

Foi o princípio de novo afastamento. Santana partiu da Nova Esperança para um apoio a Cavaco Silva no congresso que, em 1985, o elegeu líder. Rio apoiou João Salgueiro, o candidato “balsemista”, que perdeu. À tangente, mas perdeu. O que tornou ainda mais fundamental o apoio de Santana e da Nova Esperança para Cavaco vencer. Afastado da primeira linha do cavaquismo, por imposição de algum aparelho que não lhe apreciava a rebeldia nem o vedetismo, Santana acabou por liderar a primeira lista do PSD às europeias, que ganhou, em 1987. Rio, por essa altura, entretinha-se em batalhas mais paroquiais: com o seu grupo da JSD apoiou Miguel Veiga para a distrital do PSD-Porto. Perderam e ganharam o epíteto de “críticos”.

O PSD cavaquista era grande o suficiente para dar lugar a todos e, em 1991, Rio chegou ao Parlamento, onde ganhou protagonismo, sobretudo nos debates dos Orçamentos. Cavaco apreciava-lhe o rigor e a combatividade. O Governo que Rio defendia com afinco integrava… Santana Lopes. Cavaco chamou-o ao Executivo, primeiro para secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e depois para secretário de Estado da Cultura.

A vida deu as voltas suficientes para, na hora de Cavaco sair, em 1995, Santana disputar pela primeira vez a liderança do PSD, com o rótulo de anticavaquista. O cavaquismo puro e duro, esse, dividia-se entre Fernando Nogueira e Durão Barroso. Rio, já reciclado pelo cavaquismo, apoiava Durão. E entra o karma: em 2004, quando Santana era primeiro-ministro e líder laranja, Cavaco deu-lhe a estocada final, com um texto sobre a boa moeda e a má moeda. Em 2008, quando Rio esteve à bica de disputar a liderança do PSD, era secretamente o candidato favorito de Cavaco. Preferia-o até sobre Manuela Ferreira Leite, que foi quem acabou por avançar.

Media, prazer e dever

Currículos políticos à parte, a maior fratura entre Rio e Santana é de personalidades. O primeiro discreto, o segundo mediático. O primeiro mais de contas, o segundo mais de palavras. O tímido e o mundano. O disciplinado e o imprevisível. Dito de outra forma, o candidato “tipo Cavaco” e o “tipo Marcelo” (como com Cavaco, a relação dos dois com Marcelo foi ziguezagueante e ambos, em algum momento, romperam com o atual Presidente). Nenhum tem medo de ruturas, de ir à luta ou de perder. A diferença é que Santana, menos calculista (o próprio se diz mais “disponível pelo partido”), arriscou mais, avançou mais vezes… e perdeu mais.

Rio não se deixa levar. “Ainda que todos, eu não”, é uma frase que usa muitas vezes, uma espécie de mote de vida. Diz de si próprio que é de quebrar mas não de torcer. E foi assim quando, como secretário-geral do PSD com Marcelo, comprou uma guerra com o aparelho social-democrata por causa da refiliação de militantes, e perdeu; ou quando votou, contra o partido, a favor da despenalização do aborto; ou quando o voltou a fazer contra o totonegócio, que nos anos 90 deu um perdão fiscal ao clubes de futebol. Foi assim quando se atirou ao Porto. Foi assim quando apoiou Rui Moreira, em 2013, contra o candidato do PSD, o velho adversário Menezes.

Rio vive bem com a fama de “contabilista”, ou de “economicista”, que ganhou em boa medida por, já nos anos 90, denunciar o endividamento excessivo, os truques orçamentais para ocultar despesa e a tendência para “viver acima das possibilidades”. Leva uma vida sem excessos e tem fama de forreta. Durante anos conduziu um Sinca 1000, que deixou de ser uma velharia e tornou-se uma antiguidade.

Dele se diz ser de boas contas. Mas não é uma afirmação consensual. Rui Sá, da CDU, vereador no primeiro mandato de Rio no Porto, diz que ele “melhorou as contas à custa do investimento, salvaguardando a habitação, financiada com fundos do Prohabita”. Com a condição de não ser nomeado, um ex-vereador escolhido por Rio acrescenta outra tese: viu nele uma “verdadeira obsessão com as contas”, porque “sentia que se conseguisse demonstrar que punha em ordem as contas da segunda autarquia mais importante, ficava aberto o caminho para ser visto como o melhor para primeiro-ministro”. Mas isso pressuporia uma tendência conspiratória que não lhe costuma ser apontada.

A formação germânica, os rigores do pai, o choque de aos sete anos ter perdido um irmão de cinco, tudo contribuiu para “uma postura relacional reservada, levemente introvertida, com tendência à reflexão e ao aprofundamento analítico”, conforme se lê no livro “Raízes de Aço”, escrito por Carlos Mota Cardoso, catedrático de Psiquiatria e amigo de Rui Rio. “Usa os seus vastos recursos afetivos apenas para temperar os rigores da ética e da razão. Trata-se de uma personalidade cuja racionalidade emerge de valores e princípios sólidos, roçando uma certa esquematização e até uma ponta de rigidez”, escreve o amigo. “Não se trata de uma personalidade facilmente apreciável”, reconhece Mota Cardoso. “A última pessoa com quem eu me quero zangar é comigo”, assumiu Rio no programa “Alta Definição”.

ana baião

É o oposto de Santana Lopes, expansivo, sedutor nato, bon vivant encartado, alguém que “tem mel”, como disse ao Expresso o socialista João Soares, seu ex-adversário nas autárquicas em Lisboa. Em 2003, Santana assumia numa entrevista: “Eu tenho um lema — se Deus nos deu esta vida, não podemos desistir de ser felizes. A acomodação a uma situação em que não haja chama não faz sentido. Tenho a obrigação de lutar por ser feliz.” O homem a quem o Contra-Informação pôs o rótulo de “Santana Flopes” nos tempos em que a excessiva exposição mediática levou muitos a anteciparem-lhe a morte política, esforçou-se nos últimos tempos por fugir dos holofotes. “Quanto menos enfant, menos terrible”, afirmou, com ironia, numa entrevista ao Expresso em 2013. Mas a procura do prazer como máxima de vida continua a distanciá-lo de um Rui Rio focado no escrúpulo e no dever.

A relação com os media distingue-os, também por isso, inevitavelmente. Para Rio a relação com jornalistas é difícil e conflituosa. Acredita que política e media são planetas distantes e antagónicos e a relação nunca foi tão tensa como quando dirigiu o Porto. Em cada manhã, um nervoso miúdo percorria-lhe o corpo. Tudo dependia de haver ou não notícias sobre a câmara e do modo como eram apresentadas. Ao longo de 12 anos de mandato, nunca Rio conseguiu libertar-se de uma espécie de complexo de perseguição que o fazia sobrevalorizar a importância real do que era publicado na imprensa. Não por acaso, transformou-se no principal “cliente” da Entidade Reguladora da Comunicação Social, tamanho foi o volume de queixas apresentadas.

Para Santana Lopes, a comunicação social é, ao contrário, uma atração fatal, ao ponto de assumir que “se não fosse político, podia ser jornalista”. Em 1986, chegou a fundar um grupo de media, a PEI, que agregou o “Liberal” (jornal que teve Maria João Avillez como diretora), a primeira versão da “Sábado” (que contou com Miguel Sousa Tavares) e a Rádio Geste (por onde passaram Henrique Garcia, José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes). Foi numa festa do grupo, no Casino Estoril, que Rita Guerra, na altura telefonista na Geste, foi chamada ao palco para cantar. Um sucesso.

Em 1997, Santana reincidiu com a revista “PM”, uma espécie de réplica da “George”, de John-John Kennedy. Também durou pouco, mas Santana não largou os media. Teve crónicas na rádio, comentários na TV e artigos em jornais. Queixou-se muito: “A imprensa persegue-me”, dizia nos anos 90, tempos da relação com Cinha Jardim, que alegrou as revistas cor-de-rosa. Mas também reconheceu excessos: “Expusemo-nos muito. Foi um erro.” Um momento alto dessa exposição foi quando entrou na “Cadeira do Poder”, programa da SIC em que dois políticos brincavam aos primeiros-ministros. Mais vaticínios de credibilidade irremediavelmente perdida, tudo agoiros em saco roto. Santana, há 40 anos na ribalta, resistiu sempre. E foi beber uma teoria a Churchill: “Na vida só se morre uma vez, em política morre-se muitas.” Mas a máxima de Churchill não diz quantas vidas tem cada um. Rio ainda não perdeu nenhuma. Santana já gastou muitas.

*Com Valdemar Cruz