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Inês de Medeiros: ‘‘Cheguei e tinha uma secretária vazia’’

Na segunda semana como autarca, Inês de Medeiros visitou os estaleiros de Vale Figueira e o centro de Arte Contemporânea Casa da Cerca

tiago miranda

A transição de poder autárquico em Almada, o ex-bastião comunista onde PS e PSD têm um “acordo de governabilidade”, não está a ser fácil. “Não vem aí nenhum diabo”

Mariana Lima Cunha

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

A transição não está a ser fácil. A confissão é feita por Inês de Medeiros, a nova presidente da Câmara de Almada, sentada num dos bancos de madeira no espaço dos estaleiros da cidade: “Cheguei e tinha uma secretária vazia.” O PCP, que governava os destinos de Almada ininterruptamente desde 1976, não facilitou a vida à socialista pioneira, diz: pouca informação, uma passagem de pastas insuficiente – sobretudo para uma “máquina muito pesada” como é a Câmara de Almada. Até porque “não havia o hábito das transições: podemos ser caloiros nesta função, mas a câmara também é caloira na ideia na transição”, explica, por entre risos.

O céu cor-de-rosa não engana: a manhã ainda vai curta. Mas já há quem trabalhe: em Vale Figueira, à entrada dos estaleiros, pelas sete horas já se nota o movimento dos carros, o cartaz do PCP a cumprimentar quem passa, o monumento aos “perseguidos” antes de chegar à entrada dos serviços. Lá dentro está a nova presidente, que enfrenta, na segunda semana em funções, o primeiro dos desafios difíceis. Esta deverá ser uma sessão de cumprimentos aos trabalhadores, mas parece estar transformada numa espécie de plenário.

No centro de um círculo imperfeito formado pelos trabalhadores que àquela hora ainda esfregam os olhos, apresenta-se e aceita perguntas. “Este foi o sector mais falado, justa ou injustamente” durante a campanha. Há resposta pronta: “Injustamente, porque somos excelentes profissionais mas não temos equipamentos.” Outra: “Como isto é uma dor de cabeça, vai para os privados?” A presidente não responde diretamente: “A defesa do serviço público será sempre a minha prioridade.” Levanta-se um burburinho, alguns risos de descrença. Não se adivinha uma manhã fácil. “Teremos muito tempo para falar. Hoje é para nos conhecermos. Sou eu, a nova presidente da Câmara. E é uma maneira de dizer que não vem aí nenhum diabo… Só se o diabo fosse eu!”.

PSD elogia “gentileza” 
de Medeiros nas negociações

Esta manhã de sexta-feira é uma das primeiras em que Inês de Medeiros passa a ponte — não vem de cacilheiro, como disse que queria, porque “não a deixam”, pelo que a opção continua a ser o motorista — de Lisboa, onde reside, para Almada, cujos destinos agora governa. Anda a “fazer a ronda” pelos serviços da Câmara, e nos estaleiros a tensão no ar é palpável. Há ali muita gente “do partido”, comentam os trabalhadores, sem nomear o PCP, que sempre governou esta câmara e perdeu agora pela primeira vez. Há farpas, há trabalhadores que dizem ter “receio” de privatizações e políticas “do PS, PSD e CDS”.

tiago miranda

Afinal, em Almada, surpreendentemente, há bloco central. Inês de Medeiros não chegou a acordo com o PCP que, em resposta escrita ao Expresso, diz que “os vereadores da CDU foram confrontados com uma decisão consumada que os arredou de qualquer pelouro” — consequentemente, a representante do BE, Joana Mortágua, também preferiu ficar de fora. A socialista virou-se para o PSD, ficando os dois vereadores sociais-democratas (Miguel Salvado e Nuno Matias, que fica a meio-tempo) com as pastas das redes viárias, iluminação pública, planeamento energético, espaços verdes e parques urbanos.

O BE, esclarece Joana Mortágua, “não está refém do PCP” e não aceitou pelouros porque “contribui para maiorias de esquerda” e este não é o caso (juntos, PS e PCP teriam oito vereadores). Inês de Medeiros detalha que “há um acordo de governabilidade [com o PSD], que não está escrito”, que além da atribuição de pelouros inclui “conversas sobre matérias essenciais”: a água — garante que manterá “totalmente pública” —, a energia sustentável, a iluminação pública e os espaços verdes são exemplos. E a tendência será para haver “conversas cada vez mais importantes” com a aproximação do Orçamento, sustenta.

“Há linhas de entendimento comuns, sobretudo nas matérias em que o PSD tem vereação, em que temos ideias comuns e idênticas”, explica o vereador do PSD, Miguel Salvado, elogiando a “gentileza” de Medeiros nas negociações.

O PCP pode estar fora do executivo camarário, mas garante que vai andar por aí: em comunicado, explica ter “sérias reservas” em relação à nova administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento e ao “peso” que o PS decidiu “atribuir ao PSD no quadro de distribuição de pelouros e responsabilidades”, “para os quais a CDU entende que o PSD não dispõe de expressão política e apoio eleitoral que as justifique”. Um cocktail que faz o PCP temer os quatro anos que Almada tem pela frente, nas mãos de um caloiro bloco central que “comporta um sério risco rutura com a gestão de rigor, excelência e solidez prosseguida em Almada pela CDU”. Para o BE, contudo, há aspetos positivos a retirar da mudança como as políticas de transparência já aprovadas, “que eram ansiadas por todos os partidos” mas não andavam para a frente, como as auditorias a serviços, as gravações das reuniões da Câmara ou um portal da transparência.

“Aqui ou se gosta de cozido à portuguesa ou...”

“Uma Câmara é como um grande paquete, um grande petroleiro: e aos grandes petroleiros não se dão guinadas, não se dão viragens bruscas”, insiste a nova presidente. Nos estaleiros, fala sob o olhar atento dos cartazes ainda pendurados de Maria Emília Sousa, que elogia (foi a presidente entre 1987 e 2013, quando passou a pasta ao sucessor Joaquim Judas), os “viva o 25 de Abril” que vão desbotando. Dos trabalhadores, ouve alguns encorajamentos e muitas provocações: “Aqui ou se gosta de cozido à portuguesa ou...”

“De cacilheiro, não se demoram 15 nem 10 minutos até cá. Só sete!”, “sabiam que o Cristo Rei é o segundo monumento religioso mais visitado de Portugal, depois da Basílica de Fátima?”. Parece recém-chegada, mas lembra que anda há um ano “no terreno”, que não “acaba de aterrar”. A atriz e realizadora só entrou em grande na política aos 41 anos, em 2009, quando foi mandatária na campanha europeia de Vital Moreira e foi depois eleita para o Parlamento, a que se candidatou por convite de José Sócrates. Primeiro por Lisboa, em 2009 e 2011; depois pelo círculo de Setúbal, em 2015. Dali saiu para a Fundação Inatel, onde esteve até agora. A 1 de outubro, quando, com confessa surpresa, foi eleita presidente de Câmara de um bastião comunista, atribuía os bons resultados à onda rosa que varria o país. Na mesma noite, Jerónimo de Sousa reconhecia, num discurso raro, a derrota e advertia: “É, sobretudo, uma perda para as populações, que não demorarão a perceber o quão errada foi a sua opção.” Acabou por se confirmar a perda de dez câmaras, nove para o PS. Em nenhuma delas o PCP chegou a acordo com os socialistas para governar.

A surpresa já passou: agora é governar, com PSD ao lado e PCP na oposição — duas estreias absolutas para Almada. Cita os dossiês urgentes da reabilitação da zona da Margueira, terrenos da Lisnave, e do Ginjal. Dizem-lhe alguns trabalhadores, em jeito de desafio, bandeiras de foice e martelo atrás: “São quatro anos. Vamos ver...” E a presidente concorda: “Que isto sejam uns bons quatro anos. Daqui a quatro anos logo se vê.”