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Ramalho escreve sobre Soares, “detonador de sobressaltos cívicos”

Vítor Ramalho lamenta o “corte de gerações” que vê nos partidos: “Há legados que têm de ser transmitidos”

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Editora de Política da SIC

É um dos últimos episódios que Vítor Ramalho conta no livro, misto de memórias, História e, sobretudo, histórias da sua relação com Mário Soares, que começou a esboçar poucos dias após a morte do fundador do PS, a 7 de janeiro: quando António Sampaio da Nóvoa se apresentou como candidato à Presidência da República, no início de 2015, e como não havia nenhum socialista na corrida, Mário Soares decidiu apoiar o antigo reitor da Universidade de Lisboa — que, de resto, lhe causara boa impressão após a sua intervenção na primeira conferência das esquerdas, na Aula Magna, em 2013. Ramalho acompanhou-o na decisão e encarregou-se de a transmitir a António Costa. “E o que disse ele?”, perguntou-lhe Soares. “Que no meu lugar não hesitaria.” Em resultado dessa conversa com o líder socialista, Vítor Ramalho ficou “sem qualquer dúvida de que o PS iria apoiar Sampaio da Nóvoa”. Mas isso não aconteceu: “No final, o PS esteve não estando: acabou, pela primeira vez em democracia, sem apoiar nenhum candidato”, escreve o histórico socialista, que não esconde a desilusão — “Para mim, não foi opção que alguma vez esperasse ver.”

Serve a história para mostrar aquilo que Vítor Ramalho lamenta que esteja a acontecer aos partidos portugueses, PS incluído: uma certa “debilidade ideológica”, que, a seus olhos, tem a ver com um “corte de gerações” que se produziu e que impede que “legados que são autênticos desígnios nacionais” continuem a ser transmitidos. Foi, sobretudo, com o objetivo de contrariar isso que escreveu estas 200 páginas de homenagem a Mário Soares (“uma personagem daquelas que não é frequente surgirem e que, quando surgem, tem de ser agarrada para os vindouros”), que vão chegar às livrarias poucos dias antes do que teria sido o 93º aniversário do ex-Presidente da República.

“Um partido não pode descurar a ideologia”, explica ao Expresso, dando como exemplo mais recente o apoio (inicial) do PS ao independente Rui Moreira, na campanha autárquica no Porto. “Como é possível um partido abdicar da sua própria identidade na capital do segundo distrito mais importante do país?! É uma quebra de princípios.” A “desideologização dos partidos” foi uma das questões que mais aflorou nas suas conversas praticamente diárias com Mário Soares, nos últimos anos da vida deste. Tem a certeza que se Soares fosse vivo continuaria a falar, e bem alto, sobre o modo como o país vem sendo conduzido. Pergunta-se se, sem as duas conferências das esquerdas na Aula Magna, promovidas pelo antigo Presidente da República (e que ele próprio ajudou a concretizar), teria sido possível esta solução de Governo. Lembra que Soares nunca se pronunciou sobre a ‘geringonça’ — “apesar de já muito debilitado, ainda estava muito lúcido” —, mas garante que ele percebera há muito que “o mundo mudou e que já não havia riscos de haver um mundo bipolar”.

Era “um despertador, se não mesmo detonador, de sobressaltos cívicos. Fê-lo sempre com uma intuição rara”, lê-se em “Crónica de Uma Amizade Fixe” (à venda dia 24), sobre o homem que detestava que lhe continuassem a chamar Presidente — “Já não sou Presidente!”