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Política

Recandidatura de Marcelo? Basta o país

O Presidente da República não abrirá guerra 
a António Costa mas não teme a reação do PS. Chegou a Belém 
sem partidos. 
E sonha manter a receita

Na comunicação que fez ao país (e, posteriormente, em declarações públicas), Marcelo Rebelo de Sousa estabeleceu um elo entre a influência que consiga vir a ter na resolução do dossiê fogos e a avaliação que fará do seu mandato em Belém. Mas Marcelo fez mais: disse que “nas decisões que tomar sobre este mandato, e para futuro, pesaria decisivamente a avaliação que fizesse sobre a diferença que tivesse feito a influência que tinha podido ter, ou não – e espero que sim – na realização desta prioridade”.

Para bom entendedor: o Presidente da República espera ter influência decisiva no ultrapassar de um impasse de décadas na gestão da floresta, prevenção e combate aos fogos. E encontra no que passou a designar por “prioridade do meu mandato”, motivação com “futuro”. Eis um passo em frente no tabu que o Presidente da República tem vindo a alimentar sobre se se recandidata ou não.

Por mais do que uma vez, o Presidente foi deixando cair dúvidas sobre o assunto e a hesitação não será bluff. Marcelo chegou a defender numa entrevista que o ideal era a lei limitar o tempo de cada chefe de Estado a um mandato de sete anos. E quando preparou o seu discurso de anúncio de candidatura, Marcelo Rebelo de Sousa ponderou comprometer-se apenas com um mandato em Belém. Na altura, foi aconselhado a não fechar portas e entre os seus mais próximos confidentes poucos acreditam que, depois da empatia que criou com o país, o PR resista a um segundo round. Mas não há certezas. Sair com a popularidade nos máximos e ficar como o desejado pode ser uma tentação. Sobretudo para quem não terá dificuldade em encontrar outras motivações.

Uma coisa é certa: Marcelo não teme que o distanciamento do PS possa deitar por terra a possibilidade de, recandidatando-se, repetir a fórmula de Mário Soares, ou seja, contar com os votos de todo o centrão. Soares vinha da esquerda e foi reeleito com apoio do PSD.

Marcelo não desdenharia, vindo da direita, ser reeleito com o apoio do PS. Mas o apoio com que o atual Presidente verdadeiramente conta é outro. “O mandato de Marcelo não vem dos partidos. Ele é verdadeiramente independente. Sonha ter o apoio do povo, o resto é para o lado que ele dorme melhor”, diz fonte próxima. A convicção nos círculos marcelistas é que “depois da direita não ter percebido a independência de Marcelo, talvez tenha chegado a altura de a esquerda começar a percebê-la”.

“O povo é quem mais ordena” foi o grito de guerra do Presidente após ganhar as presidenciais. Para trás, estava uma caminhada solitária – Marcelo avançou contra o candidato do PS e contra a vontade do líder do seu partido. Se quiser repetir, as sondagens são claras: país não lhe falta.