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António Costa: “Não podemos, em nome do défice, deixar de apoiar as populações e a economia”

Em entrevista à TVI, o primeiro-ministro garante não haver qualquer crispação com o Presidente da República, assegura não ter pensado demitir-se e recusa revelar se a demissão da Ministra da Administração Interna foi precipitada pelo discurso de Marcelo Rebelo de Sousa

A preocupação com o défice não afetará as medidas consideradas necessárias no apoio às populações, à economia e ao território, garantiu António Costa na entrevista dada à TVI, domingo à noite, feita a partir da sede dos bombeiros de Pampilhosa da Serra.

Quando questionado sobre a hipótese de as medidas já anunciadas e que venham a ser tomadas para reorganizar a floresta, apoiar as populações e as empresas poderem contribuir para fazer derrapar o défice, Costa mostrou-se convicto de que isso não acontecerá. Desde logo “porque as regras da União Europeia dão um tratamento diferenciado a medidas de natureza excecional, como são estas”. Em segundo lugar, porque estão a ser procurados “mecanismos de apoio que não contabilizam para o défice”.

De qualquer forma, reforçou o primeiro-ministro, “a última das preocupações que temos de ter neste momento relativamente a esta matéria, é saber o seu peso para o défice. Não podemos abandonar o objetivo de ter finanças públicas sãs, mas não podemos, em nome do défice, e em nome de uma obsessão relativamente ao défice, não fazer o que é necessário fazer no apoio às populações, no apoio á economia, no apoio aos territórios e nas reformas que temos de fazer”.

Um outro momento relevante da entrevista foi quando António Costa afirmou que no dia 15 de outubro foi subestimado o impacto do furacão Ofélia no território continental. Isto não obstante, frisou, após terem sido ouvidos os bombeiros, os autarcas de cada um dos concelhos afetados, ter ficado “a noção da excecionalidade do que aconteceu no dia 15 de outubro e em particular na noite de 15 para 16”. Assistiu-se “a fenómenos de projeção e de força dos ventos absolutamente devastadores”, que teriam tornado insuficientes todos os meios que pudessem existir. “A generalidade dos meios aéreos não pôde operar, tal era a força do vento no local dos incêndios. Estavam tecnicamente impossibilitados de intervir”, disse o primeiro-ministro.

Face a tudo quanto estava a passar-se, e não obstante o que tem sido considerado como a incapcidade de resposta das estruturas do Estado perante uma calamidade daquela dimensão, Costa nunca colocou a hipótese de se demitir. Quando o entrevistador anunciou a intenção de introduzir um novo tema, para se falar de política, Costa foi rápido a interromper para sublinhar que “olhar para os problemas, encontrar forma de os resolver” e colocar tudo isso no terreno é que é fazer política.

Conversas com PR não preencherão livro de memórias

Começava aí um jogo do rato e do rato, com sucessivas perguntas sobre o relacionamento com Marcelo Rebelo de Sousa, sobretudo a partir do duro discurso do PR a exigir medidas urgentes, e do qual terá resultado a demissão da ministra da Administração Interna.

Costa manteve-se inflexível. Recusou dar resposta a todas e cada uma das questões colocadas sobre este tema. Sempre com o mesmo argumento: “As minhas conversas com o Presidente da República são conversas entre nós, que não são para ser tornadas públicas, nem agora, nem em futuro livro de memórias”.

Assegurada a inexistência de qualquer crispação da sua parte, garantiu ter hoje, com Marcelo, “uma relação seguramente melhor” após dois anos de trabalho em conjunto. Acresce que se conhecem há muito tempo e, acrescentou, estão ambos “totalmente empenhados em manter esse nível de cooperação”.

Nem quando foi solicitado a confirmar se teria ficado “chocado” com o discurso do chefe de Estado, Costa abandonou o guião. “O país já tem um excesso de problemas, para ainda acrescentarmos os problemas institucionais. Já chega o que temos”.

Recusada também a resposta à pergunta sobre se a demissão da ministra fora precipitada pelo discurso de Marcelo, o primeiro-ministro não considerou, sequer, a hipótese de haver alguma ligação entre a intervenção do PR e a atual luta pela liderança do PSD. Seria, afirmou, “impensável estabelecer qualquer relação entre a atuação do Presidente e a vida interna do PSD. Respeito suficientemente o Ppresidente da República e o professor Marcelo Rebelo de Sousa para não me passar sequer pela cabeça tal hipótese”.

Logo de seguida, lança um apelo a que haja menos ficção política e mais adesão á realidade. Isto porque, concluiu, “devemos fazer um grande esforço para nos concentrarmos sobre a realidade e perder menos tempo com a ficção política, que é muito boa para as séries televisivas, mas muito má para a vida do dia a dia”.