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Marcelo na 1ª pessoa: um Presidente “indisciplinado”, “minhoquinhas” a fazer a mala, que adora “fazer compras”e detesta suites presidenciais

Jos\303\251 Carlos Carvalho

A pretexto de uma lição sobre cidadania aos alunos do 6º ano de uma escola de S.Miguel, Marcelo Rebelo de Sousa descreveu o seu dia-a-dia como Presidente

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Editora de Política da SIC

O que faz um Presidente no seu dia-a-dia? A pergunta, feita pela Joana, aluna do 6º ano, não pretendia invadir a privacidade da “pessoa” Marcelo Rebelo de Sousa. Mas o Presidente não estabeleceu fronteiras e levou Joana e as demais centenas de pessoas que enchiam o auditório da escola Gaspar Frutuoso, na Ribeira Grande, S.Miguel, até às 8h30 da manhã de um dia normal, na sua cozinha da casa onde vive, em Cascais.

“Começo o dia comendo uma banana e um iogurte ou dois. Ou duas bananas”. O pequeno-almoço não mudou com as funções presidenciais. Mas “antes de ser Presidente ia sempre nadar ao mar, perto de casa”. Agora, nem sempre consegue.

Em vez disso, lê os jornais em papel. Ou melhor, as notícias que ainda não leu na net, “às 3 ou 4 da manhã”. Lê - “rapidamente, que eu leio na diagonal” -, “jornais nacionais, regionais e locais e alguns estrangeiros: um inglês, um francês, um espanhol”. Confirma a lenda de que dorme pouco, 4h por noite: “Faço uns telefonemas para ver se entre as 4 e as 8h30 da manhã não houve nada de especial”.

Às vezes fica em casa de manhã, “a escrever discursos”. Embora, confesse, até prefira os improvisos. Nas demais vezes, parte para Lisboa “para o trabalho”. A não ser que tenha visitas logo de manhã, ou porque assim está previsto ou porque ele próprio improvisa. “O que é uma perturbação para a segurança”. Mas ele, confessa, gosta de “despistar a segurança”.

Reserva habitualmente as tardes para reuniões e audiências. Como, aliás, nem almoça – “só como uma sandwich ou uma tosta de queijo e bebo um sumo, para não dizer a marca, de ananás” -, marca reuniões e audiências para o que é regra geral “a hora de almoço das outras pessoas”. “Estrago-lhes o almoço”. Nos intervalos, aproveita para ler os telegramas diplomáticos, que lhe “chegam em catadupa”: “todos os embaixadores de Portugal no estrangeiro têm de falar com o Presidente pelo menos uma ou duas vezes por ano”.

Fica no gabinete até tarde. Raro é o dia que chega a casa antes das 21h, 21h30. O jantar é, por isso, ligeiro. O seu favorito: “uma salada de queijo e tomate com rúcula, temperada com azeite e vinagre balsâmico” que, no verão, completa com gelado de chocolate. Noite fora fica a ler mails e telegramas.

Isto é um dia em Lisboa. Mas se estiver fora? “As visitas são muito bem preparadas. Para o Presidente ideal. O Presidente ideal não cumprimenta gente a mais, não tira selfies a mais”. Risos no auditório quando se assume “um Presidente indisciplinado, que entra e começa a beijar, a dar cincos a todos os alunos, e por isso chega à aula que vai dar com dez minutos de atraso e deixa que toda a gente lhe faça perguntas e sai com 30 ou 45 minutos de atraso” para o ponto seguinte da agenda. “É um quebra-cabeças para quem organizou”.

Conta como foi na semana passada, quando foi até aos concelhos afetados pelos incêndios de 15 de outubro, acabou a visitar muito mais casas e terrenos destruídos pelo fogo e a falar com muito mais gente do que estava inicialmente previsto. “O almoço era à uma. Almoçámos às cinco e um quarto”. Mas explicou a demora: “O Presidente não pode dizer adeus e seguir porque aquelas populações estão a sofrer muito”.

Já os programas no estrangeiro são muito mais pontuais. “Exceto se houver comunidades portuguesas, porque estas destroem tudo, são iguais ao Presidente”.

O que sobra para a família? “É a queixa da minha filha Sofia”. Nestes últimos quinze dias, diz, dormiu duas noites em casa. Mas não se queixa: “Adoro fazer e desfazer malas. É outra coisa divertida. Sou muito minhoquinhas. Se quiserem, é uma mania”. Gosta de “dormir em hotéis diferentes, em sítios diferentes, em dias sucessivos”. Com um problema, assume: “Nunca sei de que lado está o candeeiro de cabeceira, se do lado direito, se do esquerdo, se em cima, se em baixo; nunca sei onde está a casa de banho”. O problema agrava-se quando insistem em dar-lhe a suite presidencial: “Quem convida considera que é uma forma de receber bem dar uma suite que nunca mais acaba”, frequentemente com o escritório na ponta oposta à do quarto. Porque isso é uma perda de tempo (“já calculei quantos minutos perco!”), “não dá jeito nenhum”, exige “os quartos mais pequenos, o que é uma ofensa”. Justifica-se: “Mas eu preciso de demorar o mínimo tempo possível porque tenho o mínimo de tempo possível”.

Tempo para nadar ou fazer o que gosta? Tem de recorrer à imaginação. Aproveita aqui e ali. Como para ir fazer compras: “Adoro fazer compras, saber o preço dos produtos, ouvir os meus fornecedores para saber dos problemas”. Porque dos políticos já não espera novidade: “Os políticos só dizem o que se está à espera que digam; é muito raro haver surpresas”.