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Marcelo e a pressão sobre o Governo: “Não é uma questão de teimosia. É uma exigência nacional”

JOSÉ CARLOS CARVALHO

Na conferência de imprensa em que fez o balanço da sua viagem de quatro dias aos Açores, o Presidente explicou porque não abranda a vigilância sobre as respostas que espera do Executivo quanto aos incêndios: “Reduzir esta tragédia a uma realidade circunstancial é menorizá-la”

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

O tom foi, desta vez, mais brando. E o Presidente da República fez questão de incluir todos, a começar por si, na lista dos que estão sob a exigência de “um país que viveu duas tragédias quase consecutivas e ficou chocado com o que sucedeu mas também por descobrir aspetos estruturais que vinham de longe, de há muitos anos” e que ninguém ainda tinha resolvido. “Ficou chocado consigo próprio. Eu disse-o, começando por mim: fiquei chocado comigo próprio”.

À pergunta porque não dava sinais de querer abrandar a pressão sobre o Governo, Marcelo Rebelo de Sousa explicou, desta feita num registo mais pedagógico do que repreensivo, que as tragédias de junho e outubro “impuseram deveres e deveres instantes para todos. Não para o órgão A, B, C ou D. Não há como nós todos não nos sentirmos pressionados a olhar para o que é preciso fazer em menos de dois anos”. Ele, como Presidente, assumiu e vai assumir até ao fim do seu mandato (que, lembrou mais uma vez, vai além desta legislatura) “o dever de exigência constante para que não ocorra tragédia semelhante”. “Reduzir esta tragédia a uma realidade circunstancial é menorizá-la”, disse ainda. “Ou somos exigentes para resolver os problemas ou não somos. E se não os resolvemos falhamos todos”.

Sem se referir explicitamente à controvérsia da semana (e que acabou por perpassar toda a sua estadia nos Açores) – o choque entre Governo e Presidência relativamente à forma como ambos os órgãos de soberania lidaram com a tragédia de 15 de outubro -, voltou a repetir uma ideia que já tinha expressado na quinta-feira de manhã: “Considero uma perda de tempo estarmos a discutir realidades – ficcionais ou não, não interessa – que são totalmente irrelevantes. Se continuamos a discutir pormenores não chegamos lá. E eu, como Presidente da República, não posso admitir que não cheguemos lá. Não é uma questão de teimosia. É uma exigência nacional”.

Uma legislatura sem espaço para uma revisão constitucional

Estas declarações foram feitas na conferência de imprensa, nas Sete Cidades, onde o Presidente da República e o presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, fizeram o balanço dos quatro dias da presença de Marcelo na Região Autónoma. “Agora tenho de partir, mas parto contristado”, desabafou o Presidente (que, aliás, de tanto “querer ficar”, acabou por perder o voo comercial para o continente, acabando por regressar em avião militar). A “consolação”, disse, é que volta em junho de 2018 (“se não for antes”), para as comemorações do Dia de Portugal – que se vão realizar no arquipélago e, horas mais tarde, junto da comunidade portuguesa de Boston, nos EUA.

O Presidente agradeceu o “calor humano” com que foi acolhido, “tão quente, tão expressivo”, e garantiu sair muito confiante “no futuro da região”. Questionado ainda sobre uma petição que corre nas ilhas a apelar a uma revisão da Constituição que permita a criação de partidos regionais, aproveitou para relembrar desde o início do mandato que diz não ver “como possa caber nesta legislatura uma revisão da Constituição”. As prioridades do país são outras: crescimento económico, criação de emprego e, agora, a resolução dos problemas postos a nu pelos incêndios. “Tudo isto, somado ao calendário eleitoral e à reponderação que o sistema político faz da sua existência, torna praticamente impossível a revisão da Constituição”.