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Política

Seis momentos memoráveis de um líder invulgar

José Carlos Carvalho

Chegou em 2010 disposto a rever a Constituição "para evitar que o Estado nos enfie pela goela abaixo o social que cada Governo quer". E sai sete anos depois, fiel às suas ideias. Pelo caminho, impôs sacrifícios históricos. Retirou o país de um resgate. (Re)ganhou eleições. Mas não teve cartas para o jogo de Costa e, atirado para a oposição, entrou em perda imparável. Avesso à "caricatura de estar agarrado ao poder", Pedro Passos Coelho despede-se. Até à próxima

2010: A agenda liberal

Marcos Borga

Pedro Passos Coelho chegou com uma proposta revolucionária - rever a Constituição, com três objetivos: "Despartidarizar a Administração Pública, desgovernamentalizar o país e desestatizar a sociedade". No Congresso que em março de 2010 o entronizou como líder do PSD, Passos propôs-se retirar o Estado dos negócios, libertar a economia privada, e evitar "que o Estado nos enfie pela goela abaixo o social que cada Governo quer". Deveriam ser as pessoas a escolher o que querem na Saúde ou na Educação - uma agenda liberal que acabou atropelada pelo resgate financeiro, que o novo líder da oposição acabaria por aprovar. Dois meses depois de ser eleito pelo partido, Passos pedia "desculpa" aos portugueses por ter dado o seu acordo a "um conjunto de medidas duras". Mas o seu alinhamento com José Sócrates tinha os dias contados.

Marcos Borga

2011: Derrubar Sócrates

Antes de derrubar o Governo de José Sócrates, Pedro Passos Coelho ainda lhe aprovou um Orçamento de Estado. A memória destes dias é histórica - as imagens de Teixeira dos Santos, ministro das Finanças de Sócrates, a dirigir-se para casa de Eduardo Catroga, negociador pelo PSD, para acordarem os termos da aprovação do OE 2011, são um cromo de exceção. Nunca um ministro se tinha posto assim ao dispor do partido líder da oposição. O socratismo estava a chegar ao fim e Passos já comandava o jogo. Poucos meses bastaram para o PSD desligar a máquina ao poder socialista. Depois de aprovar o OE em outubro, chegado abril, o partido chumbou o PEC IV e fê-lo em grande estilo: num comunicado em inglês enviado à Reuters, Passos diz que "não pode estar ao lado de medidas que impõem sacrifícios aos membros mais vulneráveis da sociedade". Uma frase que viria a engolir com a entrada da troika e ao tomar posse, depois de ganhar as legislativas em junho, à frente de um Governo que rapidamente teve que aplicar "um enorme aumento de impostos". Uma frase para sempre colada ao rosto de Vítor Gaspar.

2012 - A manif

O aperto do resgate foi brutal e a Constituição, que o PSD não chegou a rever, tornou-se numa pedra a complicar o caminho. Várias medidas que Passos tentou aplicar esbarraram em chumbos junto do Tribunal Constitucional, a começar pelo corte nos subsídios de Natal e de férias dos funcionários públicos. Na busca de alternativas, Passos tem a ideia peregrina de aliviar a TSU dos patrões ao mesmo tempo que a aumentava para os empregados. E quase incendiou o país. O povo saiu à rua - falou-se de um milhão de pessoas - a gritar "Que se lixe a troika" e o primeiro-ministro, que pouco antes tinha sugerido aos portugueses que não fossem "piegas", viu-se obrigado a

Luí­s Barra

2013 - O irrevogável

A relação entre Passos Coelho e o seu parceiro de Governo nunca foi fácil. Paulo Portas teve sempre o pé na porta das medidas de austeridade, primeiro contra Vítor Gaspar, depois contra Maria Luís Albuquerque. E quando Gaspar saiu, Portas foi contra a escolha da substituta e bateu com a porta, chegando a anunciar uma saída "irrevogável". Sem querer, ofereceu a Passos Coelho um dos momentos mais nobres do seu mandato. Em defesa dos "interesses do país", o primeiro-ministro recusa a saída do seu parceiro de coligação, obriga-o a ficar, trava uma crise política, mas dá mais poder ao CDS e o Governo acaba por ganhar com isso. A coligação sobe nas sondagens, ganha prestígio no país e consegue relançar-se para as legislativas que daí a dois anos, contra todas as previsões, PSD e CDS, haviam de conseguir ganhar.

Luís Barra

2015 - Saída limpa e vitória

Em maio de 2014, o Governo dá um passo decisivo para a sua impressionante recuperação eleitoral. O apertado controlo do défice (que durante o passimo baixou de 11 para 3%), a performance de "bom aluno" que Passos (com a ajuda de Gaspar) cultivou em Bruxelas e na relação com a Alemanha, e o começo da ressurreição dos índices económicos - seja com o fim da recessão, seja com o começo da inversão dos índices do desemprego - levam o Governo a optar por sair do resgate sem programa cautelar. A saída limpa foi o começo de uma campanha eleitoral distendida, com Passos e Portas alinhados como nunca (o sobrolho carregado do primeiro-ministro deu lugar ao sorriso aberto e já ninguém se lembrava na rua das "grandoladas" que antes tinham fustigado a direita), e que acabaria por remeter António Costa - que as sondagens davam como vencedor - para uma derrota improvável.

José Carlos Carvalho

2017: Adeus. Eu volto

A vitória nas legislativas de 2015 foi o princípio do fim. Sem jogo de cintura para o jogo de Costa que se uniu à esquerda para encontrar alternativa à maioria não absoluta da direita, Pedro Passos Coelho nunca se ajustou ao papel de líder da oposição. Fiel à sua cartilha política e económica, recusou mudar, anteviu o Diabo como consequência para as populares reversões feitas pelo Governo PS face às suas políticas, e quando percebeu que a realidade não lhe dava razão, nunca se dispôs a cambalhotas. Pelo contrário, manteve-se na sua: o futuro mostrará que o caminho das esquerdas voltará a ter uma pesada fatura. Sempre a pensar mais no que acredita ser melhor para o país do que no partido, Passos queimou votos, cansou o PSD, e cansou-se a si próprio. Uma pesada derrota nas autárquicas de meio da legislatura levaram-no à inevitável saída de cena. Com um aviso: não se irá "calar para todo o sempre". A pose de estadista que cultivou durante sete anos teve, na hora da despedida, um registo humilde e magnânimo. A pensar numa futura candidatura presidencial?