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Montenegro não quer ir a jogo, entra Rangel

José Carlos Carvalho

Passos Coelho e Marco António Costa fazem elogios a Paulo Rangel, que fez levantar o Conselho Nacional ao demarcar-se de Rui Rio

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Luís Montenegro foi esta terça-feira ao Conselho Nacional do PSD fazer um discurso de elogio a Pedro Passos Coelho, que não trazia uma única linha que pudesse ser lida como um sinal de que estará disponível para se candidatar à liderança do PSD. "Um discurso para cumprir calendário", resumiu um dos conselheiros que estava na sala, fechada à comunicação social. A palavra que foi passando ao longo da tarde - Montenegro estará mesmo irredutível na decisão de não se candidatar à sucessão de Passos – tinha ali a sua confirmação.

Em alternativa, logo depois de Montenegro, Paulo Rangel posicionou-se para poder entrar na corrida. Também elogiou Passos, como se impõe nestes momentos, chegando ao ponto de admitir que se tivesse ganho as eleições não teria feito muito diferente do ainda líder do PSD. Mas fez mais do que isso. Falou do que deve ser o PSD no futuro, na linha do que escreveu no Público esta terça-feira, apontando para a necessidade de conquistar setores da sociedade que se afastaram do partido nos últimos anos.

A intervenção de Rangel não foi no sentido de deitar abaixo a herança de Passos Coelho, mas de indicar o que deve mudar no futuro. Frisou mesmo que o PSD não deve "renegar estes anos" - pelo contrário, deve "ter orgulho do trabalho feito". Um registo bastante diferente do que tem sido prenunciado por Rui Rio, o único candidato pronto a entrar na disputa.

Mas não foi este o único ponto em que Rangel se demarcou de Rio. Se o ex-autarca do Porto é visto como o social-democrata que mais facilmente pode chegar a entendimentos com António Costa, o eurodeputado fez questão de se apresentar nos antípodas desse espírito.

"O PSD nunca poderá renunciar à oposição", disse, sobre o posicionamento em relação ao Governo PS. E recusou explicitamente qualquer tentação de reinventar o Bloco Central. Foi nesse momento que a sala irrompeu num enorme aplauso – todos perceberam que se tratava de uma resposta direta a Rui Rio.

Não é um acaso. Apesar de se muitas vezes apontado como próximo de Rio, Rangel discorda de muitas das grandes questões que o ex-autarca faz gala de introduzir na agenda política. Por exemplo, a forma como Rio se refere ao poder judicial. Ou a violência com que fala frequentemente do papel da comunicação social. Duas questões sobre as quais, num artigo publicado no

Público desta terça-feira, Rangel fez declarações de princípio que o distanciam de Rio. "Nos tempos que correm, externa e internamente, o PSD tem de ser inflexível na defesa da independência dos tribunais e da liberdade de imprensa e de expressão. (...) O nosso modelo é a democracia liberal, e não há que ter vergonha de dizê-lo, a democracia liberal ocidental."

Os elogios de Passos e Marco António

Nem de propósito – e nada por coincidência – Rangel foi alvo de elogios por parte de Passos Coelho e Marco António Costa.

Marco António, que anunciou que ira afastar-se de cargos executivos no partido, depois de sete anos ao lado de Passos, fez questão de deixar claro que quer "intervir ativamente como militante de base no futuro do partido". E começou logo a intervir. Lembrou o papel de Rangel, em 2014, quando foi cabeça de lista numas eleições europeias difíceis para a coligação e, apesar das previsões de derrota, conseguiu um bom resultado. "O Paulo Rangel permitiu lançarmo-nos com ânimo redobrado para vencer as legislativas", garantiu Marco António.

José Carlos Carvalho

Antes, no discurso de abertura do Conselho Nacional, Passos louvou o trabalho de Rangel no Parlamento Europeu, onde é vice-presidente do PPE. E disse que com o eurodeputado e o novo líder parlamentar, Hugo Soares, "aproveitaremos bem estes tempos para mostrar que o PSD é um pilar de estabilidade e de construção do futuro."

"Vai ser uma campanha alegre", previu Rangel. Já há quem veja a campanha alegre como a versão rangelista da campanha dos afetos de Marcelo. E uma campanha alegre também é qualquer coisa que pode distinguir Rangel de Passos.